Artigo
Opinião ou incitação?
“O pior país do mundo” não é uma crítica política, é a normalização de um velho discurso
Há textos que merecem debate. Outros exigem um limite.
“O pior país do mundo” não é uma crítica política – é a normalização explícita de um discurso que abandona qualquer compromisso com rigor intelectual, com fatos e, sobretudo, com responsabilidade moral. O texto busca construir um inimigo – e o nomeia de forma inequívoca: os judeus.
Ainda que tente diluir a estratégia sob o rótulo de “sionistas”, ao afirmar que “sionistas são todos criminosos” e ao associar judeus a manipulação financeira, controle da mídia e corrupção política, o artigo não apenas reproduz – ele recicla, com impressionante fidelidade – os mesmos arquétipos que historicamente alimentaram exclusões e massacres como o do Holocausto.
A retórica não tem nada de análise geopolítica contemporânea. Sob a falsa ressalva formal – “não é sobre judeus”, afirma que Israel “nunca deveria ter sido criado” e assim adentra livremente no território da negação da autodeterminação de um povo. Além disso, rotular de forma absoluta um Estado como “genocida e terrorista” é imputação totalizante que substitui fatos por slogans.
Não é novo. E é exatamente por isso que é perigoso. É antigo.
A ideia de que “judeus sionistas” controlam governos, mídia, finanças e cultura é daquelas narrativas de poder oculto, vaga o suficiente para não ser comprovada nem refutada, mas eficaz para mobilizar ressentimento. É uma reedição do mecanismo clássico de preconceito estruturado.
Atribuir a indivíduos isolados, como no caso de Jeffrey Epstein, uma identidade coletiva, como se crimes pessoais pudessem ser usados para incriminar um grupo inteiro, é expediente recorrente de antissemitismo dissimulado. Esse tipo de associação revela o padrão de exceção.
O resultado não chega a crítica política nem a análise de poder. É, obviamente, a construção de um inimigo abstrato, onipotente e moralmente corrompido, exatamente o tipo de formulação que dispensa provas, inviabiliza o debate racional e, historicamente, serviu como base para perseguições históricas.
No meio de tanta insipiência, insere-se ainda a promoção da própria obra, rompendo ostensivamente a fronteira entre reflexão e interesse pessoal. O argumento contém um componente de autopromoção que só reforça a suspeita de que a narrativa busca capitalizar sobre a própria peça de marketing.
O uso de termos agressivos como “medíocre”, “bisonho”, “genocida”, “assassino” e “massa criminosa” revela muito sobre o próprio autor. Indica preferência pela linguagem de condenação absoluta em vez de argumentação, tendência à generalização e desumanização, e substituição de análise por rótulos que dispensam evidência. É um estilo feroz que aposta na descarga emocional imediata e, justamente por isso, anula a própria credibilidade.
O texto constrói um inimigo abstrato, onipotente
Mencionar a origem judaica de Celso Lafer, Luís Stuhlberger ou “o judeu Ilan Goldfajn” para qualificá-los introduz um filtro identitário que é, por definição, discriminatório. O mesmo vale para invocar Hannah Arendt como rótulo depreciativo: em vez de discutir ideias, recorre-se à associação.
Finalmente, a sequência dos acontecimentos mais recentes: o atual ciclo de guerra não foi iniciado por Israel, mas pelo ataque em larga escala conduzido pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Afirmar que Israel iniciou a guerra é uma distorção factual da cronologia básica dos acontecimentos.
A linguagem que permeia todo o texto busca legitimar o ódio, glorificar a violência (vida longa ao Irã “com sua munição, mísseis e drones”) e relativizar a gravidade dos conflitos ao transformar um cenário trágico em narrativa de torcida.
Sem dúvida, vida longa ao Irã – não ao regime que o oprime, mas ao seu povo, aos iranianos que seguem como vítimas de um sistema teocrático e totalitário, submetidos a décadas de repressão, silenciamento e negação de liberdades básicas. Que se preserve a nação, sua história e sua cultura, mas que se supere a estrutura que a mantém refém.
Ao transformar um conflito complexo em uma narrativa sem moral e simplificada – com vilões absolutos e justificativas implícitas para hostilidade – o texto contribui para um ambiente onde o ódio deixa de ser constrangido e o antissemitismo pretende passar a ser autorizado.
E esse talvez seja o ponto mais grave. É sobre o tipo de discurso que estamos dispostos a tolerar no espaço público. Quando a linguagem abandona qualquer compromisso com responsabilidade e passa a operar pela lógica da demonização, o debate deixa de existir – e o que sobra é apenas radicalização.
“Preparem-se para um artigo violento” funciona como um prefácio involuntariamente honesto: quando o próprio autor avisa que abriu mão de medir palavras e de fazer ressalvas, ele confessa que deixará seus preconceitos expostos – está admitindo que trocou precisão por impulso. E, nesse caso, o alerta dispensa a leitura. •
*Foi secretária estadual de Desenvolvimento Social de São Paulo e é presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo e secretária-geral da Confederação Israelita do Brasil.
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Opinião ou incitação?’
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