Política
Ecos da Guerra Fria
Conheça o radiotelescópio Bingo, a “perigosa arma” plantada pelos chineses no Sertão da Paraíba, segundo um delirante relatório do Congresso dos EUA
Um projeto científico em desenvolvimento há quase 30 anos na Serra do Urubu, no sertão da Paraíba, ganhou inesperada repercussão após um comitê do Congresso dos Estados Unidos publicar, no fim de fevereiro, um relatório com ilações de que se trataria de um equipamento de espionagem a serviço da China, capaz de interceptar o sinal de satélites e monitorar comunicações eletrônicas. O devaneio faz referência ao maior radiotelescópio da América Latina, o Bingo, em fase de instalação no município de Aguiar, a cerca de 450 quilômetros de João Pessoa. Trata-se de mais um factoide criado por parlamentares republicanos para justificar uma eventual retaliação ao Brasil por parte do governo de Donald Trump, que não hesitou em inventar um fictício “Cartel de los Soles” antes de ordenar o sequestro de Nicolás Maduro, na Venezuela, no início de janeiro.
Desenvolvido majoritariamente por cientistas brasileiros, o Bingo se propõe a ser o único radiotelescópio do mundo a realizar a leitura das ondas acústicas de bárions no universo, utilizando tecnologia de ponta, em parceria com a China e vários outros países, entre eles Reino Unido, Holanda, África do Sul e até mesmo os EUA. A ideia é pesquisar a expansão do universo, debruçando-se sobre o cosmo não sondado. “Só conhecemos 5% do universo. Nosso intuito é desbravar os outros 95%, um ‘buraco escuro’ muito mais complexo e com muito mais detalhes do que se pensa”, salienta o físico Elcio Abdala, professor da USP e coordenador-geral do Bingo.
O projeto é coordenado pela USP e pela Universidade Federal de Campina Grande, com apoio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e com o governo da China, por meio da Yangzhou University. Em 2023, o presidente Lula assinou um termo de cooperação mútua com Pequim, no qual ficou acordado o uso pacífico do radiotelescópio, voltado à exploração do espaço profundo, tendo como base o Direito Internacional. Ou seja, o projeto não tem qualquer pretensão militar, como especula o Congresso dos EUA.
Coube aos pesquisadores chineses a fabricação dos equipamentos, em parceria com instituições científicas como o Observatório de Xangai, universidades e o Instituto CETC 54 – o mesmo que construiu o maior radiotelescópio do mundo, o Fast. “Os espelhos foram desenhados por nós, e a parte eletrônica, projetada a muitas mãos, envolvendo pesquisadores da China, da Inglaterra e do Brasil. Só que os chineses têm um setor de metalurgia muito avançado e com preços competitivos, então resolvemos contratá-los para fazer essa parte também”, comenta Abdala, lembrando que o projeto ainda contava com a participação de pesquisadores norte-americanos, que se afastaram do projeto após a eleição e posse de Trump.
A estrutura física do laboratório será entregue em abril, e a parte eletrônica deve ficar pronta no segundo semestre
O Bingo deve entrar em funcionamento em 2027. Até o fim de abril, toda a parte física estará montada e, no segundo semestre, a parte eletrônica ficará pronta, quando terá início a fase de comissionamento – etapa que envolve testes e eventuais ajustes. O equipamento contará com placas metálicas espelhadas, com curvas parabólicas e hiperbólicas, que coletam a informação na forma de radiação e a refletem entre si em um projeto óptico, enviando, em seguida, os sinais para várias cornetas que compõem a estrutura do radiotelescópio. Com isso, ele será capaz de mapear emissões de hidrogênio no espaço escuro por meio de ondas de rádio, utilizando as oscilações acústicas de bárions para medir a expansão do universo.
No entanto, segundo o relatório do Congresso dos EUA, o Bingo estaria inserido em uma “extensa rede de infraestrutura espacial de uso dual na América Latina”, instalada pela República Popular da China (RPC). “Pelo menos 11 instalações espaciais ligadas à RPC, consistindo em estações terrestres, radiotelescópios e locais de medição a laser de satélites, estão situadas na Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil. Esses locais possuem capacidades de uso dual (civil e militar) e estão vinculados a diversas entidades ligadas ao Exército de Libertação Popular”, diz trecho do documento, que parece ter sido redigido no auge da Guerra Fria. O relatório vai além ao afirmar que o radiotelescópio paraibano teria capacidade de “interceptar, classificar e isolar pulsos de radar militar, telemetria de satélites e atividades de guerra eletrônica com extrema sensibilidade”.
“O projeto é brasileiro. Não faz o menor sentido essa ilação. O Brasil investiu cerca de 40 milhões de reais, e a maior parte dos estudos foi desenvolvida por pesquisadores nacionais. A etapa de análise foi adquirida de uma empresa sul-africana – um software comercial que qualquer radiotelescópio pode utilizar –, enquanto todos os amplificadores vieram dos EUA. A China participa como parceira por ter sido responsável pela construção da parte mecânica”, afirma Alexandre Wuensche, coordenador científico do Bingo e diretor do Inpe. Ele também rebate as acusações: “Não há nem o que dizer, o relatório é completamente absurdo”. Abdala reforça a crítica ao cenário político: “Governos norte-americanos anteriores também eram imperialistas, mas buscavam apresentar-se como democráticos. O atual caça desculpas para invadir”. Wuensche conclui destacando o caráter científico da iniciativa: “Estamos fazendo ciência. Queremos entender por que o universo está em expansão acelerada e qual é a causa desse fenômeno”. •
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ecos da Guerra Fria’
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