Mundo
Biruta de aeroporto
Perdido na guerra, Trump passa a alternar oferta de diálogo com ameaças de um verdadeiro massacre
Caso o Irã não aceite os 15 pontos propostos pelos Estados Unidos para encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro, Donald Trump tornará a vida impossível no país persa. Estações de tratamento de água, poços de petróleo e usinas de energia elétrica serão bombardeadas, enquanto um contingente de milhares de paraquedistas e de fuzileiros navais tentarão a sorte em um arriscado desembarque aéreo-naval. Uma ação dessa envergadura, num curto espaço de tempo, dirigida contra um país onde vivem 93 milhões de habitantes, constituiria um dos maiores crimes de guerra dos últimos 80 anos, por ter como alvo proclamado as estruturas civis. Com essa ameaça, Trump espera fazer com que o Irã finalmente se dobre.
A intimidação, publicada pelo presidente dos Estados Unidos em suas redes sociais na segunda-feira 30, é uma rara confissão de intenção criminosa. Ataques deliberados contra instalações indispensáveis à vida da população são crimes de guerra, assim como aqueles a locais que contêm substâncias perigosas, como usinas atômicas e refinarias, que, em caso de incêndio, provocam danos extensivos e duradouros ao meio ambiente, tornando, em alguns casos, a vida simplesmente impossível.
Não é que os crimes de guerra em si sejam uma novidade no cardápio de ações dos Estados Unidos neste conflito ou mesmo ao longo de sua história, como mostram Hiroshima e Nagasaki, mas a forma explícita como essas intenções criminosas têm sido proclamadas não tem precedentes. “Isso será uma retaliação por nossos muitos soldados”, disse Trump no post, referindo-se aos ataques iranianos contra bases norte-americanas ao longo do último mês. Esses ataques aos quais ele se refere não representam crimes de guerra, pois “soldados”, como ele mesmo reconhece, são alvos legítimos em conflitos armados.
A ameaça extrema contrasta com outros trechos da mesma mensagem, nos quais o presidente norte-americano dá a entender que as conversações com integrantes do governo do Irã levaram a “grandes progressos”. Ninguém em Teerã diz saber que conversas são essas. Trump não dá nome dos supostos interlocutores do que ele chama de um “novo regime”, que estaria disposto a negociar a reabertura do Estreito de Hormuz e outros pontos empacados na negociação que seria intermediada pelo Paquistão.
O ziguezague de Trump, entre ameaças de dilaceração do Irã e elogios a um “novo regime” mostram o ponto exato em que os Estados Unidos se encontram depois de um mês de guerra: sozinhos, sem seus aliados europeus, premidos por uma ameaça de crise econômica provocada pela alta no preço do petróleo e a menos de um ano de uma eleição parlamentar importantíssima para o segundo mandato de Trump, cujo índice de reprovação chegou a 59% em pesquisa divulgada pela Fox News em 25 de março. No sábado 28, manifestantes tomaram as ruas das principais cidades dos EUA em mais um “No King’s Day”, protesto contra o avanço autoritário do republicano. Os organizadores falam em 9 milhões de participantes.
Nem mesmo as relações com Israel resistiram ao primeiro mês de guerra. Primeiro, foram estrelas do movimento MAGA que se revoltaram com a informação de que os Estados Unidos tinham sido arrastados por Israel para o conflito com o Irã. A informação, dada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, deu início a uma campanha de críticas a Trump de parte daqueles apoiadores mais radicais. O “America First”– um dos lemas da campanha republicana, que significa algo como “Estados Unidos em primeiro lugar” – pareceu ser substituído por um “America Second”, no qual os interesses nacionais e patrióticos norte-americanos ficaram a reboque das políticas de Benjamin Netanyahu.
A base do MAGA anda irritada com a influência israelense
Como se não bastasse a contrariedade provocada pela declaração de Rubio, o governo israelense ainda tomou, mais tarde, uma atitude radical contra os interesses cristãos em Jerusalém, o que voltou a irritar uma base trumpista não apenas ultranacionalista, mas muito cristã. No domingo 29, Pierbattista Pizzaballa, o responsável da Igreja Católica no Santo Sepulcro, em Jerusalém, foi proibido pela polícia israelense de realizar os serviços típicos de Domingo de Ramos, uma das datas mais sagradas do cristianismo, num de seus locais mais sagrados, onde se acredita que Cristo tenha sido enterrado, antes de ressuscitar, de acordo com a Bíblia.
A proibição deveu-se, segundo o governo israelense, a preocupações de segurança. Netanyahu disse que o local havia sido atingido por destroços de um foguete ou míssil iraniano dias antes, e que seu governo temia um ataque direto, na data importante que é o fim de semana que antecede a Páscoa. A explicação demorou a ir a público, fazendo com que cristãos no mundo todo se revoltassem contra a restrição imposta por Israel a um local de culto que não pode ser perturbado e onde o ingresso de autoridades religiosas não pode ser proibido.
Mais uma vez, figuras importantes do trumpismo se levantaram contra o que lhes parece ser uma interferência excessiva e cada vez mais agressiva de Israel em assuntos norte-americanos e cristãos. O embaixador dos Estados Unidos em Jerusalém, Mike Huckabee, chegou a publicar mensagem em redes sociais dizendo que o episódio constituiu um “exagero lamentável, com repercussões em todo o mundo”, e que é “difícil de entender ou explicar” o comportamento do governo local nessa história.
Israel e Estados Unidos têm interesses convergentes e independentes nesse conflito. Netanyahu e Trump esticam a amizade até o limite, com os norte-americanos dando sinais de que pretendem abandonar a aventura militar no Oriente Médio antes de seus parceiros. Na prática, o Estreito de Hormuz está completamente aberto para todos, menos para países que o Irã considera inimigos. O efeito disso é como se os Estados Unidos estivessem sofrendo na pele o embargo que impuseram durante anos contra o Irã.
A liberação da passagem de navios é feita a conta-gotas. Na segunda-feira, 20 navios-tanques do Paquistão foram liberados. Trump apressou-se em classificar o evento como um “presente” para a Casa Branca, mesmo não havendo indícios de que Teerã queira amolecer sua posição. “Estamos sob agressão militar. Portanto, todos os nossos esforços e forças estão concentrados em nos defender”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, resumindo a posição do país até o momento. •
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Biruta de aeroporto’
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