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Soberania e combustíveis fósseis
A forte dependência de petróleo e gás importados ameaça a segurança nacional e o custo de vida. Sistemas energéticos mais seguros, autônomos e sustentáveis são a atual palavra de ordem
A segurança energética está cada vez mais ligada à capacidade de reduzir a dependência de combustíveis fósseis e diversificar as fontes de energia. O atual conflito no Oriente Médio evidencia os riscos de dependência estrutural, incluindo volatilidade de preços, riscos geopolíticos e impactos ambientais severos. Petróleo, carvão e gás natural são os principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa, intensificando a crise climática. Nesse contexto, a transição para energias renováveis, como solar, eólica e biomassa, deixa de ser apenas uma opção ambiental e passa a ser uma estratégia essencial para a soberania e a estabilidade econômica.
O petróleo tem sido uma das principais causas de guerras modernas. Entre um quarto e metade das guerras interestatais entre 1973 e 2007 estiveram ligadas à commodity. Uma transição para energias renováveis pode ajudar a mitigar conflitos internacionais. Países europeus que tiveram de deixar de ter acesso ao gás russo descobriram que investir em geração eólica e solar lhes traria soberania no setor energético. A União Europeia e a maior parte dos países tiveram fortes aumentos de preços dos combustíveis fósseis desencadeados pelo conflito no Oriente Médio. Ficou demonstrado que a forte dependência de petróleo e gás importados ameaça a segurança nacional e o custo de vida. As ações governamentais para minimizar o novo choque do petróleo ocorrem nos quatro cantos do planeta.
Investir em fontes limpas, descentralizadas e tecnologicamente acessíveis fortalece a resiliência dos sistemas energéticos, reduz vulnerabilidades geopolíticas e promove desenvolvimento sustentável. Isso é particularmente importante para países como o Brasil, com um dos maiores potenciais de geração de energia solar e eólica. Essa estratégia poderia tornar o Brasil uma potência energética global, com energia barata, limpa e renovável.
A transição para fontes renováveis redefine o conceito de segurança energética ao introduzir maior diversificação e descentralização na matriz energética. Diferentemente dos combustíveis fósseis, essas fontes são abundantes, amplamente distribuídas e menos sujeitas a disputas geopolíticas. Além disso, os avanços tecnológicos têm colocado os custos da geração renovável muito abaixo dos combustíveis fósseis. Ou seja, além disso, é um negócio melhor. Sistemas energéticos mais seguros, autônomos e sustentáveis são a atual palavra de ordem.
A continuidade do uso intensivo de combustíveis fósseis compromete não apenas o equilíbrio climático, mas também a estabilidade econômica e social de longo prazo. Eventos extremos, escassez hídrica e mudanças nos padrões climáticos já afetam diretamente a geração e o consumo de energia, evidenciando que a crise climática também é uma crise energética. Não podemos esquecer que os combustíveis fósseis são responsáveis por 90% das emissões de dióxido de carbono, o principal gás de efeito estufa.
Essa necessária transição energética traz, no entanto, desafios importantes. A intermitência de algumas fontes renováveis exige investimentos em armazenamento de energia, redes inteligentes e sistemas de gestão mais sofisticados. Também é fundamental garantir que a transição seja justa, beneficiando os setores economicamente mais vulneráveis e contribuindo para a redução das desigualdades sociais. No Brasil, atualmente cerca de 20% da geração solar e eólica está sendo jogada fora, pela inadequação das redes de transmissão nacionais. A modernização por meio da implantação de smart grid é uma necessidade urgente.
O fim dos combustíveis fósseis não representa apenas uma mudança tecnológica, mas uma transformação estrutural nos sistemas produtivos e nos padrões de consumo. Países que liderarem esse processo tendem a fortalecer suas seguranças energéticas, reduzir vulnerabilidades externas e impulsionar novas cadeias de valor baseadas na economia de baixo carbono, preservando as bases que sustentam a vida no planeta. •
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Soberania e combustíveis fósseis’
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