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Médica, professora titular da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento da Saúde

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Na antevéspera das eleições

Vamos à luta pela saúde ou nos manteremos acendendo velas à esquerda e à direita nestes tempos decisivos para os direitos e a democracia?

Na antevéspera das eleições
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Missão. “Lula tem reiterado a preocupação com represamento de exames, cirurgias eletivas e diversos procedimentos”, disse Trindade, ao tomar posse. Imagem: Walterson Rosa/MS e Ministério da Saúde
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Candidaturas anunciadas ou ensaiadas já se acompanham de críticas (ao que aí está) e de proposições para a saúde no âmbito nacional. Ideias, interesses brutos ou já lapidados e projetos, ainda que imprecisos, estão circulando.

O doutor Queiroga, ex-ministro de Jair Bolsonaro, lançou em fevereiro o Plano Real da Saúde, “reforma” baseada na revisão de valores da tabela SUS e remuneração adequada de profissionais.

O atual repeteco do programa eleitoral do PL em 2022, destituído de qualquer menção ao fato de não ter sido implementado durante o mandato autoritário-negacionista, tem como propósitos imediatos tracionar a candidatura do autor da cópia ao Senado e angariar apoios de parte do empresariado setorial e entidades médicas e enfermagem.

Presumivelmente, diante do vazio de ideias e compromissos com a melhora da saúde, setores democráticos tratariam de apresentar uma plataforma coe­rente com o atendimento às necessidades de cuidados à saúde, que figuram nos primeiros lugares dos rankings de todas as pesquisas de opinião.

Mas não é bem assim. Em eleições anteriores, as candidaturas majoritárias convergiram em torno de disputas sobre promessas inviáveis de fazer o mesmo, só que mais e em menor tempo.

A forte preocupação em atrair grupos de eleitores com maior capacidade de vocalização de interesses e omissão em relação a qualquer perspectiva de mudanças estruturais concretas deixou marcas duradouras.

O Ministério da Saúde efetivamente destruído durante os governos de direita e extrema-direita, reconstruído nas gestões de Nísia Trindade e Alexandre Padilha, saiu do atoleiro, mas ainda encontra dificuldade para coordenar e levar adiante iniciativas de fôlego e repercussão nacional.

Avanços e tentativas de afirmar o SUS universal têm sido contrapostos por interesses particulares, também abrigados no interior das coalizões políticas de direita-centro-esquerda.

Movimentos em ziguezague, talvez inevitáveis, atendem pragmaticamente bases de apoio, mas fragmentam e rebaixam o horizonte de mudanças de ampliação e fortalecimento do setor público possíveis.

O vácuo de projetos viáveis e factíveis para um SUS público, contemporâneo, progressivamente abrangente e qualificado, foi recentemente ocupado por esforços de duas naturezas: a reorganização das bases institucionais da saúde e a renovação de lobbies.

Os primeiros se referem tanto à proposta do Instituto Todos pela Saúde, de criação de um órgão específico para prevenção e controle de doenças – respaldada por cientistas e técnicos, quanto à recomendação, inspirada em demandas empresariais, de turbinar a ANS, atribuindo-lhe competências de regular inovações tecnológicas.

Por sua vez, como ocorre desde o início dos anos 2000, a abertura da temporada eleitoral coincide com o retrofit de grupos de pressão, que apresentam suas demandas por expansão de mercados como única solução para a saúde no Brasil.

Diligências sinalizando direções opostas não são inéditas e costumam ser bem-sucedidas. Como se a segregação nos cuidados à saúde fosse inexorável e, para alguns, até virtuosa. O jogo começou. Como iremos competir em 2026?

A soma das disputas sobre distribuição de canetas emagrecedoras, tamanho da fila e número de ambulâncias não resulta em um sistema de saúde.

A ausência de alternativas de prevenção e atendimento para violências, abortos, poluição ambiental, consumo de alimentos ultraprocessados, álcool e drogas, soluções efetivas para os elevados gastos de indivíduos e famílias com medicamentos (que são atenuados pelo Programa Farmácia Popular, mas nem de longe equacionados) e os posicionamentos sobre iniciativas governamentais – que estimulam a maré montante de subsídios, gastos públicos e apoios políticos ao setor privado –, autorizam tacitamente desigualdades e racionamento do acesso para a maioria da população.

Vamos à luta pela saúde ou nos manteremos acendendo velas a torto, à esquerda e à direita em tempos decisivos para os direitos e a democracia? •

Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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