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Os bilhões do Master e o racismo no Brasil

O sistema aceita grandes perdas quando envolvem a elite, mas reage em pânico quando recursos são reivindicados por organizações negras

Os bilhões do Master e o racismo no Brasil
Os bilhões do Master e o racismo no Brasil
Foto: Banco Master/Divulgação
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No Brasil, o dinheiro não é apenas uma medida de valor, ele tem cor. E não apenas neste país, é claro, mas o peso de um bilhão de reais na balança da justiça depende quase inteiramente da mão que o segura.

Enquanto rombos bilionários protagonizados por grandes corporações e elites financeiras são tratados com eufemismos — viram “falhas administrativas e riscos inerentes ao mercado” ou “crises de liquidez” — qualquer movimento em direção à reparação histórica é imediatamente enquadrado como ameaça à estabilidade econômica ou “quebra da responsabilidade fiscal”.

O colapso do Banco Master, liquidado em 2025, se demonstra como uma das maiores fraudes ao sistema bancário do país, sob o comando de Daniel Vorcaro. A instituição emitiu cerca de 50 bilhões de reais em CDBs sem qualquer lastro, utilizando créditos fictícios para inflar um patrimônio que não era real. O impacto foi sistêmico, drenando quase um terço do caixa do Fundo Garantidor de Créditos, o seguro criado para  proteger as pessoas que podem e que conseguem investir.

A investigação revelou ainda que o esquema subornava chefias da supervisão do Banco Central, com pagamentos a servidores que atuavam como “consultores informais”, revisando documentos e antecipando fiscalizações para garantir que a fraude continuasse operando sob o radar. Para quem ousasse questionar, o banco mantinha uma estrutura de coerção a possíveis ameaças, além de invadir sistemas e sequestrar dados confidenciais.

Não é apenas uma fraude; é o uso do capital para corromper as instituições e comprar o direito de estar acima da lei, reservado às elites esbranquiçadas. O sistema financeiro se ocupa de “limpar” rombos bilionários, enquanto as periferias pagam a conta em litros de sangue e lágrimas.

A “guerra às drogas” é, na prática, um mecanismo de controle racial que utiliza a morte como exercício de poder soberano. Não é apenas um desastre humanitário, não é uma falha, é a sua ferramenta de estabilidade. O Estado gastou em um período de 20 anos, entre 1996 e 2015, 285 bilhões de reais — um valor cinco vezes maior que o rombo do Banco Master — para manter uma engrenagem que encarcera e mata sob o pretexto de uma “paz social” que só existe para quem não vive sob a mira do fuzil. É a necropolítica transformando o medo em mercadoria para comercializar uma sensação de segurança para as classes altas.

Às vezes, a violência não usa fuzil, mas burocracia e preconceito.

A Iniciativa Negra enfrentou racismo religioso em uma agência da Caixa Econômica Federal em São Paulo, incluindo exigências anômalas, como a obrigatoriedade de “visitas presenciais às suas instalações como condição para autorizar operações”, e pressão religiosa de um gerente que tentou condicionar a solução de problemas bancários à conversão da gerente financeira da organização.

Imagine tentar gerir projetos sociais financiados por doações públicas e ser barrado por um gerente que usa o controle do seu dinheiro como púlpito. Isso prova que o sistema bancário não é neutro; ele reflete e reforça os preconceitos de quem detém a chave do cofre.

Daniel Vorcaro e o Banco Master geraram um prejuízo de 50 bilhões de reais, corromperam servidores federais com subornos milionários e ameaçaram jornalistas. No entanto, tratam o caso como uma “fraude complexa” de uma elite que busca “recuperação”.

Por outro lado, a Iniciativa Negra protocola um pedido de reparação de 2 bilhões de reais contra a Caixa por racismo religioso e danos operacionais.

O sistema aceita grandes perdas quando envolvem a elite, mas reage em pânico quando recursos são reivindicados por organizações negras, pois isso representa autonomia e poder econômico. Assim, a elite branca trata a recuperação como direito, mas, se for para os negros, é vista como um custo inaceitável.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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