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Eles combinaram de nos matar, e nós combinamos de lutar
No mês em que a lei de feminicídio brasileira completa 11 anos nos deparamos com uma escalada no número de casos e com a espetacularização da violência
Março é, historicamente, um mês em que toda a sociedade volta sua atenção para a situação das mulheres — ou, ao menos, deveria voltar. Neste março de 2026, porém, o Brasil assiste a um dos piores cenários possíveis: uma avalanche de casos de feminicídio e de violência contra as mulheres.
No mês em que a lei do feminicídio completa 11 anos, nos deparamos com uma escalada vertiginosa no número de casos e com a espetacularização daquilo que deveria ser reconhecido como uma das maiores atrocidades do nosso tempo: a violência contra mulheres e meninas.
Ao longo de quase dez anos dedicados ao estudo do feminicídio, nunca vi números tão altos. Enfrentamos o que muitas pesquisadoras já chamam de “epidemia do feminicídio”: mais de quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em 2025, apontam um recorde histórico: 1.568 vítimas, um aumento de mais de 4% em relação a 2024.
Quando fazemos um recorte racial, observamos a permanência de um padrão que materializa a intersecção entre machismo e racismo: 62,6% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. O dado confirma, mais uma vez, que são elas as maiores vítimas dessa violência — e que essa realidade se agrava.
Foi também neste mês que a deputada Érika Hilton sofreu ataques violentos após ser nomeada presidente da Comissão de Direito das Mulheres da Câmara dos Deputados. Nesse caso, a violência política de gênero e raça se encontrou com a transfobia, materializando um dos episódios mais tristes e revoltantes que vimos recentemente.
Não é coincidência que tanto o feminicídio quanto a violência de gênero e a violência política venham aumentando ano após ano. Temos assistido ao avanço do discurso de ódio contra as mulheres, dos movimentos redpill, do conservadorismo e de suas agendas antigênero, além da performance de masculinidade pela violência. Todos esses fenômenos encontram eco no ambiente das redes sociais, que protege agressores sob o manto do anonimato, não tem compromisso com a verdade nem com a proteção das vítimas e segue sem regulamentação. Dessa combinação emerge um espetáculo do ódio, em que vídeos de agressões são compartilhados e memes são criados para normalizar algo tão perverso.
Enquanto vivemos esse cenário tenebroso no Brasil, no plano internacional ocorreu, neste mesmo mês, a 70ª CSW (Conferência da ONU sobre a Situação da Mulher). Mulheres de diferentes partes do mundo, em toda a sua diversidade, reuniram-se para debater, articular e fortalecer a agenda global de direitos das mulheres. Neste ano, o tema central do encontro foi o acesso à justiça — e dificilmente poderia haver assunto mais pertinente à luz de tudo o que relatei.
Debater o acesso à justiça em escala global tornou-se urgente, já que os movimentos de ódio contra as mulheres estão articulados internacionalmente e compartilham um mesmo centro de sentido e simbolismo. Precisamos encontrar soluções que protejam todas nós, não importa em que país estejamos, para que possamos nos tornar, de fato, sujeitas de direitos.
Refletir sobre o acesso à justiça, sobretudo a partir da experiência das mulheres e, em especial, das mulheres negras, é associar justiça à garantia de não repetição. Para muitas de nós, mulheres negras, ativistas e defensoras de direitos humanos, a justiça foi por anos um conceito difícil de materializar. Com o caso de Marielle Franco, tivemos ao menos um vislumbre de esperança.
Historicamente, nós, mulheres — e especialmente mulheres negras —, lutamos pelo coletivo. Agora, mais uma vez movidas pela indignação, exigimos que nenhuma mulher seja vítima de violência de gênero ou de violência política. Queremos que nenhuma de nós seja interrompida. Para nós, justiça significa vida.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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