José Guilherme Pereira Leite

Escritor, crítico, ensaísta e professor universitário. É doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo.

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O governador não dirá nada

O silêncio de Tarcísio de Freitas sobre recentes casos de violência em São Paulo é espelho de País que aprendeu a aceitá-la

O governador não dirá nada
O governador não dirá nada
o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Foto: Nelson Almeida/AFP
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O jornalismo é uma modalidade das ciências sociais, eu o vejo desse modo, e nisso não estou sozinho. As ciências sociais, por sua vez, só avançam pelo comparativo: é preciso olhar os outros, as múltiplas formas de vida, as diversas culturas e fazer, do contraste, surgir um aprendizado. Por isso, a utopia do cidadão consciente, que envolve o exercício do jornalismo, baseou-se com muita força na ideia da informação global, planetária, a fim de que pudéssemos ver o “estado do mundo”, primeiro de uma forma imediata (a simples notícia), depois com o devido aprofundamento (a investigação mais ampla).

O Brasil é um país em que a violência é normal. Esse dado emerge da comparação com outras sociedades. O que isso quer dizer? Quer dizer que, em nosso país, é mais ou menos “ok” você bater em outra pessoa. Você pode se dar mal se a outra pessoa for mais forte, mas é muito improvável que – batendo ou apanhando no final – você seja penalizado. Punição, entre nós, é também violência e suplício. Veja-se o que fazem as nossa polícias, com tanta frequência. Veja-se os linchamentos. Veja as técnicas de intimidação do crime em seus “acertos de conta”. Veja-se as nossas cadeias. É uma pancadaria generalizada.

Do mesmo modo como se considera “normal” resolver um problema “na porrada”, considera-se relativamente “normal” que um homem bata em uma mulher. “Normal”, nesse caso, não contém nenhuma justificativa do autor: a sociedade é quem diz se uma coisa é “normal” ou não é, e ela quem tolera ou não tolera, de várias maneiras (leis realmente aplicadas, escândalo e sanção, banimento, ruptura de relações). Pessoas como eu e alguns de vocês leitores/leitoras ficamos chocados com essa “normalidade”. Não é que sejamos poucos. É que eles são muitos.

Há um erro de diagnóstico por parte da esquerda quando denuncia a suposta incoerência do ‘cidadão de bem’. O que esta turba está pedindo, quando usa as palavras ‘justiça’ e ‘segurança’, é apenas mais porrete

Existem até ditados que demonstram essa “naturalidade”, sendo deles o mais famoso: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Crescemos ouvindo isso e depois percebemos, espantados, o quão asquerosas são essas palavras. Elas exprimem a disjunção escandalosa entre o público e o privado e colocam as relações conjugais, amorosas e afetivas numa espécie de reservatório blindado, fora da órbita do Estado, fora da esfera jurídica. O Brasil é um convite a bater. E avessa à regulação de tudo, é coerente que a direita de sempre se cale diante dessa “violência pátria”, “violência do patriarca”. Estendida para esferas mais amplas, ela se torna a violência chauvinista da patriotada, em nome da qual se ‘perdoa’ tudo: golpes de Estado – falhados ou não –, depredações do patrimônio público, tortura “em nome da segurança nacional”, abuso de poder e etc.

Quem aí lembra dos versos de Moreira da Silva? “Na subida do morro me contaram que você bateu na minha nega, isso não é direito, bater numa nega que não é sua”. A canção molda a fala de um malandro, “mordido” em seu orgulho, que chega encontra o colega “covarde” para um castigo. O castigo é matá-lo, quer dizer, a vingança é um quantum aumentado de violência, que no fim não se perpetra e gera no homem “ferido” um impulso suicida.

É por isso, e fundamentalmente por isso, que o primário governador de São Paulo se cala sobre os feminicídios, autoriza a PM a bater em estudantes e se omite sobre um policial que assassinou sua companheira, assim como sempre calou-se frente à violência escravista que as forças da repressão dirigem hipocritamente aos jovens habitantes das periferias metropolitanas, especialmente os negros.

O governador é “um homem de seu tempo e de seu meio”: quanto mais se rebaixar nesta matéria, maiores as simpatias eleitorais que ele há de colher.

Há um erro de diagnóstico por parte da esquerda quando denuncia a suposta incoerência do chamado “cidadão de bem” – que bate na própria esposa, domingo depois da missa, e clama na segunda-feira por “justiça” e “segurança”. O que esta turba está pedindo, quando usa as palavras “justiça” e “segurança”, é apenas mais porrete na cabeça dos não-proprietários, sobretudo quando estes se comportam de maneira “problemática”. A “colher de medida” é a mesma e pode ser utilizada em qualquer situação: sem-terra, sem-teto, mulheres insurrectas, trans organizados, estudantes insurgentes, militantes e etc.

***

Circulou na internet, nos últimos dias, um video nauseabundo em que um brasileiro desses utiliza um pedaço de pau para surrar um motoboy, que ele acusa de estar fumando maconha na porta do seu prédio. Na verdade –fica claro no correr dos minutos, o entregador estava apenas enrolando um cigarro de tabaco. O agressor sai de cena impunemente, amparado por cretinos semelhantes e contando com a proteção ativa de um capanga vestido de preto –essa é outra figura social que também “normalizamos”, e cuja razão de existir é uma violência tácita, eminente, pronta para ser acionada a um simples comando do patrão contratante. Percebes, leitor, que estamos chafurdando em violência, mesmo nós que jamais a cometemos, mas que estamos protegidos por um arranjo social que transpira violência o tempo todo?

O que chama a atenção, nesse video, é a tranquilidade com a qual o homem “cheio de si” descarrega a sua fúria sobre o outro. Essa tranquilidade está ligada à certeza de que, mesmo que ele esteja eventualmente enganado, nada de muito grave acontecerá com ele. Ele pode dispor do corpo do outro sem grandes ônus. Os exemplos tendem ao infinito. Testemunhei recentemente, no centro de São Paulo, uma pancadaria entre quatro moradores de rua, três contra um. Dois deles tinham paus com prego. A polícia – sempre tão “macha” para dar suas duras “da ponte pra lá” – chegou nesse caso para apenas dispersar os lutadores, que saíram cada um por uma rua. A briga durou bastante e aconteceu às 13h30, em meio a uma grande quantidade de pessoas, profissionais liberais e funcionários públicos que almoçavam em mesinhas na calçada.

Não, senhoras e senhores, não digam que “foi no Centro”, onde “isso é normal”. Este cronista já testemunhou dois linchamentos em bairro nobre, e não recomenda. Motoboys – como aquele que apanhou no video mencionado acima – paravam suas motocicletas e desciam para “dar na cara” do acusado (acusado de furto ou roubo), usando capacetes como tacapes. Formou-se, nas duas ocasiões, uma curiosa aliança entre entregadores e porteiros, para massacrar o “meliante”. Esse mesmo cronista viu também um homem rico de 60 anos bater em um menino rico de 14 anos porque este estava rindo muito alto no recinto de uma quadra de tênis, em clube da high-society às margens do Rio Pinheiros. “O tênis exige silêncio”, diziam as placas espalhadas em volta.

Quem exige silêncio hoje é a violência ignominiosa com a qual a sociedade brasileira continua disposta a resolver seus problemas e conflitos. E silêncio ela tem recebido, seja de “homens comuns” como nós, policiais praticantes ou cúmplices, magistrados covardes, carcereiros coniventes e até de mulheres que frequentemente se calam, com medo (justificado) de seus agressores, ou por alguma concordância incongruente com essa ordem geral de coisas. E do crime organizado nem se fale: ele vai se criando na lei da selva e agora fornece dinheiro para o “andar de cima”, que se cala.

Não, o governador de São Paulo não dirá de fato nada, pois é feito desse mesmo barro, e além disso é tributário da tradição militarista verde-amarela (capítulo mais longo e profundo dessa mesma história). Se disser alguma coisa, será para ofender o veículo e/ou autor dessas linhas.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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