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Primeira Bienal de Arquitetura Brasileira transforma Pacubra em condomínio de casas nacionais
A arquitetura brasileira ganhou, a partir de 25 de março de 2026, uma nova vitrine; mas, talvez “vitrine” seja pouco. A primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) ocupa o Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, com uma proposta que escapa do modelo […]
A arquitetura brasileira ganhou, a partir de 25 de março de 2026, uma nova vitrine; mas, talvez “vitrine” seja pouco. A primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) ocupa o Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, com uma proposta que escapa do modelo expositivo tradicional e se aproxima mais de uma experiência imersiva, quase sensorial. Não é só sobre ver arquitetura, mas sobre atravessá-la.
O espaço foi transformado em uma espécie de condomínio simbólico, onde diferentes casas apresentam, lado a lado, múltiplas formas de morar no Brasil. São 20 mil metros quadrados de exposição, distribuídos em 28 pavilhões organizados por biomas, uma curadoria que já indica, de saída, que o recorte aqui não é apenas estético, mas também territorial, cultural e climático.
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A escolha do lugar reforça esse discurso. O edifício modernista, inserido em um dos pontos mais emblemáticos de São Paulo, não funciona apenas como cenário, mas como parte da narrativa. A Bienal se ancora na cidade para ampliar o acesso e reposicionar a arquitetura como algo que pertence ao cotidiano, e não apenas ao repertório técnico. A expectativa de público segue essa ambição: mais de 160 mil visitantes na área principal, com potencial de ultrapassar 1 milhão considerando a programação externa.
Mais do que um evento, a BAB nasce como plataforma. Idealizada por Anna Rafaela Torino, Raphael Tristão e Felipe Zullino, a iniciativa tenta responder a um gargalo conhecido do setor: a distância entre arquitetura e público. Hoje, apenas 9% das reformas no Brasil contam com acompanhamento de arquitetos, segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo CAU Brasil em 2022, um dado que ainda ecoa no diagnóstico atual do mercado.
Arquitetura como experiência cotidiana e plataforma de negócios

Créditos: Divulgação/Bienal de Arquitetura Brasileira
Legenda: Acre – Casa Empate Mulheres Seringueiras, por Marlúcia Cândida
A Bienal propõe um modelo híbrido que mistura exposição, conteúdo e oportunidades comerciais. Esse é um formato que dialoga diretamente com o comportamento contemporâneo de consumo, cada vez mais orientado por experiência e personalização. A ideia é simples, mas potente: tornar a arquitetura mais acessível sem esvaziar sua complexidade.
Nesse contexto, a tecnologia aparece menos como ferramenta e mais como infraestrutura invisível que conecta tudo. Marcas, profissionais e visitantes se encontram em ativações, plataformas de comercialização e iniciativas como o leilão de peças expostas. A arquitetura deixa de ser apenas contemplativa e passa a operar também como interface.
A presença de grandes empresas reforça esse movimento. Electrolux, TCL, Suvinil e Westwing ajudam a compor um ecossistema que aproxima design, indústria e consumo, um cruzamento cada vez mais típico do lifestyle contemporâneo. Há ainda loja oficial, linhas exclusivas e a primeira exposição pública da Cor do Ano Suvinil 2026, posicionando a Bienal também como um radar de tendências.
No plano internacional, a parceria com a ApexBrasil amplia o alcance. Rodadas de negócios e missões comerciais colocam a arquitetura brasileira em circulação global, acompanhando a expansão do setor. Em 2025, a plataforma Archa movimentou cerca de R$ 98 milhões apenas em produtos especificados por arquitetos, atendendo mais de 2.300 clientes em um único trimestre, um indicativo de que há um mercado em transformação.

Créditos: Divulgação/Bienal de Arquitetura Brasileira
Legenda: Bahia – Casa do Mastro, por André Lattari
Pavilhões traduzem o brasil em múltiplas formas de morar
No centro da Bienal está o chamado Pavilhão Brasil, que organiza os projetos a partir dos biomas nacionais: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal. Mais do que uma divisão geográfica, essa escolha funciona como um dispositivo narrativo. Cada espaço articula clima, cultura, materialidade e modos de vida para propor leituras contemporâneas da arquitetura. A ideia é traduzir o país em experiências. Não apenas mostrar, mas fazer sentir.
Na Casa Empate Mulheres Seringueiras, por exemplo, a arquitetura opera como manifesto – e isso não é figura de linguagem. “Criar essa casa-manifesto, trazendo a voz dessas mulheres que participaram dos empates, mostrando ao mundo que elas existiram”, diz Marlúcia Cândida, arquiteta responsável pelo espaço (que representa o Acre), ao explicar a importância de participar da primeira edição. Para ela, o projeto ultrapassa o desenho e se posiciona como narrativa: “A arquitetura é além de projeto. Ela pode ser manifesto, pode ajudar a vida das pessoas, pode levar histórias de vida”, afirma.

Créditos: Divulgação/Bienal de Arquitetura Brasileira
Legenda: Goiás – Casa de Amélia, por Luyara Godoy e Mara Sandra
Essa dimensão também aparece no Loft da Escritora, de Gabriel Rosa (São Paulo), que parte da figura de Carolina Maria de Jesus para pensar arquitetura como linguagem. “Não faz sentido usar esse espaço apenas como um lugar estético”, diz. “As pessoas precisam entender isso aqui como história.” Ao se definir como um “mensageiro”, ele desloca o papel do arquiteto para alguém que traduz memórias em espaço.
A Bienal também tensiona a ideia de centralidade. Ao reunir profissionais de diferentes regiões, o evento rompe com a lógica histórica concentrada no eixo Rio-São Paulo e evidencia a pluralidade da produção nacional. “Tem tudo para mostrar o Brasil de todas as caras, de todas as cores”, afirma André Lattari, que representa a Bahia. Para ele, o evento inaugura uma vitrine mais fiel à diversidade do país.
Essa diversidade se reflete nas escolhas estéticas. Projetos como a Casa de Amélia, assinada por Luyara Godoy e Mara Sandra, mostram um Brasil que escapa do estereótipo ao combinar tradição e contemporaneidade. “É mostrar um Goiás menos caricato”, explicam, ao destacar a intenção de manter a essência local, mas sob uma leitura mais atual.

Créditos: Divulgação/Bienal de Arquitetura Brasileira
Legenda: Minas Gerais – Casa Adélia Prado, por Marina Reis
Entre casa e lar, arquitetura aposta na emoção como linguagem
Um dos fios condutores da Bienal é a distinção entre casa e lar, um debate que atravessa diferentes projetos e discursos. A proposta é deslocar o olhar da função para a experiência, enfatizando aquilo que não se mede: afeto, memória, pertencimento. Em algumas instalações, essa ideia se materializa de forma literal. Na casa de Marlúcia Cândida, o convite é claro: desacelerar. “A pessoa tem que realmente entrar aqui, dar um tempinho para entender todo o contexto da casa”, diz. A experiência passa por detalhes como andar descalço, ouvir a rádio difusora acreana, um patrimônio imaterial, e se deixar atravessar pelas camadas culturais do espaço.
Para André Lattari, a distinção passa por uma chave mais subjetiva: “Casa é apenas uma habitação, um teto. Lar é o templo de cada um.” Ele observa que, mesmo com metragens idênticas, os projetos revelam identidades completamente distintas, e é isso que ativa a sensação de pertencimento. Já para Marina Reis, a construção do lar é processual. “Lar é uma coisa que você vai criando com o tempo”, afirma. A estratégia, segundo ela, é oferecer referências que possam ser incorporadas ao cotidiano, ajudando o visitante a traduzir aquela experiência para a própria vida.
André Henning resume a diferença com pragmatismo: “Ninguém fala ‘vende-se lar’”. Para ele, o lar está na vivência, na identidade, naquilo que se constrói, inclusive em espaços comerciais. No seu caso, a cafeteria Ode ao Caramelo, a proposta é justamente traduzir esse aconchego em linguagem: “o cachorro caramelo é esse abraço”, diz. Gabriel Rosa volta à ideia de intenção para fechar esse raciocínio. “O que diferencia uma casa de um lar é a sensação”, afirma. E essa sensação, segundo ele, está nos detalhes, nos objetos, nas memórias, nas pequenas marcas que afastam o espaço da lógica de showroom e o aproximam da vida real.

Créditos: Clarissa Palácio
Legenda: São Paulo: Loft da Escritora, por Gabriel Rosa
Programação amplia diálogo entre arquitetura, cidade e cultura
A Bienal não se limita aos pavilhões. Do lado de fora, o Pátio Metrópole funciona como extensão urbana do evento, reunindo instalações, ativações e experimentações construtivas. É um espaço pensado para o fluxo, mais aberto, mais espontâneo, mais próximo da cidade real.
A programação inclui ainda arena de conteúdo, workshops, cafés e restaurantes, reforçando a ideia de convivência. A gastronomia entra como parte da narrativa, não como complemento. Os ambientes são pensados para serem vividos, e não apenas observados. Outro ponto de destaque é o modelo de curadoria, que combina concursos públicos e convites diretos. O masterplan foi definido por meio de concurso nacional, valorizando a diversidade de propostas e garantindo maior autonomia criativa aos participantes.
Aberta ao público até 30 de abril de 2026, com ingressos vendidos exclusivamente online, a Bienal se posiciona menos como uma mostra e mais como um experimento em escala real. Um teste, ambicioso, de novas formas de apresentar, consumir e pensar arquitetura no Brasil contemporâneo.
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