Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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Cinema psicodélico em estado bruto

Raramente disponível em plataformas de streaming, ‘The Trip’ buscou traduzir aquilo que, por natureza, escapa à linguagem

Cinema psicodélico em estado bruto
Cinema psicodélico em estado bruto
Roger Corman e Jack Nicholson exploram os limites da mente em um retrato cru da psicodelia nascente (Foto: Reprodução)
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Antes de Easy Rider colocar a contracultura na estrada do amadurecimento, houve um laboratório lisérgico chamado The Trip (1967), lançado no Brasil como Viagem ao Mundo da Alucinação.

Escrito por Jack Nicholson e dirigido por Roger Corman, o filme tenta traduzir o LSD em linguagem cinematográfica.

A narrativa acompanha a primeira experiência com LSD de um diretor de cinema. O percurso oscila entre êxtase e vertigem; curiosidade eufórica, expansão e colapso; lucidez e desorientação. Não há julgamento moral e nem a apologia inocente típica da segunda metade dos anos 1960. Tampouco há propaganda antidrogas sensacionalista, daquelas que exageravam e criavam mitologias de terror em torno dos psicodélicos.

Sem demonizar a molécula, o filme também não a transforma em hóstia química distribuída por líderes messiânicos da época. O LSD surge como catalisador: intensifica o que já existe: memórias, lutos, inseguranças, fantasmas.

É também uma descida às cavernas do subconsciente, um encontro com bruxas, demônios e anjos sorridentes. O pulsar dos medos e dos prazeres. Aquilo que habita o âmago do cérebro humano emerge em imagens simbólicas — arquétipos junguianos, figuras primordiais, antípodas da psique que se encaram frente a frente. A viagem deixa de ser apenas química e adquire dimensão mítica.

Visualmente, o filme opera como um laboratório sensorial. Projetores coloridos lançam formas geométricas e cores em movimento sobre a pele dos atores. Ondulações simulam texturas alteradas. Imagens caleidoscópicas fragmentam o espaço. Cores supersaturadas vibram em excesso calculado. Pinturas corporais transformam corpos em superfície simbólica. Jogos de sombra e luz constroem cenários oníricos. Espelhos multiplicam identidades.

A trilha sonora, hipnótica e eletrizante, por vezes induz a um estado próximo do transe. A combinação entre som pulsante e explosões visuais produz uma catarse que ultrapassa o plano narrativo.

O espectador não acompanha apenas uma experiência; sua própria percepção começa a oscilar.

The Trip não se limita a representar um estado alterado de consciência, construindo um ambiente em que a percepção se desloca. Ao mesmo tempo, retrata, com rara proximidade, tanto a expansão da consciência quanto a descida aos abismos pessoais.

Raramente disponível em plataformas de streaming, a obra pode ser encontrado no YouTube ou em antigas edições de tiragem limitada em VHS e DVD. Permanece como um retrato cru da era da psicodelia nascente e como uma tentativa séria de filmar aquilo que, por natureza, escapa à linguagem.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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