Fora da Faria

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A economia da medicalização da Geração Z

O resultado é um sistema em que é economicamente racional tratar sintomas com fármacos, mas pouco atrativo para enfrentar as causas que adoecem uma geração

A economia da medicalização da Geração Z
A economia da medicalização da Geração Z
Medicamentos em um hospital psiquiátrico em Kurilo, perto de Sofia, na Bulgária. Foto: Nikolay Doychinov/AFP
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A medicalização da Geração Z não é apenas um fenômeno clínico ou cultural, mas um grande negócio global. Enquanto cresce o número de jovens diagnosticados com ansiedade e depressão, a indústria farmacêutica projeta mais de uma década de expansão contínua em tratamentos baseados em psicofármacos. O sofrimento subjetivo, convertido em receita previsível, se torna um dos motores invisíveis desse mercado e cria mais uma vantagem de longo prazo: jovens acostumados a medicação diária serão adultos e idosos com o hábito estabelecido.

No plano global, o segmento de tratamentos para ansiedade e depressão foi avaliado em cerca de 21,5 bilhões de dólares em 2023 e deve chegar a algo em torno de 41,8 bilhões em 2034, praticamente dobrando em pouco mais de dez anos, segundo relatório da Research&Markets divulgado pela GlobeNewswire. A taxa de crescimento anual supera 6%, sustentada pelo aumento de diagnósticos, pela ampliação do acesso a serviços de saúde mental e, sobretudo, pela normalização do uso de medicamentos como resposta quase automática ao mal‑estar psíquico. Nesse guarda‑chuva os antidepressivos ocupam uma posição central. As estimativas da Research&Markets indicam que esse mercado movimentou cerca de 18,7 bilhões de dólares em 2024, com projeções que variam até aproximadamente 37,9 bilhões de dólares em 2034.

A distribuição regional dessa receita revela onde o modelo já está mais consolidado. A América do Norte responde por mais de 40% do faturamento com antidepressivos, algo próximo de 7,6 bilhões de dólares em 2024, impulsionada por altas taxas de prescrição em adolescentes e jovens adultos. A maior parte desse dinheiro se concentra em poucas classes de fármacos, como os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), que dominam cerca de metade do mercado. Isso significa que a experiência emocional de milhões de jovens, que inclui ansiedade social, insegurança financeira, pressão de performance e hiperconexão, é traduzida em protocolos terapêuticos padronizados e altamente rentáveis.

No Brasil, os números são menores, mas a lógica é a mesma. O mercado de tratamentos para ansiedade e depressão foi estimado em cerca de 2,07 bilhões de reais em 2024, com projeção de alcançar 2,7 bilhões em 2030, crescendo em torno de 3,3% ao ano. Antidepressivos concentram a maior fatia da receita, seguidos por ansiolíticos e antipsicóticos atípicos, que aparecem como os segmentos de maior expansão relativa. Estudos de série histórica sobre vendas de antidepressivos entre 2014 e 2020 mostram aumentos contínuos, com forte avanço de moléculas como escitalopram, duloxetina e desvenlafaxina, frequentemente usadas em tratamentos de longo prazo.

Quando esse recorte é observado por geração, os dados disponíveis indicam avanço mais forte entre os mais jovens no universo analisado pela Vidalink. Segundo o levantamento, a Geração Z registrou, em 2024, aumento de 7,9% no número de usuários de medicamentos para saúde mental e alta de 6,6% no volume consumido. Entre os Millennials, o crescimento foi de 6,8% no número de usuários e de 5,6% nas unidades de medicamentos. O estudo também informa que os Millennials seguem na liderança em número absoluto de usuários dentro da base pesquisada. Como se trata de um levantamento feito com beneficiários de empresas atendidas pela Vidalink, o dado deve ser lido como um retrato desse universo corporativo analisado, e não automaticamente de toda a população brasileira.

Do ponto de vista econômico, esse modelo tem características muito atraentes para a indústria. Transtornos como ansiedade e depressão tendem a ser crônicos ou recorrentes; os medicamentos são, em grande parte, de uso prolongado; e a iniciação terapêutica na juventude estende o ciclo de consumo por décadas. A medicalização da Geração Z, portanto, não é apenas resposta a uma epidemia de sofrimento psíquico: é também um mecanismo de formação de uma base de clientes jovens, recorrentes e altamente lucrativos, cuja dor se torna insumo para projeções de crescimento até 2034 e além.

Ao mesmo tempo, investimentos em mudanças estruturais — redução da precariedade laboral, regulação mais dura de plataformas digitais, redes de proteção social mais robustas, reconfiguração de modelos educacionais — não geram linhas de receita claras para empresas listadas em bolsa. Enquanto reformas profundas aparecem como custo político e fiscal, ampliar a prescrição de comprimidos surge como solução rápida, individualizada e comercialmente eficiente. O resultado é um sistema em que é economicamente racional tratar sintomas com fármacos, mas pouco atrativo para enfrentar as causas sociais, econômicas e culturais que adoecem essa geração.

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