Mundo
Papa Leão XIV denuncia ‘abismos entre pobres e ricos’ durante visita a Mônaco
O líder da Igreja Católica também criticou que “a ostentação da força e a lógica da prevaricação prejudicam o mundo e ameaçam a paz”, em referência à guerra no Oriente Médio
O papa Leão XIV denunciou neste sábado 28 os “abismos entre pobres e ricos” em seu primeiro discurso durante uma visita relâmpago a Mônaco, um minúsculo principado católico conhecido sobretudo pela vida de luxo.
Esta visita de menos de nove horas, a primeira de um papa em quase 500 anos a este microestado mediterrâneo de menos de 2 quilômetros quadrados e 39.000 habitantes, não mobilizou as multidões esperadas da vizinha França ou da Itália, mas permitiu à Igreja de Mônaco mostrar uma diversidade que vai além dos clichês.
No pátio do palácio, ao longo do percurso do papamóvel e durante a missa no Estádio Louis II, os moradores, embora não tenham sido numerosos, aclamaram o papa e exibiram pequenas bandeiras do Vaticano e de Mônaco.
O pontífice americano, que também tem a cidadania peruana, chegou ao principado pouco depois das 9h00 locais, após uma viagem de helicóptero iniciada em Roma.
Ele foi recebido pelo príncipe Albert II e por sua esposa, Charlène, no heliporto de Mônaco.
O papa seguiu para o Palácio do Príncipe, onde, da varanda, pronunciou uma mensagem com um significado especial neste microestado conhecido por seus cassinos, bilionários e opulência.
Em um discurso em francês, língua oficial de Mônaco, o papa criticou “as configurações injustas do poder, as estruturas de pecado que abrem abismos entre pobres e ricos, entre privilegiados e descartados, entre amigos e inimigos”.
“Cada talento, cada oportunidade, cada bem depositado em nossas mãos tem um destino universal, uma exigência intrínseca de não ser retido, e sim redistribuído”, acrescentou, em linha com o discurso de seu falecido antecessor Francisco sobre justiça social.
E, em uma clara referência aos conflitos mundiais, criticou que “a ostentação da força e a lógica da prevaricação prejudicam o mundo e ameaçam a paz”.
Leão XIV, que passou quase 20 anos como missionário em regiões pobres do Peru, citou em particular a ‘Rerum Novarum’, encíclica social publicada em 1891 por Leão XIII que estabelece as bases da doutrina social da Igreja. As princesas Stéphanie, Caroline e Charlotte acompanharam a cerimônia.
“Imperativo de solidariedade”
Viver em Mônaco “representa para alguns um privilégio e, para todos, um chamado específico a questionar o seu lugar no mundo”, disse o pontífice.
O príncipe Albert II reconheceu que existe um “imperativo de solidariedade por parte daqueles que têm mais recursos” e destacou que “os pequenos Estados também podem contribuir para melhorar o mundo”.
“Nós somos privilegiados, sim, mas as responsabilidades são de todos, inclusive daqueles que não desfrutam desses privilégios”, reagiu Marge Valentino, uma italiana de 73 anos que mora em Mônaco. “Somos um povo pequeno e já somos muito generosos”, insistiu.
Após um encontro com a comunidade católica na catedral da Imaculada Conceição, quase 1.500 jovens receberam Leão XIV na praça da igreja de Santa Devota, a padroeira de Mônaco.
Depois, diante de 15.000 fiéis, o papa celebrou uma missa na qual reafirmou a posição da Igreja Católica sobre as questões de bioética — eutanásia e aborto —, com um pedido a “cuidar de toda existência humana, de seu surgimento no seio materno até o momento em que se deteriora e em todas as suas fragilidades”.
Mônaco, que no ano passado vetou a legalização do aborto e reforçou os cuidados paliativos ao rejeitar a ajuda para morrer, continua sendo um dos últimos países europeus em sintonia com esta doutrina.
Apenas 8% dos 39.000 habitantes do território de dois quilômetros quadrados – apenas 25% deles com nacionalidade monegasca – se declaram praticantes da fé católica, religião de Estado do principado.
A uma semana da Páscoa, a festa mais importante do calendário cristão, a visita permitiu medir a popularidade do pontífice americano, mais discreto que o seu antecessor, o argentino Francisco.
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