Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Livro reúne ensaios sobre ‘Águas de Março’, magistral composição de Tom Jobim
Tom alegra, seduz e simplifica, ao mesmo tempo em que se enreda em letras, melodias e harmonias originais e cativantes
“Águas de março” se tornou uma expressão popular sobre as intensas chuvas no fim do verão. Tudo começou, porém, com letra e melodia de Tom Jobim (1927-1994) em uma música lançada em 1972 no projeto O Disco de Bolso, do jornal O Pasquim.
Tratava-se de um compacto: um lado com a música do maestro, outro com a canção Agnus Sei, de João Bosco e Aldir Blanc.
Recém-lançado, o livro Águas de Março: Sobre a Canção de Tom Jobim (Editora 34; 136 pág.), organizado por Milton Ohata, oferece textos sobre a magistral composição. A letra, com uma teia de significados sobre uma melodia aparentemente simples e contínua, se harmoniza bem com a narrativa da música.
O livro começa com um longo texto de apresentação de Ohata, seguido de ensaios publicados pelo crítico literário Augusto Massi, pelo músico e ensaísta Arthur Nestrovski, e pelo músico e acadêmico Walter Garcia.
Complementam o livro dois depoimentos de Tom Jobim, imagens de Ana Lontra Jobim (fotógrafa e viúva de Tom) sobre o sítio de Poço Fundo – na região serrana do Rio de Janeiro, onde o maestro compôs Águas de Março –, e a reprodução de materiais impressos.
Consta do livro que Tom escreveu Águas de Março influenciado pela música Construção (1971), composição de Chico Buarque de andamento dramático, contínuo e de uma riqueza de palavras bem definidas – algo que se repetiria em Águas de Março, embora com andamento mais sentimental.
Tom aborda na música a natureza, um tema marcante em sua obra, associado a aflições e expectativas da vida para o período marcado pela ditadura: É pau, é pedra, é o fim do caminho/ É um resto de toco, é um pouco sozinho/ É um caco de vidro, é a vida, é o sol/ É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol/ São as águas de março fechando o verão/ É a promessa de vida no teu coração.
A canção foi esboçada a lápis em um papel de embrulhar pão. O livro conta aspectos diversos da obra, desde o contexto político da época até sua estrutura teórico-musical. Em 1973, a música abriu o álbum Matita Perê, um dos trabalhos fundamentais de Tom Jobim.
Os autores do texto do livro Águas de Março: Sobre a Canção de Tom Jobim desvendam não só a canção, mas a genialidade de um dos pilares da música brasileira. Tom Jobim alegra, reflete, seduz, enaltece, contrapõe, cria paralelos e simplifica, ao mesmo tempo em que se enreda em letras, melodias e harmonias absolutamente originais e cativantes. Coisa de gênio.
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