Política
Disputa entre aliados complica montagem dos palanques de Lula no Nordeste
Em quase todos os estados, o campo progressista compete entre si. Caberá ao presidente resolver conflitos para evitar palanques fragmentados
A pouco mais de seis meses das eleições, o presidente Lula (PT) enfrenta ainda um cenário complexo na montagem de palanques no Nordeste, região decisiva para sua vitória em 2022.
O principal obstáculo é a fragmentação da base aliada, que disputa protagonismo local, vagas ao Senado e o comando de chapas estaduais. Em ao menos sete dos nove estados, há conflitos entre expoentes que apoiam o presidente, o que impõe a Lula o papel de árbitro para evitar divisões que possam comprometer sua força no reduto histórico do petismo.
Na eleição presidencial passada, a diferença entre os votos conquistados por Lula e Jair Bolsonaro (PL) no Nordeste foi de 12,5 milhões no segundo turno. O petista teve 69,3% de todos os votos válidos na região, resultado fundamental para consolidar a vitória geral. No primeiro turno, Lula teve 66,7% dos votos dos eleitores nordestinos.
Desde 2002, todos os candidatos do Partido dos Trabalhadores venceram em segundo turno no Nordeste, com Lula naquele ano (61,5%) e quatro anos depois (77,1%); Dilma Rousseff em 2010 (70,6%) e em 2014 (71,7%); e Fernando Haddad em 2018 (69,7%).
No Sul, por outro lado, o PT só teve uma vitória neste século, com Lula em 2002.
Situação no Nordeste
Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) buscará a reeleição com uma estratégia que pode tensionar a base. A possibilidade de uma chapa “puro-sangue”, sem a participação de MDB e PSD, retiraria aliados tradicionais da composição majoritária. Ao mesmo tempo, o desenho para o Senado tende a privilegiar lideranças do próprio PT, como Rui Costa e Jaques Wagner, o que pode provocar desconforto entre partidos que, apesar disso, sinalizam manter apoio ao presidente.
No Ceará, o cenário é marcado por disputa interna e por pressão da oposição. Com o governador Elmano de Freitas (PT) na corrida pela reeleição, a base lulista reúne uma ampla coalizão, mas enfrenta concorrência direta entre nomes de peso na definição das duas vagas ao Senado, como José Guimarães (PT), Eunício Oliveira (MDB) e Luizianne Lins (PT). Ao mesmo tempo, o avanço de Ciro Gomes (PSDB), que lidera as pesquisas de intenção de voto e deve nacionalizar a disputa, acendeu o alerta no PT. A estratégia do partido passa por reforçar o palanque com Lula e o ministro Camilo Santana, enquanto tenta construir uma chapa competitiva ao Senado para evitar dissidências e conter o crescimento do adversário.
O Maranhão é um dos casos mais delicados. O rompimento entre o governador Carlos Brandão (sem partido) e o grupo ligado ao ex-governador Flávio Dino fragmentou a base lulista. Diante do impasse, o PT deve ir com o vice-governador Felipe Camarão (PT). Há, no entanto, uma parte da legenda que passou a cogitar apoiar o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), abrindo mão de candidatura própria ao governo e priorizando uma composição que inclua o partido na disputa pelo Senado.
Na Paraíba, o impasse envolve dois aliados diretos de Lula e pode resultar em palanque duplo no estado. O vice-governador Lucas Ribeiro (PP) deve assumir o comando e disputar a reeleição, enquanto o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), também se apresenta como candidato. Diante da divisão, o PT admite apoiar mais de uma candidatura ao governo. A disputa se estende ao Senado e tende a fragmentar ainda mais a base: o governador João Azevêdo (PSB) deve concorrer a uma vaga ao lado de Nabor Wanderley (PP), enquanto o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB) tenta a reeleição em uma chapa alternativa. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), ainda articula para incluir Nabor no campo lulista, o que pode ampliar a divisão do palanque do presidente no estado.
Em Pernambuco, o cenário está mais definido. O prefeito do Recife, João Campos (PSB), consolidou uma ampla aliança ao fechar chapa com Marília Arraes (Solidariedade) e o senador Humberto Costa (PT), que deve pleitear a reeleição. O arranjo fortalece o palanque lulista e isola a governadora Raquel Lyra (PSD), que também é aliada de Lula, mas perde espaço na disputa pelo apoio do presidente.
No Rio Grande do Norte, a disputa envolve tanto o governo quanto o Senado. A governadora Fátima Bezerra (PT) desistiu de deixar o cargo para concorrer ao Senado, mas apoiará o secretário da Fazenda, Cadu Xavier (PT), como candidato ao governo. Ao mesmo tempo, a composição da chapa majoritária enfrenta desafios, especialmente pela dificuldade de recompor a aliança com a senadora Zenaide Maia (PSD), o que mantém o cenário em aberto.
Em Sergipe, o quadro caminha para uma configuração pragmática. O governador Fábio Mitidieri (PSD) quer o apoio do PT, que até então fazia oposição ao seu governo. Em troca, deve abrigar o senador Rogério Carvalho (PT) na chapa. Há setores do partido que resistem à aliança e defendem, em último caso, apoio a um nome do PSOL. Ainda assim, prevalece a avaliação de que é necessário conter o avanço do bolsonarismo, representado pela candidatura do vice-prefeito de Aracaju, do PL, e, em menor grau, pelo prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho (Republicanos).
Alagoas e Piauí aparecem como os cenários mais controlados para o governo federal. Em Alagoas, a tendência é de alinhamento em torno do ministro Renan Filho (MDB) ao governo, com apoio do senador Renan Calheiros (MDB) à reeleição no Senado, apesar da movimentação da oposição liderada por Arthur Lira (PP). Já no Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) deve disputar a reeleição com uma base consolidada e acordos já firmados para a composição ao Senado, o que reduz riscos de fragmentação.
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