Política

Disputa entre aliados complica montagem dos palanques de Lula no Nordeste

Em quase todos os estados, o campo progressista compete entre si. Caberá ao presidente resolver conflitos para evitar palanques fragmentados

Disputa entre aliados complica montagem dos palanques de Lula no Nordeste
Disputa entre aliados complica montagem dos palanques de Lula no Nordeste
Desempenho. Em 2022, Lula conquistou dois terços do eleitorado nordestino. Foi o que assegurou a vitória contra Bolsonaro – Imagem: Ricardo Stuckert/PR
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A pouco mais de seis meses das eleições, o presidente Lula (PT) enfrenta ainda um cenário complexo na montagem de palanques no Nordeste, região decisiva para sua vitória em 2022. 

O principal obstáculo é a fragmentação da base aliada, que disputa protagonismo local, vagas ao Senado e o comando de chapas estaduais. Em ao menos sete dos nove estados, há conflitos entre expoentes que apoiam o presidente, o que impõe a Lula o papel de árbitro para evitar divisões que possam comprometer sua força no reduto histórico do petismo.

Na eleição presidencial passada, a diferença entre os votos conquistados por Lula e Jair Bolsonaro (PL) no Nordeste foi de 12,5 milhões no segundo turno. O petista teve 69,3% de todos os votos válidos na região, resultado fundamental para consolidar a vitória geral. No primeiro turno, Lula teve 66,7% dos votos dos eleitores nordestinos.

Desde 2002, todos os candidatos do Partido dos Trabalhadores venceram em segundo turno no Nordeste, com Lula naquele ano (61,5%) e quatro anos depois (77,1%); Dilma Rousseff em 2010 (70,6%) e em 2014 (71,7%); e Fernando Haddad em 2018 (69,7%).

No Sul, por outro lado, o PT só teve uma vitória neste século, com Lula em 2002.

Situação no Nordeste

Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) buscará a reeleição com uma estratégia que pode tensionar a base. A possibilidade de uma chapa “puro-sangue”, sem a participação de MDB e PSD, retiraria aliados tradicionais da composição majoritária. Ao mesmo tempo, o desenho para o Senado tende a privilegiar lideranças do próprio PT, como Rui Costa e Jaques Wagner, o que pode provocar desconforto entre partidos que, apesar disso, sinalizam manter apoio ao presidente.

No Ceará, o cenário é marcado por disputa interna e por pressão da oposição. Com o governador Elmano de Freitas (PT) na corrida pela reeleição, a base lulista reúne uma ampla coalizão, mas enfrenta concorrência direta entre nomes de peso na definição das duas vagas ao Senado, como José Guimarães (PT), Eunício Oliveira (MDB) e Luizianne Lins (PT). Ao mesmo tempo, o avanço de Ciro Gomes (PSDB), que lidera as pesquisas de intenção de voto e deve nacionalizar a disputa, acendeu o alerta no PT. A estratégia do partido passa por reforçar o palanque com Lula e o ministro Camilo Santana, enquanto tenta construir uma chapa competitiva ao Senado para evitar dissidências e conter o crescimento do adversário.

O Maranhão é um dos casos mais delicados. O rompimento entre o governador Carlos Brandão (sem partido) e o grupo ligado ao ex-governador Flávio Dino fragmentou a base lulista. Diante do impasse, o PT deve ir com o vice-governador Felipe Camarão (PT). Há, no entanto, uma parte da legenda que passou a cogitar apoiar o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), abrindo mão de candidatura própria ao governo e priorizando uma composição que inclua o partido na disputa pelo Senado. 

Na Paraíba, o impasse envolve dois aliados diretos de Lula e pode resultar em palanque duplo no estado. O vice-governador Lucas Ribeiro (PP) deve assumir o comando e disputar a reeleição, enquanto o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), também se apresenta como candidato. Diante da divisão, o PT admite apoiar mais de uma candidatura ao governo. A disputa se estende ao Senado e tende a fragmentar ainda mais a base: o governador João Azevêdo (PSB) deve concorrer a uma vaga ao lado de Nabor Wanderley (PP), enquanto o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB) tenta a reeleição em uma chapa alternativa. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), ainda articula para incluir Nabor no campo lulista, o que pode ampliar a divisão do palanque do presidente no estado.

Em Pernambuco, o cenário está mais definido. O prefeito do Recife, João Campos (PSB), consolidou uma ampla aliança ao fechar chapa com Marília Arraes (Solidariedade) e o senador Humberto Costa (PT), que deve pleitear a reeleição. O arranjo fortalece o palanque lulista e isola a governadora Raquel Lyra (PSD), que também é aliada de Lula, mas perde espaço na disputa pelo apoio do presidente.

No Rio Grande do Norte, a disputa envolve tanto o governo quanto o Senado. A governadora Fátima Bezerra (PT) desistiu de deixar o cargo para concorrer ao Senado, mas apoiará o secretário da Fazenda, Cadu Xavier (PT), como candidato ao governo. Ao mesmo tempo, a composição da chapa majoritária enfrenta desafios, especialmente pela dificuldade de recompor a aliança com a senadora Zenaide Maia (PSD), o que mantém o cenário em aberto.

Em Sergipe, o quadro caminha para uma configuração pragmática. O governador Fábio Mitidieri (PSD) quer o apoio do PT, que até então fazia oposição ao seu governo. Em troca, deve abrigar o senador Rogério Carvalho (PT) na chapa. Há setores do partido que resistem à aliança e defendem, em último caso, apoio a um nome do PSOL. Ainda assim, prevalece a avaliação de que é necessário conter o avanço do bolsonarismo, representado pela candidatura do vice-prefeito de Aracaju, do PL, e, em menor grau, pelo prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho (Republicanos).

Alagoas e Piauí aparecem como os cenários mais controlados para o governo federal. Em Alagoas, a tendência é de alinhamento em torno do ministro Renan Filho (MDB) ao governo, com apoio do senador Renan Calheiros (MDB) à reeleição no Senado, apesar da movimentação da oposição liderada por Arthur Lira (PP). Já no Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) deve disputar a reeleição com uma base consolidada e acordos já firmados para a composição ao Senado, o que reduz riscos de fragmentação.

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