Educação
‘A juventude é perseguida por ousar ser jovem’: educador critica ação policial em escola do Rio
Jota Marques vê no episódio um retrato da criminalização da juventude e da incapacidade institucional de lidar com denúncia e dissenso
O episódio de violência policial ocorrido na quarta-feira 25 em uma escola estadual do Rio de Janeiro teve como pano de fundo uma mobilização estudantil pelo afastamento de um professor acusado de assédio.
Organizados pelo grêmio estudantil e com apoio de entidades secundaristas, os alunos pretendiam recolher assinaturas para um abaixo-assinado e realizar um ato no intervalo das aulas contra a permanência de um docente denunciado por violência na Escola Estadual Senor Abravanel, no Catete, zona sul da capital fluminense.
A mobilização ganhou força após a percepção de que a escola e a Secretaria de Educação já tinham conhecimento do caso havia mais de um ano, sem providências efetivas. CartaCapital teve acesso a uma ata enviada em 18 de março à Diretoria Regional Metropolitana VI, da Seeduc-RJ, na qual um professor relata denúncias de assédio na escola.
De acordo com o documento, uma aluna menor de idade afirmou, durante uma aula de Física, que “o professor do ano passado só queria saber de ficar nos abraçando, passando a mão no nosso cabelo, e nos assediando”. O docente que ouviu o relato disse ter registrado o caso na direção e no livro de ocorrências da unidade e, diante da desconfiança de que a escola não tomaria providências suficientes, decidiu comunicar também a diretoria regional.
Vídeos que circulam nas redes mostram um policial militar ameaçando apreender o celular de quem registrava a cena e, em seguida, agredindo uma estudante. Um outro aluno tenta intervir e também é atacado.
Questionada, a Secretaria de Educação afirmou que representantes de movimentos estudantis deveriam ter avisado previamente a gestão da escola sobre a mobilização e sustentou que o acionamento da PM teve caráter preventivo. A pasta informou ainda que o professor foi afastado. Já a Secretaria de Segurança Pública ainda não se manifestou sobre eventuais medidas em relação ao policial envolvido na agressão.
Para o educador popular Jota Marques, no entanto, o caso expõe mais do que um episódio isolado de truculência. Em conversa com a reportagem, ele afirmou que a cena revela “o reflexo de um Estado que opera na lógica da violência” e criticou o fato de a escola ter recorrido à polícia para lidar com uma mobilização de estudantes. Na avaliação dele, não havia notícia de qualquer conduta que justificasse a intervenção de um agente do Batalhão de Choque dentro do ambiente escolar. Para além da responsabilização individual do policial, defende, o caso exige um debate mais amplo sobre por que forças de segurança continuam sendo chamadas para situações que deveriam ser mediadas por diálogo.
Confira, a seguir, os destaques da entrevista:
CartaCapital: O que o episódio de violência na escola comunica para a sociedade?
Jota Marques: O episódio expõe um Estado que opera na lógica da violência estrutural. A cena dá a dimensão do poder da farda no contexto do Rio de Janeiro, marcado historicamente pela violência armada e pela ação violenta do próprio Estado.
Chama atenção, neste caso, a decisão da direção da escola de convocar a polícia para intervir na manifestação dos jovens. Até aqui, não há notícia de que eles estivessem cometendo qualquer ato que justificasse reforço policial. O agente precisa, sim, ser responsabilizado, afastado e, eventualmente, exonerado. Não há justificativa para a agressão. Mas ele também é resultado de uma lógica que não apenas o convoca, como o autoriza a agir dessa maneira.
O fato de o policial estar sendo filmado e, ainda assim, agir com tamanha violência é revelador. E não se trata de qualquer agente, mas de um subtenente do Batalhão de Choque, uma tropa de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
É muito simbólico que um policial dessa corporação esteja dentro de uma escola, agredindo jovens, a pedido da própria instituição, sob a justificativa de garantir a “segurança de todos”. Mais simbólico ainda é que, em nome dessa segurança, a polícia produza mais violência do que qualquer ato atribuído aos estudantes.
Por isso, o debate precisa ser mais amplo. Ainda que esse agente seja punido, o problema não se encerra aí. Policiais continuarão sendo chamados para situações que deveriam ser resolvidas por meio do diálogo, e a estrutura que sustenta esse tipo de ação seguirá intacta. Trata-se de um Estado marcado por racismo estrutural, militarização histórica e repressão às manifestações livres e à diversidade dos corpos. Debater isso é debater a estrutura do Estado, não apenas um governo de ocasião.
CC: O caso indica que o Estado perdeu a capacidade de dialogar com os jovens ou isso nunca se consolidou?
JM: O problema talvez seja mais profundo: a sociedade brasileira ainda não reconheceu plenamente que se manifestar é um direito. Historicamente, a manifestação continua sendo lida como radicalidade, rebeldia ou descontrole, quando deveria ser entendida como expressão de incômodo, busca de mudança e tentativa de construir alternativas.
Essa é uma falha que atravessa os diferentes governos. A juventude sempre foi perseguida no Brasil por ousar ser jovem.
Neste caso, os estudantes foram impedidos de se manifestar em torno de uma causa absolutamente legítima. Em princípio, ninguém discordaria de um abaixo-assinado contra um professor acusado de assediar sexualmente uma aluna. Ainda assim, houve impedimento e coação. Isso revela uma falha das estruturas de poder — seja no policiamento, seja nas políticas públicas, seja na própria secretaria de Educação —, que continuam operando segundo uma lógica tecnocrática e historicamente violenta.
CC: Quais são os principais desafios para reverter esse cenário?
JM: Um primeiro desafio é abandonar a posição tutelar que os adultos costumam assumir em relação à juventude e à adolescência, como se soubéssemos sempre o que é melhor para elas. Jovens são sujeitos de direitos. Têm direitos constituídos, mas também direitos subjetivos: de desejar, pensar, escolher e decidir sobre a própria vida.
Uma sociedade funcional e democrática é uma sociedade que se escuta, independentemente de gênero, raça, classe, idade ou geração. Nesse sentido, juventude e adolescência precisam encontrar, na educação, espaços para existir plenamente. Isso exige menos imposição de cima para baixo e mais construção coletiva sobre o que é melhor para todos.
O que prevalece hoje, porém, é uma lógica vertical, que determina como crianças, adolescentes e jovens devem existir e se comportar. É claro que, no caso da infância, há limites e cuidados necessários. Mas isso não pode se traduzir em castração.
Se o jovem é desautorizado a existir como jovem, quando isso será possível? Em pouco tempo, ele já será lançado à vida adulta, ao trabalho, à urgência da sobrevivência. Se eliminamos essa possibilidade já no processo formativo, estamos empobrecendo a própria experiência humana.
CC: O caso de violência ocorreu durante uma mobilização relacionada a uma denúncia de assédio. Isso mostra que as escolas ainda não estão preparadas para lidar com situações desse tipo?
JM: A escola é um reflexo da sociedade. Como todo espaço público, pode ser ao mesmo tempo um lugar de proteção e um lugar de reprodução da violência. Ela não está fora do mundo: carrega suas contradições. Professores não são perfeitos, alunos também não, e reconhecer isso é o primeiro passo para transformar a realidade.
No caso específico, porém, minha preocupação vai além da denúncia contra o professor. A questão central é o que se faz diante dela e qual é a nossa capacidade de transformação. Quando a escola responde chamando a polícia, e a polícia produz mais violência, o que aparece é um modelo de cuidado que se retroalimenta da própria violência.
É possível imaginar uma escola que se torne referência em cultura de paz, em que ninguém seja violentado. Mas isso não acontecerá de forma duradoura em uma sociedade que tolera historicamente a violência contra pessoas mais vulnerabilizadas e marginalizadas, como mulheres, pessoas negras e outros grupos minorizados. Esses grupos precisam ser colocados no centro do debate público e das políticas de direito.
CC: O que a educação popular pode oferecer diante desse cenário? Ela está presente, de alguma forma, nas redes de ensino hoje?
JM: A educação popular é o processo pelo qual o povo aprende a ler o mundo para transformá-lo. Mas sou pessimista em relação à sua presença efetiva hoje. Não apenas vejo esse horizonte distante como percebo que muitas de suas práticas foram absorvidas pela lógica liberal e apropriadas pelas escolas mais caras do País.
Quando se observam as escolas particulares de elite no Rio de Janeiro, por exemplo, nota-se que, apesar das altas mensalidades e da forte orientação para o mercado, elas incorporam práticas historicamente associadas à educação popular. Isso aparece em disciplinas e atividades voltadas ao pensamento crítico, à criatividade, à troca de experiências e à formação interpessoal.
O problema não é que os ricos tenham acesso a isso, mas que os pobres não tenham. Estou falando de aulas como Arte, Filosofia, Gastronomia e Meio Ambiente, além de rodas de conversa e debates. O próprio capitalismo já entendeu que os grupos dirigentes precisam mais do que raciocínio financeiro e técnico: precisam também de repertório crítico, criatividade, capacidade de resolver problemas e de lidar com riscos.
Enquanto isso, na escola pública, muitas vezes não há espaço para livre manifestação nem para o pensamento fora da lógica da escassez. Falta tempo, faltam condições de trabalho para os professores, faltam condições materiais para os estudantes e suas famílias. Assim, aquilo que deveria ser base de uma educação de qualidade vai se tornando quase um artigo de luxo.
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