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Grupo de mulheres capacita pastores para proteger vítimas de violência doméstica e encaminhá-las à Justiça

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Alerta às fiéis. Fundamentalistas recorrem a uma leitura enviesada dos textos bíblicos para justificar a submissão feminina, denuncia o Evangélicas pela Igualdade de Gênero, presente em 11 estados brasileiros – Imagem: iStockphoto e Redes Sociais/Mulheres EIG
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“A mulher sábia edifica o lar, mas a insensata o destrói com as próprias mãos.” Esse versículo do Livro de Provérbios é frequentemente citado por líderes de diferentes denominações cristãs no Brasil, quando uma fiel relata casos de violência doméstica. Para muitas mulheres, a igreja é o primeiro ponto de apoio: 53% das brasileiras buscam ajuda em instituições religiosas após sofrer agressões de maridos ou companheiros, segundo pesquisa do Instituto DataSenado. Entre evangélicas, o índice sobe para 69%.

Os números revelam o papel central dessas instituições, mas também expõem um problema recorrente. Em vez de as vítimas serem encaminhadas à polícia ou à rede de proteção, muitas recebem orientações para “orar mais” e zelar pelo bom convívio conjugal, o que transfere a responsabilidade da violência para quem sofre os abusos, alertam especialistas. Para enfrentar esse cenário, o movimento Evangélicas Pela Igualdade de Gênero, presente em 11 estados brasileiros, trabalha para capacitar líderes religiosos a acolher e orientar mulheres na denúncia de abusos, transformando fé em proteção concreta, não em justificativa para o silêncio das vítimas.

Valéria Vilhena, fundadora do grupo, alerta que o machismo se manifesta não apenas no aconselhamento pastoral, mas também na forma como os textos bíblicos são lidos, interpretados e até traduzidos. “Há uma instrumentalização da fé para legitimar violências, inclusive contra meninas, idosos ou animais. Não é só fé, é uma questão ideológica”, afirma. Para a teóloga e doutora em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, a igreja é um espaço “comunitário de fé, apoio e acolhimento”. Por isso, a negligência nesses ambientes assume gravidade ainda maior, por deixar as vítimas completamente desamparadas, avalia.

Vilhena, que cresceu na Assembleia de Deus, fundou o movimento em 2016, quando pastores evangélicos apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff, com o objetivo de “disputar narrativas bíblicas” e promover uma “teologia ecotransfeminista e antirracista”. “A bancada evangélica não nos representa”, afirma. Para ela, é essencial denunciar quem “usa a fé para promover discursos preconceituosos, políticos e ideológicos”.

Entre as Evangélicas Pela Igualdade­ de Gênero há professoras, cientistas sociais, advogadas e teólogas, que usam seus conhecimentos para ajudar outras fiéis a expandir a interpretação dos textos bíblicos. “Existe uma leitura conduzida pelas lentes do machismo. Nós mudamos essa lógica para mostrar que há exemplos de igualdade e emancipação das mulheres nas Escrituras”, explica a teóloga Lauana Flor, doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista.

As igrejas são o primeiro ponto de apoio para 53% das brasileiras, revela pesquisa

Sue’Hellen Monteiro de Matos denuncia que muitos pastores usam os textos de forma “enviesada” para justificar a submissão feminina. “Ao olhar o contexto das Escrituras, fica claro que havia uma relação de reciprocidade”, diz. Apesar de muitas evangélicas suportarem agressões para manter o casamento, a especialista lembra que, para os evangélicos, o matrimônio não é um sacramento como o batismo, e pode ser desfeito. Ela cita o Livro de Mateus, em que Jesus justifica o divórcio na Lei de Moisés devido “à dureza do coração humano”.

O conceito da “mulher virtuosa”, extraído do Livro de Provérbios e amplamente usado por líderes religiosos, é, segundo a biblista, uma “tradução tendenciosa”. “No hebraico original, a palavra significa força, não virtude”, esclarece Matos. Essa mulher era forte: cuidava dos filhos e das tarefas domésticas, mas também era comerciante, com autonomia e liberdade. “Essa mulher de força está muito mais para a Maria, Maria, de Milton Nascimento, do que para a ‘bela, recatada e do lar’, como Michel Temer definiu sua esposa.”

Outro problema de tradução é apontado no Livro 2 de Samuel, no episódio do estupro da filha do Rei Davi. Amnon, um dos irmãos de Tamar, com a ajuda de um amigo, arma uma emboscada para atraí-la até seu quarto. Nas traduções brasileiras, o trecho em que ela implora para que o irmão não cometa o crime aparece como: “Não, meu irmão! Não me forces”. Monteiro explica que, no texto original, está escrito “não me estupres”. “A mudança altera totalmente o sentido e mostra a importância de nomear as violências”, observa a especialista. O desenrolar da história reforça, segundo ela, o que chama de “pacto da masculinidade”: Tamar pediu ajuda ao irmão mais velho, Absalão, e foi aconselhada a não revelar o ocorrido. “A Bíblia também ensina por meio dos erros, para que não os repitamos”, conclui.

Nos últimos anos, o movimento desenvolveu cartilhas educativas para evangélicos e atividades de conscientização para homens. A oficina “E agora, irmão José?” debate masculinidade tóxica, gênero e prevenção da violência, enquanto cursos para lideranças religiosas ensinam “escuta ativa e empática” e o encaminhamento das vítimas. “Acolhimento não é o pastor derramar versículos e mandar a mulher orar mais, é acompanhá-la na delegacia”, afirma a fundadora do grupo. Segundo o Instituto DataSenado, 42% das evangélicas já sofreram alguma agressão de seus companheiros e, no último ano, 39% relataram violência doméstica.

Vilhena ocupa um assento no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e usa esse espaço para cobrar mais responsabilidade do Estado. Atualmente, defende uma alteração na Lei Maria da Penha para incluir a tipificação de “violência religiosa e espiritual”. A lei já contempla violência física, sexual, psicológica, moral e patrimonial. Além disso, Vilhena defende que a religião seja considerada um “marcador social”. “Gostaríamos que nos formulários de atendimento do Disque 180 e das delegacias especializadas tivesse o campo ‘religião’, para ajudar no mapeamento, não só das evangélicas”, explica.

A ministra da Mulher, Márcia Lopes, acompanha o debate, que considera “ainda muito novo”. Afirma que, à frente do ministério, atua segundo o princípio da laicidade do Estado, garantindo que todas as religiões e fés sejam acolhidas e respeitadas. “Tudo que as mulheres querem, além de estarem onde quiserem, é ter liberdade e poder contar a própria história de suas vidas”, conclui. •

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fé libertadora’

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