Cultura
Fonte diáfana
Por que o célebre romance Os Irmãos Karamazov segue a receber, no Brasil, novas traduções, direto do russo?
O que diz Fiódor Pavlovitch após seu filho Aliocha recusar uma taça de licor, em certa passagem do romance Os Irmãos Karamazov, publicado em 1881?
“Seja como for, se não for para ti, será para nós. Mas espera, almoçaste?”
Ou então: “Mesmo assim, vai ser servido, se não para você, para nós. Mas espere, você almoçou ou não?”
Embora se trate da mesma fala, extraída do célebre texto de Fiódor Dostoievski, ela foi aqui citada a partir de duas traduções diferentes. A primeira, assinada por Paulo Bezerra, foi publicada pela Editora 34 em 2008. A segunda é uma nova tradução, realizada por Cecília Rosas e Lucas Simone, que saiu no início deste ano pelo selo Penguin, da Companhia das Letras.
O romance do autor russo teve outras edições no Brasil, mas estas são as únicas traduzidas diretamente do russo.
“A nova tradução não diminui as anteriores. Ela, na verdade, consolida a importância do livro”, diz Cecília, em entrevista a CartaCapital. “Traduzir é sempre uma conversa com o leitor, com críticos e pesquisadores, dando sua contribuição. Cada tradução ilumina lados diferentes do livro. É um privilégio para o leitor brasileiro dispor de duas versões diretas do russo.”
OS IRMÃOS KARAMAZOV. Fiódor Dostoievski. Tradução: Cecília Rosas e Lucas Simone. Penguin – Cia. das Letras (1.352 págs., 99,90 reais)
Na verdade, foram, até hoje, três as traduções diretas. A primeira remonta a 1944 e coube a um jovem Boris Schnaiderman. Nascido na Ucrânia, ele se consagraria como grande tradutor do russo no Brasil, vertendo para o português autores como Lev Tolstoi, Isaac Babel e Aleksandr Puchkin. Mas, àquela altura, ainda inexperiente, pediu para que a obra não fosse reeditada por considerá-la problemática.
O insucesso desse primeiro trabalho de Schnaiderman deve ter contribuído para que, na sequência, as editoras evitassem encarar frente a frente o idioma russo. Ao longo do século XX, boa parte da literatura russa no Brasil foi mediada por outras línguas.
No caso de Dostoievski, o caminho, muitas vezes, fez com que fosse descaracterizado o estilo original do autor.
As diversas traduções de Os Irmãos Karamazov publicadas ao longo do século XX no Brasil vieram do francês ou do inglês, mas duas se destacam. Coube à escritora Rachel de Queiroz uma versão de 1952, publicada pela Livraria José Olympio. Já Natália Nunes e Oscar Mendes verteram o romance a partir do inglês, em 1963, na edição da Aguilar, republicada posteriormente por outras editoras.
A falta de traduções diretas do russo gerou, ao longo das décadas, um crescente interesse de mercado por edições que preservassem a aspereza e a polifonia dostoievskiana.
Esse movimento de busca pela fidelidade se sedimentou no País no começo do século XXI, quando Bezerra verteu Crime e Castigo, também de Dostoievski, num trabalho da Editora 34. Desde então, diversos romances, coletâneas de contos, poesias e peças de teatro saíram por aqui, principalmente pela Editora 34, que acabou por criar, nos anos 1990, a célebre Coleção Leste.
Conforme o acesso à informação mundial foi se expandindo, com a internet, o público leitor também passou a exigir maior proximidade com o texto-fonte, transformando a tradução direta em um selo de qualidade e um diferencial comercial indispensável para as grandes editoras.
Cecília e Lucas apontam que as antigas traduções indiretas tinham uma tradição de suavizar o texto do autor russo. A nova versão assinada pela dupla parte da edição soviética, que, segundo eles, “tende a ser bem complexa e acaba sendo muito interessante para nós, tradutores”.
As obras de Fiódor Dostoievski publicadas no País ao longo do século XX tinham como ponto de partida versões em francês ou inglês
Traduzir é sempre um desafio de encontrar o tom do original na língua para a qual se verte o texto. No caso de Dostoievski, essa tarefa se revela especialmente complexa.
“Há uma dimensão profunda do pensamento do autor, que é um pouco complicada por nos obrigar a encarar de forma atenta uma visão de mundo”, explica Lucas, que já havia trabalhado com Cecília em outras ocasiões, também com obras em russo. Eles nunca tinham, porém, traduzido um mesmo livro a quatro mãos.
O convite para a empreitada veio da própria Companhia das Letras, em 2019. Durante o lockdown da pandemia, a dupla mergulhou no universo dostoievskiano.
“Traduzir em dupla é bom, pois permite uma discussão quando surgem os impasses”, diz Cecília. Um deles ocorreu com a palavra nadryv, de difícil tradução e um conceito central na obra do autor, especialmente neste romance. Nadryv carrega a ideia de ruptura ou tensão emocional – mas essas palavras mal dão ideia da complexidade do termo, que, nesta edição, foi traduzida como “dilaceramento”.
Fidelidade. Em 1952, Rachel de Queiroz fez uma tradução a partir do francês. Em 1944, Boris Schnaiderman vertera o livro direto do russo, mas não gostou do resultado – Imagem: Cecília Bastos/USP Imagens e Acervo Biblioteca Mário de Andrade
As nuances e os impasses desta versão estão esmiuçados num prefácio bastante elucidativo escrito por Cecília e Lucas.
Não são poucas as vezes que a tradução exige, também, mais explicações do que a simples versão do texto para o português. Daí surgem as notas de rodapé, que ajudam a compreender ideias, contextos políticos e históricos, e, especialmente, as questões religiosas, tão importantes em Os Irmãos Karamazov.
“A edição soviética que usamos já era bem anotada, e isso ajuda muito a decidir sobre o que traríamos uma nota”, explica Lucas. “Há coisas que foram se perdendo com o tempo, e até um leitor russo contemporâneo não entenderia, por isso é importante trazer algumas informações à parte. Mas é preciso bom senso para não se tornar refém das notas.”
Outro dos desafios enfrentados foi encontrar a voz distinta, específica para cada personagem. “Cada personagem é porta-voz de uma visão de mundo diferente em Os Irmãos Karamazov, e é preciso deixar isso bem claro na tradução”, aponta Cecília.
A fala da tradutora ecoa o pensamento de Paulo Bezerra, exposto no posfácio de sua tradução pela 34. “A propriedade da linguagem é um traço identificador de cada personagem, de seu nível cultural e social, das peculiaridades de sua personalidade, e até de seu temperamento, o que representa um desafio gigantesco para o tradutor”, escreveu ele. “Os irmãos Karamazov falam linguagens diferentes.”
Já Lucas complementa que, para além das questões linguísticas, houve desafios de outra ordem. “Há perspectivas trazidas pelas vozes dos personagens com as quais podemos não concordar do ponto de vista ideológico”, explica o tradutor, referindo-se, principalmente, à ideologia do escritor, que, após sua prisão e exílio na Sibéria, se tornou um conservador nacionalista. •
As novas roupas dos irmãos
O segmento O Grande Inquisidor é um dos mais importantes do romance e um dos textos mais conhecidos de Dostoievski. Note, abaixo, como ele é vertido nas duas traduções:
Paulo Bezerra (Editora 34)
Bem, aqui também não se pode passar sem um prefácio, ou seja, um prefácio literário, arre! – riu Ivan – mas lá sou eu escritor? Vê, a ação de meu poema se passa no século XVI, e naquela época – aliás, tu deves ter tomado conhecimento disto em teus cursos – justo naquela época as obras poéticas costumavam fazer as potências celestes descerem sobre a terra. (pág. 287)
Cecília Rosas e Lucas Simone (Cia. das Letras)
Pois bem, aqui não dá para evitar um prólogo, quer dizer, um prólogo literário, arre! – Ivan começou a rir. – Que raio de escritor sou eu?! Veja, a minha ação acontece no século XVI, e na época – aliás, você deve ter aprendido isso ainda na escola –, justamente na época era usual em obras poéticas trazer para a terra as forças celestiais. (pág. 422)
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fonte diáfana’
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