Cultura
Uma vida na ponta dos pés
A Ocupação Ana Botafogo repassa os 50 anos de carreira de uma artista que soube tornar o balé uma arte popular
No desfile das escolas de samba do carnaval carioca de 1991, a União da Ilha chamou a atenção com a presença de uma figura diferente entre seus componentes. Em cima de um carro alegórico, vestida com plumas vermelhas, ela trocava o samba no pé pelo samba nas pontas dos pés.
Ana Maria Botafogo dançava ali para a maior plateia de sua vida. De quebra, criava uma imagem poderosa, síntese dos esforços de toda a sua carreira. Em uma época na qual não havia celulares ou redes sociais, a primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ganhou fama ao cruzar o País se apresentando em espaços improváveis, como favelas, praias e shoppings, e se valeu do próprio carisma e do alcance massivo da televisão para provar que o balé clássico pode ser uma arte para todas as pessoas.
Até então, já existiam algumas estrelas verde-amarelas nessa área, como Márcia Haydée, que brilhou no Ballet de Stuttgart, e Beatriz Consuelo (1932-2013), grande referência do Ballet du Grand Théâtre de Genève.
Mas, apesar dos elogios da crítica e das ovações das plateias, nenhuma delas se tornou tão popular quanto Ana, cuja arte extrapolou as cortinas dos teatros. De Norte a Sul do Brasil, seu nome é imediatamente associado ao balé.
Essa trajetória é recapitulada em uma exposição que abre no sábado 28 no Itaú Cultural, em São Paulo. Ocupação Ana Botafogo marca os 50 anos de carreira da artista, que poderia ter tomado uma rota bem diferente se tivesse permanecido na Europa, onde iniciou sua profissionalização, ainda aos 18 anos, no Ballet de Marseille, então dirigido pelo aclamado coreógrafo Roland Petit.
O Brasil nunca foi exatamente um espaço com muitas oportunidades para bailarinos clássicos, mas, ainda assim, ela decidiu buscar trabalho por aqui. Dançou no Balé do Teatro Guaíra, em Curitiba, e, em 1981, chegou ao mais alto nível hierárquico em uma companhia. Durante um concurso para solista, conquistou algo raro: foi contratada diretamente como primeira-bailarina do Theatro Municipal da capital fluminense, cidade onde nasceu, se criou e se formou.
Ao sair na Sapucaí, em 1991, ela dançou para sua maior plateia e criou uma imagem poderosa
A partir daí, alternou as temporadas da companhia carioca com produções próprias que a levaram a dançar em 109 cidades de 23 estados. Também retornou aos palcos internacionais muitas vezes, como convidada, sempre destacando sua brasilidade como diferencial. A exposição refaz esse percurso por meio de 200 peças originais do acervo de Ana, divididas pelo espaço em três atos, tal como os grandes balés que marcaram sua vida.
O primeiro dedica-se às primeiras memórias, com fotografias e vídeos de sua infância e adolescência, fortemente ancoradas no apoio de sua mãe, Maria Dulce, e seu pai, Ernani Fonseca. É dele a autoria de Ana Botafogo: Palco e Vida, um calhamaço de mais de 900 páginas, lançado em 2021, que narra em detalhes os passos da filha.
No segundo ato, no ambiente de uma sala de ensaio, são explicados os principais elementos que constituem a carreira de uma bailarina clássica: ensaio, suor e disciplina.
Esse dia a dia é apresentado por meio de depoimentos, fotos e vídeos. Para contrapor as dificuldades e exigências da atividade, o espaço destaca algumas de suas recompensas, como o carinho do público, materializado em dedicatórias e presentes recebidos ao longo dos anos.
Já o terceiro ato concentra-se na longeva carreira de Ana no Theatro Municipal do Rio. Após dar adeus aos grandes balés de repertório, em 2012, ela atuou como diretora artística da companhia entre 2015 e 2018 e ainda hoje mantém seu vínculo com a instituição. Parte dessa história é apresentada por meio de uma instalação imersiva com trechos de grandes interpretações na tradicional sala de espetáculos carioca.
Destacam-se suas atuações em balés românticos, como Giselle e La Sylphide, no brasileiríssimo Floresta Amazônica, de Dalal Achcar, e em clássicos como Dom Quixote. O público pode apreciar, inclusive, um dos figurinos utilizados por ela nessa obra – o famoso tutu, com sua saia de tule achatado como uma bandeja, que favorece a visualização dos movimentos das pernas da bailarina.
Ao colocar a arte de Ana Botafogo tão perto do público, a Ocupação ecoa a exata maneira como ela encara seu trabalho. Todos têm sensibilidade e podem ser tocados pelo balé, mas cabe ao artista um papel fundamental na busca por esse diálogo. Dessa forma, a mostra convida cada visitante a perceber na entrega da bailarina um espelho da sua própria capacidade de se emocionar. •
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma vida na ponta dos pés’
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