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Aplausos de pé

Ator que dominava plenamente o drama clássico, Juca de Oliveira ganhou popularidade com a comédia de costumes

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Aplausos de pé
De cena em cena. Juca de Oliveira morreu aos 91 anos, em São Paulo. Acima, ele em Otelo, com Ney Latorraca, e em sua primeira novela, Nino, o Italianinho, da TV Tupi. Da esq. para a dir., com Gianfranceso Guarnieri, no Teatro de Arena, e no palco, na peça Caixa 2, sucesso de sua autoria – Imagem: Arquivo TV Globo, Arquivo Pessoal Juca de Oliveira e João Caldas
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O teatro, para Juca de Oliveira, morto no sábado 21, aos 91 anos, foi um chamado. Nascido em São Roque, interior de São Paulo, ele pisou pela primeira vez num palco aos 15 anos, a convite de um professor de xadrez.

Embora tenha adorado a experiência, ele seguiu tocando a vida, o que significava, em seu caso, trabalhar para ajudar a família. Foi sapateiro e balconista de farmácia antes de participar da seleção para office-boy no Banco Itaú, em São Paulo.

Escolhido para a vaga, mudou-se para a capital. Tinha 16 anos. A carreira no banco ia bem, e aquela sensação de êxtase que o teatro lhe havia provocado seguia guardadinha. O que acabou por fisgá-lo, depois de algum tempo na cidade, foi a política. Em 1953, filiou-se ao Partido Comunista. Não demorou para que, junto ao Sindicato dos Bancários, organizasse uma greve.

Da greve veio a demissão. Mas, com a demissão, veio também uma carta de recomendação que lhe permitiu logo se empregar em outro banco. Juca era um jovem bancário e um aluno da Faculdade­ de Direito do Largo São Francisco, na Universidade de São Paulo (USP), quando um anúncio de jornal teve o efeito de uma voz que chama.

Nele, um grupo de jovens buscava um ator para uma peça. E Juca, ainda que não tivesse voltado a pisar num palco depois da peça escolar, sentiu-se impelido a fazer o teste. Aprovado, descobriu a Escola de Arte Dramática da USP, onde ingressou em 1958. Durante algum tempo, tentou conciliar o banco, a São Francisco e a EAD.

É claro que não conseguiu. E entendeu então o que significava a vocação: um encontro entre a aptidão e a disposição de entregar a vida a algo – abrindo mão, para isso, de muitas outras coisas.

Juca demitiu-se do emprego, largou a faculdade de Direito e, em 1961, estreou profissionalmente no Teatro Brasileiro de Comédia, com A Semente, de ­Gianfrancesco Guarnieri. Em 1962, debutou no Arena, com Eles Não Usam Black-tie.

Começava assim uma das mais longevas e respeitadas carreiras do teatro brasileiro. Ator que dominava na plenitude o drama e o teatro clássico, Juca acabaria por tornar-se popular por meio da comédia de costumes, gênero em que se descobriu também como autor.

Devoto do teatro, o artista tinha nos livros, na pintura e na política outras de suas paixões

Seus textos alfinetavam os políticos e a elite econômica brasileira e ironizavam aquilo que a plateia entendia ser o outro – alguém caricato, de valores questionáveis.

A CartaCapital, quando estreou A Flor do Meu Bem Querer, em 2003, Juca disse: “Não invento nada. Tiro os meus políticos e banqueiros das notícias de jornal. São eles que inventam seus próprios escândalos e criam suas próprias piadas”. Ele, na ocasião, estampou a capa da revista.

Sua fala enfática, portadora de uma indignação que a bela voz potencializava, voltava-se contra os absurdos da política brasileira e contra a Lei Rouanet – que usava, mas que considerava ter tirado do teatro a saudável dependência da bilheteria. Sua figura era, no entanto, amável e sua gargalhada, fácil.

Devoto do teatro, tinha nos livros e na pintura outras duas grandes paixões. Acreditava que a arte e a beleza que dela emana podem melhorar as pessoas. Era, ao mesmo tempo, um animal político.

Em 1964, chegou a exilar-se em La Paz, na Bolívia, com medo da perseguição da ditadura. Não demorou, contudo, para que voltasse ao País. Nesse retorno, começou a trabalhar com Antunes Filho, outro dos grandes das artes cênicas brasileiras.

Em 1969, arriscou-se na teledramaturgia e, já no primeiro papel, em Nino, o Italianinho, da TV Tupi, alcançou grande sucesso. Nos anos 1970, foi para a Globo, mas, antes de a década terminar, saiu da emissora para retornar aos palcos, o lugar em que mais se sentia realizado. E, dessa vez, abraçava também a dramaturgia.

Seus textos conseguiram, de saída, estabelecer uma enorme comunicação com o público. Algumas de suas peças das décadas de 1980 e 1990 passaram anos em cartaz – caso de Motel Paradiso, Meno Male! e Caixa 2 –, tornando-se marcos do teatro voltado às grandes plateias. O crítico Sábato Magaldi escreveu que Juca mobilizava lugares-comuns capazes de sintetizar “a imagem mais gritante do País”.

Se o autor tinha essa marca, o ator tinha outras tantas. Uma delas era o fascínio pelos papéis shakespearianos. Foi Júlio ­César, Ricardo III, Otelo e, por fim, Rei Lear.

No centro do Roda Viva, da TV Cultura, em 2014, após estrear o monólogo Rei Lear, criado por Geraldo Carneiro e dirigido por Elias Andreato, explicou  que chegou a cancelar o espetáculo porque os desafios de encarar seis personagens simultaneamente lhe pareceram intransponíveis.

E então, no centro da roda, ele contou: “Fiquei tão angustiado ao cancelar que, em vez de dormir, fiquei trabalhando em cima do texto. E há um momento, com Cordélia, sua filha, em que vem a cena da reconciliação, da volta do afeto, a de esperança. De repente, pensei: ‘Se terminasse aqui, acho que seria possível’.”

Juca ligou para Carneiro e leu três vezes a cena que lhe pareceu ser o final no qual, aos 79 anos, ele se via. E assim foi feito. •

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Aplausos de pé’

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