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Protagonista ou coadjuvante?
A liderança do Brasil no continente está ameaçada pela dependência militar e tecnológica
O anúncio de que Donald Trump pretende recolocar o Hemisfério Ocidental no centro da estratégia internacional dos EUA não deve ser interpretado apenas como a reedição da Doutrina Monroe. O presidente sinaliza uma reorganização mais ampla do tabuleiro regional, na qual Washington reafirma sua pretensão de tutela estratégica sobre a América Latina ao mesmo tempo que revela limites crescentes de sua capacidade – e disposição – de oferecer liderança política e econômica ao continente.
Essa inflexão deixou de ser meramente programática no início de 2026, quando ações militares na Venezuela culminaram no sequestro de Nicolás Maduro. O episódio conferiu materialidade imediata ao que até então poderia ser interpretado como retórica estratégica: a disposição de Washington de impor pela força sua pretensão de controle hemisférico.
Ao mesmo tempo, a recém-lançada iniciativa “Shield of the Americas” – uma arquitetura ampliada de cooperação militar e de inteligência entre países ocidentais – indica a tentativa de institucionalizar essa lógica hemisférica sob liderança direta dos EUA. Anunciado durante uma cúpula com líderes da região, o programa busca coordenar operações militares e de segurança para combater organizações criminosas transnacionais, pretexto para as primeiras ações nas águas próximas à Colômbia e à Venezuela.
Esse movimento ocorre em um momento em que a América Latina concentra ativos de importância sistêmica para a economia e a segurança globais. A região abriga cerca de um quinto das reservas conhecidas de petróleo, grande parte dos estoques de lítio, cerca de 40% da biodiversidade do planeta e parcela decisiva da disponibilidade mundial de água doce.
O chamado Triângulo do Lítio – Argentina, Bolívia e Chile – tornou-se peça central das cadeias associadas à transição energética. O Brasil, por sua vez, detém mais de 90% das reservas de nióbio e depósitos relevantes de terras-raras, ainda pouco explorados. A exploração do pré-sal consolidou o País entre os maiores produtores de petróleo do mundo.
Essa concentração de recursos ganha ainda maior relevância no contexto da corrida global por minerais críticos – lítio, grafite, terras-raras e silício de alta pureza – essenciais para semicondutores, baterias e redes digitais. A disputa por esses insumos tornou-se o eixo central da competição tecnológica entre EUA e China. A esses ativos materiais soma-se uma dimensão menos visível, mas igualmente decisiva: a infraestrutura informacional. Em torno de 95% do tráfego internacional de dados circula por cabos submarinos que conectam continentes. Muitos desses cabos atravessam o Atlântico Sul nas proximidades da costa brasileira.
Em um sistema internacional cada vez mais dependente de plataformas digitais, centros de dados e redes globais de computação em nuvem, o controle dessa infraestrutura tornou-se uma das principais fontes de poder. Essa lógica aparece de forma explícita na Pax Silica, lançada pelos EUA em 2025, que busca articular cadeias “confiáveis” de suprimento e reforçar a autonomia tecnológica em áreas como semicondutores, Inteligência Artificial, minerais críticos e infraestrutura digital.
Se, no passado, a disputa pelo poder internacional passava pelo controle de rotas marítimas e fontes de energia, hoje desloca-se para o domínio das infraestruturas digitais e cadeias tecnológicas. É nesse novo cenário que a fragilidade estratégica brasileira se torna evidente.
Ao longo de décadas, as Forças Armadas do Brasil foram integradas a padrões doutrinários e operacionais dos EUA. Essa integração envolve treinamento, interoperabilidade e dependência de sistemas críticos de comando, comunicações e navegação. Em um ambiente de alinhamento tácito, essa dependência parecia funcional. No contexto atual, transforma-se em limitação objetiva à autonomia decisória do País.
A vulnerabilidade brasileira não é apenas militar: estende-se também ao domínio informacional. A maior parte da infraestrutura digital global – plataformas, sistemas operacionais e serviços de computação em nuvem – está concentrada em poucas empresas de tecnologia, sediadas principalmente nos EUA. Como já advertiu Edward Snowden, a soberania digital pode ser corroída menos por atos explícitos de espionagem do que pela própria arquitetura de dependência tecnológica.
Não basta ter vastas reservas de minerais estratégicos. Empresas estrangeiras controlam a maior parte da infraestrutura digital
O Brasil não parte, porém, de uma posição de fragilidade absoluta. Há experiências que demonstram a possibilidade de se construir autonomia tecnológica quando políticas de Estado são sustentadas ao longo do tempo. A Petrobras desenvolveu expertise na exploração de petróleo em águas profundas e ultraprofundas. A Embrapa construiu capacidade científica singular na agricultura tropical. A Embraer consolidou-se como uma das principais fabricantes globais de aeronaves regionais e mantém presença relevante no setor de defesa. A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) tornou-se líder mundial na produção e no processamento de nióbio.
Esses casos mostram que o País é capaz de desenvolver setores de alta complexidade tecnológica, mas permanecem como exceções em um contexto de forte desindustrialização. A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu drasticamente desde os anos 1980. A destruição de grandes empresas nacionais de engenharia pesada, decorrente da Operação Lava Jato, eliminou capacidades estratégicas importantes nas áreas de infraestrutura e energia.
É nesse ponto que surge uma pergunta inevitável: poderia o Brasil assumir um papel mais ativo na América Latina, não como potência hegemônica, mas como articulador regional capaz de oferecer cooperação econômica, integração produtiva e estabilidade institucional?
Como observava Celso Furtado, desenvolvimento não significa apenas acumular riquezas, mas também ampliar a capacidade de decidir. A questão colocada hoje ao Brasil é precisamente essa: preservar margem de decisão em um hemisfério novamente organizado sob forte tutela estratégica.
O retorno explícito da Doutrina Monroe redefine a soberania latino-americana como uma variável geopolítica central. Nesse cenário, o Brasil surge menos como potência inevitável e mais como uma possibilidade histórica. A tradição diplomática construída ao longo de mais de um século – marcada pela valorização do direito internacional, pela busca de soluções negociadas e pela capacidade de mediação regional – confere ao País credenciais raras em um ambiente de crescente polarização geopolítica.
Não se trata de disputar hegemonia nem de substituir uma tutela por outra, mas de decidir se o País permanecerá em posição reativa ou reconstruirá capacidades produtivas e tecnológicas que lhe permitam operar como ator relevante em um hemisfério cada vez mais assimétrico. •
*Doutor em Física pela University of California, em Santa Barbara, professor aposentado da UFPE, pesquisador do CNPq e membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências.
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Protagonista ou coadjuvante?’
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