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O preço da confiança

A guerra e o risco ao novo centro financeiro do Golfo

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Os petroestados têm se esforçado para virar praças globais de atração de capital, mas o projeto está ameaçado pela guerra – Imagem: Fayez Nureldine/AFP
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A escalada recente entre os Estados Unidos e o Irã recolocou o Oriente Médio no centro do risco global, mas o aspecto economicamente mais relevante desta crise talvez não esteja na ameaça imediata a ativos energéticos ou rotas marítimas, mas no abalo potencial de um projeto mais silencioso e ambicioso, a tentativa dos países do Golfo de se afirmarem como jurisdições confiáveis para o capital internacional, capazes de competir com centros financeiros tradicionais na atração de patrimônio, estruturas societárias e fluxos globais de investimento.

Ao longo das últimas duas décadas, Emirados Árabes Unidos, Catar e, mais recentemente, a Arábia Saudita passaram a investir de forma sistemática na construção de ambientes regulatórios voltados à captação de capital estrangeiro, com regimes tributários favoráveis, zonas financeiras autônomas e estruturas jurídicas desenhadas para reduzir fricções. Trata-se de uma estratégia deliberada de inserção na geografia do capital global, que busca transformar a região em algo mais que um polo energético, posicionando-a como um nó relevante de intermediação financeira.

Esse movimento aproxima o Golfo de um modelo historicamente associado às jurisdições de baixa tributação ou paraísos financeiros. O elemento comum entre elas nunca foi apenas o benefício fiscal, mas a combinação entre previsibilidade, estabilidade política, segurança jurídica e, em muitos casos, discrição. O capital internacional não busca apenas eficiência tributária, busca ambientes onde o risco institucional seja previsível e controlável.

A experiência histórica demonstra que esse tipo de reputação é cumulativo e lento. A Suíça levou séculos para consolidar sua posição como porto seguro financeiro, apoiando-se em neutralidade política, continuidade institucional e um arcabouço jurídico confiável que atravessou guerras e crises sem ruptura. Mesmo episódios que abalaram sua imagem, como os debates sobre ativos ligados à Segunda Guerra Mundial e a crise do Credit Suisse­, não foram suficientes para desmontar essa base construída ao longo de gerações.

Outras jurisdições seguiram trajetórias semelhantes. Luxemburgo consolidou-se como centro de fundos de investimento, Cingapura construiu um ambiente altamente previsível e integrado ao comércio global e as Ilhas Cayman tornaram-se referência na estruturação de veículos offshore. Em todos esses casos, o fator decisivo foi a percepção de continuidade, a ideia de que as regras do jogo não seriam alteradas de forma abrupta.

Os ataques ao Irã ameaçam o projeto de países da região de se tornarem portos seguros para o capital

É justamente essa percepção que o Golfo tenta construir em um intervalo historicamente curto. Seus centros financeiros são recentes – o DIFC foi criado em 2004, o Qatar Financial Centre em 2005 e o Abu Dhabi Global Market em 2013 – e, embora tenham avançado rapidamente na atração de capital e na criação de estruturas institucionais modernas, ainda operam sob o desafio de consolidar uma reputação que em outros lugares levou décadas ou séculos para se firmar.

Esse esforço não é exclusivo do Golfo. Em diferentes regiões, observa-se uma competição crescente entre jurisdições para atrair capital internacional em um ambiente de alta mobilidade financeira. O Uruguai consolidou-se como uma alternativa regional ao oferecer estabilidade institucional, segurança jurídica e regime tributário atrativo, tornando-se destino recorrente de patrimônio em momentos de instabilidade nos países vizinhos. Em diversos episódios de crise na Argentina, funcionou como porto seguro regional. Mais recentemente, o Paraguai tem buscado trilhar caminho semelhante, ainda que partindo de uma base institucional mais incipiente. Com baixa carga tributária, custos reduzidos e crescente abertura ao investimento estrangeiro, tenta posicionar-se como alternativa competitiva para estruturas empresariais e produtivas, refletindo a mesma lógica global: a busca por ambientes com menor fricção regulatória e maior previsibilidade relativa.

Essa dinâmica torna ainda mais relevante a questão da confiança. Em um sistema financeiro altamente integrado, recursos se deslocam com rapidez entre jurisdições, respondendo não apenas a incentivos econômicos, mas à percepção de risco institucional. Quando essa percepção se deteriora, o efeito tende a aparecer na qualidade dos fluxos e na disposição de investidores em assumir compromissos de longo prazo.

É nesse ponto que a atual escalada no Oriente Médio ganha significado mais profundo. Os desdobramentos recentes, com ataques a infraestruturas, aumento da presença militar e intensificação das tensões, atingem diretamente a percepção de previsibilidade da região. Para investidores, o problema não é apenas a existência de conflitos, mas também a dificuldade de antecipar sua evolução e seus limites.

Quando a previsibilidade se torna incerta, o capital reage. Não necessariamente por meio de retiradas abruptas, mas por ajustes cumulativos: exigência de maior retorno, reavaliação de exposições, adiamento de decisões e, em alguns casos, redirecionamento para jurisdições percebidas como mais estáveis. Em centros financeiros em formação, esse movimento é particularmente sensível, pois afeta não apenas os fluxos, mas o discurso que sustenta sua atratividade.

Há, contudo, um elemento adicional. Os custos dessa instabilidade não recaem­ de forma homogênea. O Irã, historicamente sujeito a sanções, opera à margem do sistema financeiro global. Os efeitos mais relevantes tendem a recair sobre as economias que vinham tentando ampliar sua inserção internacional, atraindo capital e construindo reputação financeira.

Nesse sentido, parte do custo econômico da instabilidade no Golfo reflete decisões estratégicas tomadas fora da própria região, especialmente por atores com maior capacidade de projeção militar. Para países que buscam construir reputação como plataformas financeiras, o desafio torna-se maior. Não basta oferecer boas condições econômicas, é preciso demonstrar que elas são resilientes a choques que escapam ao seu controle direto.

Em finanças internacionais, a confiança é um ativo construído lentamente e perdido rapidamente. Para o Golfo, o teste atual não é apenas atravessar mais um episódio de tensão, mas provar que sua promessa de previsibilidade é robusta o suficiente para resistir a ele, condição essencial para transformar ambição em credibilidade duradoura. •


*É professor da FGV, economista pela PUC-SP, mestre em Finanças pela University of Miami (EUA) e em Ciência Política pela Universidad Europea del Atlántico (Espanha), doutor em Ciências Sociais pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal) e doutor em Finanças pela FGV-SP.

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O preço da confiança’

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