Política
Sem acordo
Racha em coalizão progressista pode tirar o PT da disputa pelo governo e dividir o palanque de Lula no estado
A uma semana do encerramento da janela partidária e da data-limite para desincompatibilização dos chefes de Executivo que pretendem disputar as eleições deste ano, o cenário no Maranhão vai além das incertezas. O acirramento extrapolou os limites da política e adentrou o campo da Justiça. De um lado está o governador Carlos Brandão, sem partido, enfrentando pelo menos dois processos no Supremo Tribunal Federal que podem custar-lhe o mandato. Ele é acusado de “nepotismo estrutural” e responde a um processo envolvendo a indicação de seu sobrinho, Daniel Brandão, para uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. Do outro está o vice Felipe Camarão, do PT, acusado pelo Ministério Público Estadual de liderar um esquema de lavagem de dinheiro para ocultar crimes contra a administração pública. O procurador-geral de Justiça, Danilo José de Castro Ferreira, solicitou ao Judiciário o afastamento de Camarão do cargo, enquanto a Assembleia Legislativa discute a instalação de uma CPI para apurar o caso.
A batalha jurídica consolida o rompimento entre Brandão e Camarão, anunciado em meados do ano passado, quando o governador decidiu não manter um acordo eleitoral: ele sairia candidato a senador e abriria caminho para o vice assumir o governo e disputar a reeleição. O pacto daria continuidade à aliança iniciada em 2018, que elegeu Flávio Dino governador e Brandão vice. Com a saída de Dino para concorrer ao Senado em 2022, Brandão assumiu o governo e se reelegeu no primeiro turno. Originalmente, a ideia era repetir a estratégia com Camarão.
Para Hesaú Rômulo, cientista político e professor da Universidade Federal do Norte do Tocantins, com a indicação de Dino para o Supremo Tribunal Federal, Brandão viu a chance de se consolidar como a principal liderança política do Maranhão, uma vez que o ex-aliado se afastaria da cena política. No entanto, Dino segue influente no estado, reunindo entre os “dinistas” o próprio Camarão, seis deputados estaduais, dois federais e uma senadora. Este cenário gerou frequentes trocas de farpas e uma judicialização da política local, intensificando a queda de braço entre “dinistas” e “brandonistas”, que deve repercutir nas eleições de outubro.
“O governador saiu do PSB e rompeu com a coalizão que o elegeu. Isso ocorre quando Dino, a grande liderança política do Maranhão, sai do cenário para assumir uma cadeira no STF. Nesse momento, há uma reorganização das forças e dos vetores políticos no estado em busca de protagonismo”, avalia Rômulo, acrescentando que Brandão é hoje a principal liderança estadual, mas a palavra final desse processo eleitoral não está sob seu domínio. “Esta é a grande ambiguidade deste março interminável. Embora o governador concentre a maior força política, ele depende de um arranjo político envolvendo vários atores, como o PT nacional, que ainda não definiu o palanque de Lula no estado.”
Carlos Brandão rompeu com o vice petista e lançou o sobrinho para sua sucessão
Houve outros movimentos para tentar apaziguar os ânimos e recompor a aliança. Até o Palácio do Planalto entrou no circuito, sem sucesso. Em 14 de março, o governador lançou o nome do sobrinho, Orleans Brandão (MDB), como candidato à sua sucessão, durante um grande ato público que reuniu mais de 180 prefeitos. O ungido contaria com um amplo arco de alianças, a incluir 11 partidos. Nos bastidores, circula a informação de que o presidente nacional do PT, Edinho Silva, teria alertado que o presidente não subirá no palanque do sobrinho do governador, embora o nome e a imagem de Lula tenham sido usados à exaustão nos discursos do pré-lançamento.
O próprio PT estadual está dividido. A legenda ocupa quatro secretarias e boa parte da base defende a permanência na coligação. “O PT precisa garantir um palanque forte para Lula, e esse palanque é com o governador Brandão. Ele tem 60% de aprovação, sinaliza o tempo todo que apoiará Lula, e acho que o PT pode pleitear uma das vagas ao Senado na chapa”, defende José Inácio, dirigente petista no estado. Com dificuldades dentro do próprio partido, Camarão pode migrar para o PSB, aliado do prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), líder nas pesquisas rumo ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual.
Caso componha com Braide, Camarão pode disputar uma vaga no Senado. O vice-governador também não descarta concorrer a deputado estadual. “Independentemente da minha candidatura, vou liderar a campanha de reeleição do presidente Lula no Maranhão. Estou esperando a decisão que for melhor para o povo do meu estado, para então definir meu caminho. Mas, em qualquer cenário, vamos trabalhar para derrotar qualquer oligarquia coronelista que tente dominar nosso povo indevidamente”, diz Camarão.
Liderando em todos os cenários, Braide ainda não confirmou se disputará o governo. Ele tem até o início de abril para se desincompatibilizar do cargo, caso decida ser candidato. Se optar por concorrer, seria uma segunda opção de palanque lulista, considerando o apoio que deve receber do grupo “dinista” e do próprio Camarão. Procurado por CartaCapital, o prefeito não retornou os contatos. Correndo por fora está Lahésio Bonfim, do Novo, candidato bolsonarista com pouca capilaridade eleitoral.
Carlos Brandão também não retornou os contatos para comentar as denúncias que recaem sobre ele, assim como Orleans Brandão, sobre sua candidatura. Camarão, por sua vez, se declara vítima de perseguição e afirma que as acusações de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras atípicas são “levianas, infundadas, esdrúxulas e fantasiosas”. Ele acusa Brandão de estar por trás das denúncias: “Querem me tirar do caminho do coronel Brandão para tentar eleger o seu sobrinho, mas não vão conseguir. Uma oligarquia do Maranhão já foi derrotada no passado, e essa pseudonova oligarquia será derrotada agora também”. •
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem acordo’
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