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Macho alfa, preso beta

De Bolsonaro ao PM Geraldo Rosa, as fragilidades dos gabolas

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Macho alfa, preso beta
Quiz. Qual destes seres demonstrou alguma dignidade? Resposta: C – Imagem: Sergio Lima/AFP, Mauro Pimentel/AFP e Redes Sociais
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Nunca canso de me impressionar com o caráter pedagógico e psicanalítico da prisão. Basta o cheiro de mofo misturado ao suor dos futuros companheiros de penitenciá­ria, o giro da chave na porta ou a simples expectativa de ter o sol limitado a uma tela quatro por quatro para disparar os gatilhos miasmáticos mais profundos. Basta um segundo, um vislumbre do futuro atrás das grades. No primeiro depoimento após a prisão, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto sentiu falta de ar, tontura e dor de cabeça. Por pouco não desmaiou. Decepção para os guardas penitenciários, à espera de receber o “rei, religioso, honesto, trabalhador, inteligente, saudável, bonito, gostoso, carinhoso, romântico, provedor, soberano”. De repente, o macho alfa que exigia da esposa assassinada obediência e submissão deu lugar ao preso beta, o desamparado em busca de empatia e solidariedade. Ouve-se um gaiato ao longe: “Tá com pena, leva para casa”.

Rosa Neto, que, por ora, não é nenhuma flor – talvez o ambiente do presídio amoleça seu coração –, reúne todos os requisitos de um típico bolsonarista. Coragem indômita diante de quem supõe mais fraco e indefeso, covardia infame quando chamado a prestar contas dos próprios atos. Por falar em Bolsonaro, o capitão teve uma súbita melhora e deixou a UTI rumo ao quarto no hospital DF Star. Há quem veja um milagre operado por São Gonet, padroeiro dos golpistas fragilizados. Na segunda-feira 23, o procurador-geral da República emitiu parecer favorável à prisão domiciliar do ex-presidente em decorrência da saúde precária. No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, acatou em parte a recomendação. O capitão ficará 90 dias em casa, no processo de convalescença, até uma nova avaliação.

O magistrado resistia bravamente ao assédio, mas agora parece ter 129 milhões de motivos para mudar de ideia, além da pressão de pares da Corte, de políticos do Centrão e de setores da mídia, que oferecem a Bolsonaro uma solidariedade negada ao presidente Lula e de fazer inveja ao abnegado padre Júlio Lancelotti.

A valentia não resiste a cinco minutos no xilindró

Desde a prisão, ordenada por conta da tentativa de romper a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, Bolsonaro lembra o Doente Imaginário de ­Molière. O atleta, imorrível, imbrochável, o “era só uma gripezinha”, o titã no comando de um “país de maricas”, transmutou-se em um moribundo acometido por soluços, insônia, quedas, refluxo… Um bom psiquiatra talvez resumisse o quadro a um só sintoma: síndrome do pânico. O clã não se faz, porém, de rogado. Flávio sem sobrenome, Eduardo “foragido” e Carluxo de Santa Catarina exercitam diuturnamente o que eles mesmos chamariam de mimimi. Reivindicam uma compaixão aos seus que negam aos oponentes, tratados in limine como inimigos e, portanto, dignos apenas de uma morte miserável. Queixam-se da perseguição política ao pai, impedido, vejam só, de levar na cadeia a vida de um cidadão livre e sem culpa no cartório. Vaticinam o risco de morte na “precária” unidade da Papudinha, embora Bolsonaro tenha à disposição atendimento médico 24 horas por dia, que prestou socorro 206 vezes em 56 dias de cárcere, ambulância na porta e batedores em motocicletas para apressar a chegada a qualquer hospital de Brasília.

Imagina-se que, na eventualidade de ser eleito presidente da República, o senador Flávio sem sobrenome aprove uma lei para extinguir esse tipo de privilégio tão custoso aos cofres públicos. Proposta ele tem. Em 2017, período no qual Lula estava detido na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba e os aliados alertavam para as suas condições físicas, o “apenas” Flávio achou de útil promover uma enquete no antigo Twitter. Eis a pergunta: “Políticos corruptos têm alegado problemas graves de saúde para saí­rem da cadeia. Você é a favor de cemitérios ao lado das carceragens da Polícia Federal para que o Estado gaste menos com o transporte dos corpos?” Arroubos imaturos do passado? Não. No domingo 22, enquanto se lamuriava (outra vez) por causa da fragilidade do pai na UTI, o “moderado” bravateava em um convescote de pré-campanha: bandido “vai mofar na cadeia” e será “neutralizado” se enfrentar a polícia. Por semelhanças genéticas e de caráter, Eduardo Bolsonaro não fica atrás. Em 2019, a defesa de Lula requereu à Justiça a licença para o petista ir ao enterro do neto Arthur, de 7 anos. O bravo deputado tuitou sua repulsa: “É preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado”.

Benjamin Netanyahu não está preso, apesar de ter contra si um mandado de captura emitido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade, mas soletra a cartilha da Internacional Fascista de humanização dos seus e bestialização dos outros. A contagem de mortos na Faixa de Gaza continua imprecisa. Os especialistas calculam quase 70 mil palestinos, 16 mil crianças entre eles, massacrados por mísseis, tiros, fome e doenças. No primeiro dia de ataque ao Irã, uma escola bombardeada aniquilou a vida de 168 meninas. Nada abalava o primeiro-ministro, até o domingo 22. Diante da destruição de uma área urbana em Tel-Aviv, sem vítimas fatais, por drones iranianos, em revide aos bombardeios de israelenses e norte-americanos, ­Bibi ensaiou uma indignação como se fosse o agredido em vez do agressor. “Se você quer provas de que o Irã coloca o mundo inteiro em perigo, as últimas 48 horas forneceram isso. Nesse período, o Irã atingiu uma área civil”, discursou. “Eles fazem isso como uma arma de assassinato em massa. Felizmente, ninguém morreu, mas isso se deve à sorte, não à intenção deles. A intenção é matar civis. (…) ­Israel e os Estados Unidos estão trabalhando juntos pelo mundo inteiro.” Obrigado, Netanyahu, por tornar o planeta menos seguro e o petróleo mais caro.

Enquanto isso, a única lição de dignidade vem da capivara agredida durante a madrugada na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. O animal sofreu traumatismo craniano e perdeu a visão de um olho. Mas segue firme. •

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Macho alfa, preso beta’

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