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Trade-off da pobreza

As raízes socioeconômicas do trumpismo e o velório do sonho americano

Trade-off da pobreza
Trade-off da pobreza
Epílogo. Os baby boomers submergiram, seus netos fazem bico e não conseguem comprar moradia. Vivem em cidades fantasmas, sem indústrias, sem sonhos – Imagem: Brendan Smilialowski/AFP
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Começamos com o editorial do New York Times: “Imagine que você tenha de fazer uma aposta. Há duas ­pessoas de 18 anos, uma na China, a outra nos Estados Unidos, ambas pobres e com poucas perspectivas. Você precisa escolher aquela com maior probabilidade de mobilidade ascendente. Qual você escolheria? Não há muito tempo, a resposta talvez fosse fácil. Afinal, o ‘sonho americano’ havia prometido uma caminhada rumo a uma vida melhor a qualquer pessoa que trabalhasse arduamente. Mas hoje a resposta é surpreendente: a China ascendeu com tanta rapidez que as chances de uma pessoa melhorar a situação de vida por lá excedem em muito as de uma pessoa nos Estados Unidos”.

Trade-off é renunciar a algo em benefício de outra coisa. Em economia, trata-se da renúncia de um benefício por outro, em uma suposta troca entre dua­s alternativas. Diriam os economistas conservadores que a classe média branca norte-americana desrespeita os sagrados princípios da “racionalidade econômica” ao abandonar o princípio da troca de um benefício por outro.

A perda da dignidade do trabalho, somada à falta de perspectiva nos estados do Meio-Oeste do nosso glorioso Tio Sam, impulsiona o trade-off entre o ruim e o pior. Pode piorar ainda mais: os republicanos tradicionais, elegeram Trump again. E piorou.

O sonho americano, simplesmente acabou, a terra das oportunidades é restrita a 2% ou 3% da camada superior. O resto? Cada vez mais se entrega ao vício do opioide oxicodona, recorde de consumo mundial. A queda de cerca de 10% no consumo de fast-food se associa aos planos de saúde miseráveis e às ferrovias e estradas deterioradas.

O sonho americano virou pesadelo, um trade-off entre desalento e altas taxas de suicídio.

Aqui cabe lembrar a série Papai Sabe Tudo (Father Knows Best), uma representação arquetípica dos ideais de vida familiar dos anos 1950, que se tornou uma importante influência nos valores familiares norte-americanos. Esses valores familiares – prevalecentes no imediato pós-Guerra – refletiam as condições de vida da classe média do país, herança valiosa da Era Roosevelt. O ambiente de maior igualdade estendeu-se ao longo de três décadas, de 1945 a 1970.

Os chamados Trinta Anos Gloriosos do pós-Guerra sucumbiram às façanhas do neoliberalismo financeiro. A classe média, os Baby Boomers, viveu o boom na economia norte-americana entre 1945 e 1970. O país da classe média era contemplado com estabilidade de renda e emprego e com casas nos subúrbios.

Compensar desigualdade com poder de compra não reduz o ressentimento por falta de reconhecimento

No artigo “O capital está de volta”, Thomas Piketty e Gabriel Zucman revelam a evolução da relação entre riqueza e renda desde o século XVIII. Analisando as oito maiores economias desenvolvidas do mundo, a relação entre a riqueza agregada e a renda saltou de, aproximadamente, 200% a 300%, em 1970, para 400% a 600% atualmente.

O economista Michael Roberts apresenta as condições dos mercados de trabalho nos Estados Unidos. “Em janeiro, a economia dos EUA perdeu 92 mil empregos. As vagas no setor de serviços profissionais e empresariais caíram para apenas 4 por 100 funcionários, o menor número desde a recessão da pandemia de 2020 e quase 60% abaixo do pico do emprego de profissionais qualificados em 2022. Quando a contratação de profissionais qualificados desacelera drasticamente, o restante do mercado de trabalho geralmente segue a mesma tendência.”

Alerta Michael J. Sandel, no livro A Tirania do Mérito: “Interpretar o protesto populista como malévolo ou mal direcionado absolve as elites governantes da responsabilidade de criar as condições que corroeram a dignidade do trabalho e deixaram várias pessoas se sentindo desrespeitadas e sem poder. O status econômico e social declinante dos trabalhadores em décadas recentes não é resultado de forças inexoráveis, é resultado do modo como os partidos políticos dominantes e as elites governam”.

Os baby boomers submergiram e seus netos não têm trabalho, fazem bicos no setor de serviços e não conseguem comprar suas moradias. Vivem em cidades fantasmas, sem indústrias, sem sonhos. Perderam sua dignidade, acossados pela raiva e pelo desespero, ou narcotizados pelo consumo de oxicodona, correm para o Make America Great Again (­MAGA) não por convicção, mas por desespero, assim como a massa de trabalhadores alemães acreditou em Deutschland über alles (A Alemanha acima de tudo). A derrocada lenta e gradual da hegemonia imperial norte-americana.

Se os trabalhadores norte-americanos não têm trabalho, como indivíduos, sem função, sem valor e sem dignidade, não é possível avaliar sua produtividade. “A produtividade está ligada principalmente aos papéis no trabalho, não aos indivíduos.” (Elizabeth Anderson)

Quem vai restaurar a dignidade e o valor do trabalho numa economia que gasta trilhões de dólares em tecnologia de Inteligência Artificial e na construção de data centers que consomem energia e água da população nas cidades próximas? A raiva vai aumentar quando a classe média branca norte-americana perceber que o Messias e o mundo vindouro não virão! Qual será o próximo trade-off da miséria?

“Todo idealismo é uma mentira diante da necessidade.” (Nietzsche)

Vamos nos valer de Michael Sandel ainda uma vez:

“As propostas de políticas para compensar a desigualdade por meio de aumento do poder de compra de famílias das classes trabalhadoras e médias, ou para fortalecer a rede de segurança, terão pouco resultado na abordagem da raiva e do ressentimento que hoje estão fortes demais. Isso porque a raiva decorre da falta de reconhecimento e de estima”.

The dream is over, my fellows americans. •

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Trade-off da pobreza’

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