Paulo Gala

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

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Menos horas, mais valor

O verdadeiro debate por trás do fim da jornada 6×1

Menos horas, mais valor
Menos horas, mais valor
Oito em cada dez trabalhadores apoiam a redução da jornada, revela recente pesquisa do instituto Vox Populi – Imagem: Carol Mendonça/Coletivo Educação em Primeiro Lugar
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O possível fim da jornada 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso, tem sido apresentado como uma mudança de grande impacto econômico. No debate público, a proposta frequentemente aparece cercada de previsões alarmistas sobre emprego, produtividade e crescimento. Mas, quando analisada com mais cuidado, a evidência sugere um quadro bem mais modesto. Trata-se, essencialmente, de uma redução marginal na jornada formal de trabalho, com efeitos macroeconômicos limitados.

Levantamentos sobre o mercado de trabalho, inclusive as análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e de outros centros de estudo, indicam que mudanças moderadas na duração da jornada raramente provocam alterações significativas nos níveis de emprego ou desemprego. Empresas tendem a se ajustar, reorganizando escalas, turnos e contratos. Não há sinais consistentes de que reduções desse tipo levem a uma destruição relevante de postos de trabalho.

Do ponto de vista dos trabalhadores, a mudança pode, no entanto, ter efeitos positivos no curto prazo. Caso as empresas optem por manter o mesmo volume total de horas trabalhadas, será necessário recorrer a horas extras ou a novas contratações pontuais. Em ambos os casos, pode haver algum aumento de renda para parte dos trabalhadores formais. Além disso, a melhora nas condições de descanso e na qualidade de vida não é desprezível – e faz sentido do ponto de vista social.

Ainda assim, é importante não exagerar o alcance da medida. O debate sobre a jornada de trabalho, embora relevante, não toca no principal problema da economia brasileira. Com frequência, afirma-se que o País sofre de baixa produtividade. Mas essa leitura, isoladamente, pode ser enganosa. O verdadeiro desafio está no baixo valor adicionado das atividades econômicas.

Grande parte da força de trabalho brasileira está concentrada em setores que produzem bens e serviços com baixo conteúdo tecnológico e reduzida sofisticação produtiva. Nessas atividades, mesmo trabalhadores eficientes geram pouco valor econômico por hora trabalhada. O resultado aparece nas estatísticas como baixa produtividade, mas a raiz do problema está na estrutura produtiva.

Esta é a principal diferença entre economias ricas e países de renda média. Nas economias avançadas, uma parcela significativa da produção ocorre em setores intensivos em tecnologia, conhecimento e inovação, como indústria de alta complexidade, serviços sofisticados e Tecnologia da Informação. Nesses segmentos, cada trabalhador é capaz de gerar muito mais valor.

No Brasil, ao contrário, houve nas últimas décadas uma perda relevante de complexidade produtiva, com redução do peso da indústria mais sofisticada e maior dependência de atividades de menor valor agregado. Esse movimento ajuda a explicar por que o País fica atrás de economias avançadas – e até de alguns emergentes – nos indicadores de produtividade.

A própria forma de medir produtividade reforça essa interpretação. Em geral, calcula-se a produtividade do trabalho como o valor adicionado dividido pelo número de trabalhadores. Se a economia gera pouco valor, porque produz bens e serviços pouco sofisticados, o indicador será baixo, independentemente do esforço individual dos trabalhadores.

Não há evidência de que o trabalhador brasileiro seja menos dedicado ou eficiente. Ao contrário, a jornada média no Brasil já é relativamente longa, superior àquela observada em muitas economias desenvolvidas. O problema, portanto, não está na quantidade de horas trabalhadas, mas na qualidade econômica das atividades realizadas.

Nesse contexto, mudanças na jornada, como o fim da escala 6×1, têm impacto limitado sobre o desempenho agregado da economia. Elas podem melhorar o bem-estar dos trabalhadores e gerar pequenos ganhos distributivos, mas não alteram de forma significativa a trajetória de crescimento do País.

O que realmente pode transformar o desempenho econômico brasileiro são políticas voltadas ao aumento do valor adicionado: investimento em inovação, desenvolvimento tecnológico, fortalecimento da indústria e estratégias de sofisticação produtiva. Em outras palavras, o desafio central do Brasil não é fazer os empregados trabalharem mais – ou menos – horas, mas produzir melhor. Porque, no fim, não é o relógio que define a riqueza de um país, e sim aquilo que ele é capaz de criar dentro dele. •

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Menos horas, mais valor’

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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