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O deus das pequenas coisas
Há engenhos que quase passam despercebidos. Parecem singelos à vista, mas são extraordinários na concepção e no uso
Prezado leitor, tomei emprestado, para esta coluna, o título do livro de estreia da indiana Arundhati Roy, vencedora do Booker Prizer de 1997. A obra explora de forma crítica o rígido sistema de castas na Índia, focando na discriminação contra os “intocáveis” (dalits) e outros temas considerados tabus na nação asiática, o que levou a autora a enfrentar um tribunal local por “obscenidade”. Ainda não tive a oportunidade de ler o romance, mas me encantei logo pelo título. A ideia de que exista um deus só para se ocupar de coisas aparentemente desimportantes me parece poética, realmente bonita.
Neste texto, gostaria de elencar algumas dessas pequenas coisas que estão presentes em nosso cotidiano sem que tenhamos refletido sobre a importância delas. São objetos essenciais e ao mesmo tempo modestos, que manuseamos como se estivessem presentes desde o dia de sua criação. Nem nos passa pela cabeça especular quem os inventou, e agradecer por isso.
Meu pai, um homem inquieto e ávido por realizações, foi um dos profissionais que introduziu o conceito de design no Brasil. Certa vez, telefonaram-me para perguntar quais seriam os grandes “designs” que a humanidade já inventou. Respondi de pronto: “livro, escova de dentes e guarda-chuvas”. Jamais tive a pretensão de concorrer com a sofisticação de meu pai engenheiro! Contei esse episódio a um amigo, que não titubeou em acrescentar: “as letras, os números e as notas musicais”. Touché!
Recentemente, pensei em objetos bem mais modestos, com os quais convivemos diariamente, sem sequer nos darmos conta do quanto são imprescindíveis em nosso cotidiano. Sem a pretensão de posar como entendida em design, citarei alguns deles. Fósforos, por exemplo. Um minúsculo palito de madeira com uma pequena “cabeça” que contém, de acordo com o Google, uma mistura de fósforo vermelho com vidro em pó. O atrito entre as duas substâncias produz a chama que nos permite acender o fogão, o lampião, a vela e o que mais precisarmos. Magia pura!
A simplicidade é a chave do sucesso. Fico imaginando o que seria de nós sem algumas dessas singelas e magníficas invenções. Os colchetes, por exemplo. Duas peças metálicas cerzidas na abertura de uma calça e prontas para se encaixarem perfeitamente uma na outra, nos poupando do risco de literalmente “perder as calças”, com todo o vexame que a cena causaria. O que dizer, então, de outro par perfeito da costura, a agulha e a linha? Por mais que tenha enorme dificuldade em acertar a ponta do fio no minúsculo vão da haste metálica, é preciso reconhecer que essa dupla, após um encontro bem sucedido, facilita muito a tarefa de consertar rasgos e pregar botões.
Cito ainda outra tecnologia bastante corriqueira, mas ainda essencial para garantir a segurança dos nossos lares: as chaves e as fechaduras. Para mim, é um milagre que funcionem de forma tão precisa, de modo que somente o detentor da combinação correta seja capaz de abrir cada porta. Também não posso deixar de mencionar os abridores de latas – cada qual com a embocadura exata para um encaixe perfeito – e os clipes de folhas de papel, para que estas não ousem alçar voo ao sabor do ventos.
Acabo de me lembrar de outra maravilha: a mão francesa! Uma espécie de triângulo de metal bem firme que, pregado à parede, é capaz de sustentar prateleiras e objetos bem mais pesados. Tenho em casa um velho xaxim com uma samambaia que bebe muita água. Quando o seguro na mão, vejo o quanto pesa, mas a estrutura triangular do suporte superior, por algum fenômeno da física que não compreendo, sempre deu conta do recado. Se alguém souber a origem do nome “mão francesa”, gostaria de ser informada.
Há várias inovações que nem sei qual é o nome. Como se chamam mesmo aqueles aramezinhos revestidos de plástico, que comparecem quando precisamos fechar sacos plásticos de lixo? Vale considerar que essas miudezas, quase insignificantes no dia a dia, desempenham um papel modestíssimo entre os sofisticados avanços tecnológicos de nossa época.
Nós, humanos, temos propensão a nos entediar com facilidade. Por isso, sugiro ao leitor que preste atenção às pequenas coisas que nos rodeiam, cuja importância tantas vezes passa despercebida. O oposto do tédio não é necessariamente – ou não somente – a farra e a alegria. Gosto de pensar que o oposto seja a curiosidade, nossa capacidade de nos surpreender, tanto com coisas fabulosas quanto com os detalhes ínfimos da existência. Se existe, de fato, um deus das pequenas coisas, deve ser isso que ele vem nos ensinar. •
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O deus das pequenas coisas’
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