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A eleição de 2026 e o novo tempo do mundo
Se, no plano eleitoral, tudo depende da disposição para uma intervenção mais aberta, no longo prazo o cenário é de ameaça séria à democracia brasileira
A política internacional ganhou crescente importância no cenário brasileiro da última década. A partir, sobretudo, de certa renovação de um tradicional repertório anticomunista e de um elogio aberto às experiências do ‘ocidente’, disputas antes vistas como secundárias passaram a pautar debates nacionais.
Em discursos sobre impostos ou educação, não são raras, por exemplo, menções à Venezuela ou a Cuba — seja na retórica do bolsonarismo e da ultradireita, seja nos textos de colunistas políticos. Diante das profundas transformações recentes da ordem internacional, evidenciadas a partir dos movimentos do governo Trump, motes retóricos tradicionais da direita brasileira encontraram um novo terreno, ainda cheio de incertezas.
A partir de um misto de velhas práticas imperialistas e novas formas de exercício do poder bélico e dos embargos econômicos, Trump abandonou qualquer simulacro de respeito à ordem internacional. Afirma explicitamente pautar-se apenas pela força bruta e pelos supostos interesses nacionais do país — uma miscelânea que vai do supremacismo branco ao reacionarismo cristão e a certo afã libertário. Se, em seu mandato e trajetória política anterior, ele se equilibrava entre um imperialismo agressivo e certo isolacionismo, agora ultrapassa até mesmo as premissas e métodos dos “falcões” que deram o tom a empreendimentos militares como a Guerra do Iraque.
A América Latina ocupa um lugar privilegiado no imaginário político do trumpismo, sendo retratada como um território colonial, completamente submisso ao jugo norte-americano. Antes de demonstrar força em outras regiões do mundo, para Trump e seus mais próximos assessores é necessário disciplinar completamente sua periferia próxima, zona de influência tradicional do país. Se a política dos EUA sempre teve enorme impacto nos cenários nacionais do subcontinente, agora lidamos não apenas com um fortalecimento de práticas intervencionistas, mas com o reconhecimento aberto de sua existência e legitimidade. A ausência de hipocrisia não significa maior virtude, já que tanto normaliza tais práticas quanto aumenta sua frequência e intensidade.
Há, além disso, uma questão central: a simples normalização da linha de atuação de Trump já transforma os cenários políticos locais. Ainda que não venha a determinar os resultados da eleição brasileira, a possibilidade concreta de fazê-lo tem efeitos profundos sobre o desenrolar do pleito. O círculo próximo ao líder autoritário norte-americano tem plena ciência desse fato e busca claramente demonstrar seu poder, por vezes ampliando as possibilidades legais de intervenção — como na classificação de facções criminosas brasileiras como grupos narcoterroristas —, em outros momentos com acenos positivos a lideranças da ultradireita de clara feição golpista, caso do recente envio de seu assessor Darren Beattie para uma conversa com Jair Bolsonaro.
A eleição de 2026 já ocorre, portanto, sob a sombra de Donald Trump.
Os efeitos desse fato são, contudo, complexos. O alinhamento entre Trump e a família Bolsonaro é, por um lado, um recurso de poder importante, capaz de atrair aliados e ampliar o acesso a instrumentos de influência. A recente intervenção nas eleições locais argentinas, para ajudar Milei, é um bom exemplo de como o presidente norte-americano está disposto a usar as ferramentas disponíveis em prol da vitória de líderes locais a ele alinhados. Há, todavia, formas de auxílio menos evidentes e mais difíceis de controlar, como o uso enviesado das redes sociais, que não apenas se mostram subservientes ao mandatário estadunidense como também acumulam conflitos de interesse com lideranças do atual governo brasileiro.
Nem só de vantagens se define o apoio trumpista. Como o caso do tarifaço evidenciou, o alinhamento aberto aos interesses norte-americanos é mal avaliado por parte significativa da população e produz prejuízos econômicos relevantes para grupos sociais influentes na sociedade brasileira. Ele também descredibiliza a retórica nacionalista da ultradireita, central em sua trajetória recente — das Jornadas de Junho de 2013 às campanhas de Bolsonaro. Há uma identidade estética importante, profundamente imbricada à defesa de certos valores, que passa a ser vista como farsa ou contradição, o que tende a produzir consequências eleitorais negativas.
Ao apoiar medidas trumpistas prejudiciais à maior parte da sociedade brasileira, como o tarifaço, ou mesmo ao defender intervenção militar contra traficantes, os Bolsonaro assumem fragilidades passíveis de exploração no processo eleitoral. Por mais que parte da sociedade brasileira veja com simpatia os Estados Unidos, a postura submissa a uma potência estrangeira ainda constitui um problema político.
Os embates políticos, entretanto, não se encerram com a eleição. Ao menos desde 2014, com o questionamento aberto de Aécio Neves às urnas, a questão não é apenas vencer, mas tomar posse e conseguir governar minimamente. A longa expertise trumpista em questionar resultados eleitorais e organizar manobras golpistas — como a de 6 de janeiro, no Capitólio — aumenta o risco de movimentos de contestação ao processo eleitoral. Isso pode ocorrer tanto por meio de um novo 8 de janeiro quanto por estratégias com maior verniz de legalidade. A presença de dois ministros nomeados por Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral abre possibilidades ainda imprevistas, mas anteriormente muito mais remotas.
O olhar sobre o papel da nova política norte-americana para a América do Sul e o mundo deve, desse modo, considerar o curto e o longo prazo. Se, no plano eleitoral, tudo depende da disposição para uma intervenção mais aberta — já que os resultados, medidos em pesquisas de opinião, ainda são desfavoráveis ao campo bolsonarista —, no longo prazo esse cenário surge como mais um fator de ameaça séria à democracia brasileira. Se a ultradireita permanecer como um ator político normalizado, como ocorreu na última década, torna-se difícil acreditar na longevidade de qualquer experiência democrática no país, seja por fatores domésticos, seja por articulações internacionais.
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