Política

‘Burocrático, chato e enfadonho’: Enquanto direita avança, juventude francesa reduz participação nas eleições

Percepção de que ‘nada muda’ afasta nova geração das urnas em eleição marcada por avanço conservador

‘Burocrático, chato e enfadonho’: Enquanto direita avança, juventude francesa reduz participação nas eleições
‘Burocrático, chato e enfadonho’: Enquanto direita avança, juventude francesa reduz participação nas eleições
O desinteresse dos jovens nas eleições também se justifica pela mudança no sistema eleitoral. Foto: Danilo Queiroz/ CartaCapital
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LYON | No último domingo 22, a estudante do último ano de Psicologia, Evi, acordou cedo após um jantar em família no qual os votos para o segundo turno das eleições municipais francesas já estavam decididos. Depois de ler com os pais os programas de governo, foram juntos até o local de votação.

A cena, para ela, carrega um sentido que vai além do hábito familiar. Após um intercâmbio de seis meses na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encerrado em dezembro do ano passado, Evi se surpreendeu com o contraste entre os dois países: no Brasil, o voto é obrigatório e o ambiente universitário pulsa politicamente; na França, a participação é facultativa — e cada vez mais rara entre os jovens.

“Sou uma jovem mulher negra que, por incentivo dos meus pais, voto desde os 18 anos. Essa é a primeira vez que participo das eleições municipais da minha cidade e me assusta o crescimento do conservadorismo entre estudantes da mesma idade”, afirma. “Tenho mais amigos que preferiram não votar”.

Participação em queda e avanço conservador

O contraste aparece também nos números gerais. A participação foi estimada em torno de 57%, segundo institutos de pesquisa. Apesar de o país ainda não ter divulgado dados oficiais, o índice coloca a abstenção, desde 1958, como a segunda mais alta da história recente, atrás apenas das eleições de 2020, realizadas em plena pandemia.

Cidades como Lyon, Paris e Marselha — as três maiores da França— elegeram prefeitos de esquerda por margens apertadas, antecipando um ambiente político tenso para as eleições presidenciais de 2027.

Na capital, o socialista Emmanuel Grégoire sucederá a aliada Anne Hidalgo. “É a vitória de uma certa visão de Paris: uma Paris vibrante, uma Paris progressista, o coração da resistência”, afirmou nas redes sociais.

Já em Lyon, o prefeito ecologista Grégory Doucet garantiu a reeleição com apoio de uma coalizão de partidos de esquerda — diferentemente da recusa do parisiense —, em uma disputa decidida por cerca de 1.500 votos. Seu principal adversário, Jean-Michel Aulas, defendia, entre outras medidas, o endurecimento das políticas migratórias em uma cidade marcada pela presença de estrangeiros, de intercambistas a imigrantes.

Em paralelo, a direita avança em nível nacional. Em Toulouse, quarta maior cidade francesa, o candidato Jean-Luc Moudenc venceu com 53,87% dos votos, que superou os votos de François Piquemal e François Briançon, as chapas à esquerda. A direita também conquistou outros 93 municípios franceses — um movimento que rompe, em parte, com o histórico político do país.

Por que os jovens não votam

Diferentemente do sistema brasileiro, na França, as eleições municipais têm impacto indireto na política nacional. São os representantes eleitos nos territórios — prefeitos e conselheiros — que compõem parte do colégio eleitoral responsável por influenciar a formação do Senado francês, o que amplia o peso dessas votações para além das cidades.

Neste ano, o processo eleitoral municipal também estreou um novo formato, aprovado pela Assembleia Nacional em agosto do ano passado. A mudança ainda gera dúvidas entre parte do eleitorado. Nas três maiores cidades do país, o sistema passou a adotar uma lista tripla: o eleitor escolhe representantes locais por arrondissement ou agrupamento de bairros, o prefeito da cidade e o prefeito da metrópole — responsável por coordenar diversas comunas vizinhas. Na prática, numa comparação com São Paulo, é como se o eleitor fosse escolher um representante em Itaquera, na cidade, e por fim, que administre além da capital paulista, cidades limítrofes como Guaianases, Osasco e São Bernardo do Campo.

Apesar da proposta buscar ampliar a representação, eleitores comentam que o processo adiciona camadas de complexidade a um sistema que já enfrenta dificuldades de mobilização.

No caso dos mais jovens, o distanciamento em relação às urnas passa menos por desinformação isolada e mais por uma combinação de fatores: descrença, falta de identificação e dificuldade de compreensão do próprio sistema.

Tim, 20 anos, que se mudou para Lyon há seis meses para estudar design gráfico, resume esse sentimento: “Eu sei que essa poderia ser minha primeira eleição municipal, já que na última, realizada na pandemia, eu tinha 14 anos. Mas não é algo que me interessa. É difícil de entender e acho que as coisas não vão mudar. Sinto que é uma coisa chata, burocrática, e os projetos dos candidatos não me contemplam.”

Embora a abstenção seja generalizada e pouco monitorada pelo país, adultos e idosos são mais participativos nas eleições. Foto: Danilo Queiroz/ CartaCapital

Apesar da atualização na legislação eleitoral, que prevê igualdade de gênero nas candidaturas, mulheres pouco se elegem. Foto: Danilo Queiroz/ CartaCapital

Essa percepção se repete entre os colegas de sua idade. Elena, estudante de Psicologia de 22 anos, diz: “Eu admito que nem sei como funciona, quais são os candidatos ou o que fazem. Acredito que, votando ou não, as coisas vão permanecer as mesmas. Prefiro confiar em quem é mais engajado do que eu. Não sinto que perco algo deixando de votar.”

Já Oceane, 20, estudante de Direito, também compartilha do distanciamento, embora tenha recebido convite do centro acadêmico para participar de um debate entre candidatos. “Não acho que seja uma escolha aleatória, precisa ser feita com seriedade. Qual o sentido de votar em alguém que eu nem conheço e nem me representa, mesmo que eu esteja em idade para isso? Muitos da nossa geração são acusados de desinteresse por política, mas é algo complicado e que leva tempo para entender, e é justamente por isso que prefiro me abster, acho mais justo.”

A sensação de distância em relação à política institucional contrasta com a presença ativa dessa mesma geração em debates nas redes sociais. Ainda que opinem, comentem e se mobilizem em ambientes digitais, muitos não convertem esse engajamento em participação eleitoral.

Alternativas e engajamento

Enquanto alguns jovens se afastam das urnas, outros encontram formas alternativas de exercer o direito de voto. Foi graças às redes sociais que a violinista da orquestra municipal de Lyon, Fiona, 30, decidiu participar. À CartaCapital, ela conta que viu nos stories de um amigo um registro no local de votação e resolveu então seguir o mesmo e exercer seu direito.

Apesar de não se tratar exatamente de uma campanha, ela comenta que essa foi uma estratégia adotada por alguns músicos da cidade, após um retrocesso nos direitos culturais do país com a chegada em 2024 da Ministra da Cultura francesa Rachida Dati, membra do Partido Conservador, que deixou o cargo às vésperas das eleições para disputar mais uma vez a prefeitura parisiense. A imprensa local apelidou sua chegada de espetáculo e terremoto político (spetacle et séisme politiquei).

Orquestra municipal de Lyon realiza apresentação nos dois turnos das eleições, com ingressos esgotados. Foto: Danilo Queiroz/ CartaCapital

“Eu não vi personalidades públicas incentivando a população, mas acho que isso é muito um comportamento francês — os cidadãos são mais reservados e levam a sério a confidencialidade do voto. Acho que os jovens em Lyon até falam bastante de política entre pessoas próximas, mas não acredito que isso se traduza em mobilização mais direta. Entre meus amigos, poucos votaram porque os dois turnos das eleições ocorreram em dias de apresentação da orquestra, o que dificultou a participação”, explica a professora de música de origem suíça-brasileira, que defende a obrigatoriedade do voto como forma de reduzir a abstenção.

Benji, 27, mestrando em relações internacionais, segue essa linha de raciocínio: “Eu penso que exercer o voto é um direito e não um dever, é uma forma de se posicionar frente às demandas sociais. Logo, a abstenção nas eleições só revela que temos uma democracia adoecida, sem expectativa, que nos gera apenas decepção e insatisfação sobre as possibilidades de intervir na realidade.”

Morador do arrondissement de Vénissieux, comuna vizinha a cerca de 15 minutos de transporte público do centro de Lyon, ele comenta o jogo de forças políticas desequilibrado: vitória da esquerda no conjunto de bairros e na cidade-centro, mas avanço da direita na escala metropolitana, com a eleição de Véronique Sarselli para a gestão dos 58 arrondissements e 14 distritos.

“É uma situação complicada. A esquerda se dividiu e a direita avançou. Esse é um movimento que se repete até no movimento estudantil da minha instituição, o que me traz um sentimento de regressão, pois um candidato acaba incidindo sobre o poder do outro. Assim, a cidade e seu entorno apelam mais para uma discussão do que para um exercício concreto da política. Eu mesmo votei a favor das propostas do conselheiro municipal de Vénissieux, que defende a construção de habitação social e a expansão do alojamento estudantil. No entanto, o projeto de Sarselli é exatamente o oposto disso.”

Apesar das frustrações com o resultado, agora definido após a contagem total das cédulas, Benji afirma que se sente realizado por ter exercido esse direito. “Uma amiga minha adoraria ter votado, mas não conseguiu e transferiu à família o direito de realizar sua cidadania. Nesse caso, me sinto feliz por ter ido às urnas e eu mesmo ter escolhido quem desejo que me represente, mesmo com as complexidades de como isso se dará nos próximos anos.”

Na França, desde 1975, é possível transferir o direito de voto a um familiar ou pessoa de confiança por meio de procuração. À época, apenas pessoas que trabalhavam longe do local de votação podiam recorrer ao procedimento — férias, por exemplo, não eram justificativa. Em 1993, a exigência de comprovação profissional deixou de ser obrigatória.

CartaCapital contatou por telefone as prefeituras dos arrondissements citados na reportagem para obter dados sobre abstenção e número de procurações, mas não conseguiu acesso às informações, mesmo após solicitação presencial. Segundo a secretaria da prefeitura do terceiro arrondissement Place Guichard de Lyon, os dados são reservados ao governo local.

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