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Megaeventos, uma oportunidade para o Brasil

Na lógica da economia da experiência, cada show de grande porte vira um gatilho de consumo que ultrapassa o portão do estádio

Megaeventos, uma oportunidade para o Brasil
Megaeventos, uma oportunidade para o Brasil
O festival Lollapalooza, em São Paulo, em 30 de março de 2025. Foto: Pablo Porciuncula/AFP
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O Brasil levou décadas para entrar de vez no mapa dos megaeventos musicais, mas hoje vive um auge que o coloca entre os principais destinos de turnês globais, gerando impacto direto na economia, no turismo e no comportamento das marcas. O processo começou de forma espaçada nos anos 1970, com algumas turnês internacionais pioneiras. Alice Cooper e Rick Wakeman deram a partida para um movimento que ganhou corpo com o Rock in Rio nos anos 1980 e 1990 e se consolidou definitivamente a partir dos anos 2000. O crescimento dos grandes shows gerou a profissionalização da cadeia de eventos, que colheu os frutos da expansão da classe média e o crescimento do consumo cultural. Os três fatores contribuíram para a consolidação do setor.

De lá para cá, o Brasil saiu da periferia da rota de shows para se transformar em parada quase obrigatória na agenda de artistas pop, rock, urbanos e latinos, apoiado por um público numeroso, altamente engajado nas redes sociais e disposto a pagar caro por experiências ao vivo.

Um estudo da consultoria PWC e dados de entidades do setor apontam o País como o segundo maior mercado de shows ao vivo do mundo em número de ingressos vendidos, atrás apenas dos Estados Unidos. Estimativas de associações como a Associação Brasileira de Empresas de Eventos, Associação Brasileira dos Promotores de Eventos e Sebrae indicam que a cadeia de eventos, incluindo os megashows musicais, movimenta mais de 300 bilhões de reais ao ano e responde por algo em torno de 4% a 4,5% do PIB brasileiro.

Esse ecossistema envolve produtoras, casas de espetáculo, empresas de som, luz e palco, segurança, limpeza, alimentação, transporte, plataformas de venda de ingressos, criadores de conteúdo e uma longa lista de prestadores de serviço que encontram nos grandes festivais e turnês uma fonte constante de demanda. Entre 2019 e 2026, o hub ligado a eventos e recreação deve saltar de cerca de 3,45 milhões para mais de 4,2 milhões de empregos, impulsionado por esse boom do entretenimento ao vivo.

Se do lado da oferta o Brasil se estruturou, do lado da demanda houve uma transformação cultural. A popularização do streaming ajudou a difundir novos artistas e criar bases de fãs espalhadas pelo País, que passam a pressionar por datas nacionais em cada turnê global. Para gravadoras e escritórios, o Brasil se tornou uma espécie de prova de fogo: se a carreira “acontece” aqui, repercute para toda a América Latina. Além disso, a disposição de pagar por ingressos com valores muitas vezes superiores aos praticados em mercados desenvolvidos, apesar da renda média menor, tornou o País um caso peculiar para a economia da experiência, um lugar onde o show ao vivo funciona como bem aspiracional central para a juventude urbana.

A temporada de 2025 cristalizou esse novo patamar. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre receberam uma sequência de turnês internacionais de estádio, com datas de nomes como Dua Lipa, Linkin Park, Imagine Dragons, Avenged Sevenfold e outros artistas pop e rock que lotaram arenas como MorumBIS, Allianz Parque, Nilton Santos e Mané Garrincha. Em paralelo, festivais como o Lollapalooza Brasil e eventos recentes como The Town consolidaram um modelo de megaevento que distribui dezenas de atrações internacionais em três ou quatro dias, atraindo público de todo o País e até da América do Sul. Em muitas datas, a ocupação hoteleira nas cidades-sede se aproximou de 100%, e companhias aéreas e rodoviárias registraram picos de demanda no entorno das apresentações, em um fenômeno que o Ministério do Turismo e a Embratur passaram a chamar de “turismo musical”.

Em 2026, a tendência se aprofunda. No último fim de semana houve o Lollapalooza. O C6 Fest acontecerá em maio, em São Paulo. O Rock in Rio 2026 ocorrerá entre 4 e 13 de setembro, no Rio de Janeiro. Milhões de pessoas serão impactadas direta e indiretamente. Para a economia, isso significa dinheiro circulando direto em hotelaria, bares e restaurantes, transporte urbano, comércio de rua e serviços variados, em linha com o que já se observa em outros grandes marcos do calendário, como o Carnaval.

Esse avanço não passou despercebido pelas marcas. Se nos anos 1990 e 2000 o patrocínio de shows se concentrava em poucos segmentos – principalmente cervejarias e telecom –, hoje bancos digitais, grandes varejistas, empresas de tecnologia, plataformas de delivery, meios de pagamento e até construtoras disputam cotas em festivais e turnês. Ao mesmo tempo, governos e entidades de turismo passaram a tratar grandes shows quase como política de desenvolvimento. O raciocínio é simples: um fim de semana de festival lota hotéis, bares e restaurantes, aumenta a arrecadação de ISS, ICMS e tributos federais e ainda projeta a imagem da cidade para o mundo por meio da cobertura da imprensa e do conteúdo gerado espontaneamente por fãs. Na lógica da economia da experiência, cada show de grande porte vira um gatilho de consumo que ultrapassa o portão do estádio.

Assim, o Brasil que um dia esperava esporadicamente pela passagem de uma grande estrela internacional se converteu em polo estável da indústria global de shows, com efeitos que vão muito além do entretenimento. Ao articular público apaixonado, estrutura profissional, tratamento dos megaeventos como ativo econômico e um mercado publicitário sedento por experiências, o País redesenha sua posição no mapa mundial da música ao vivo. Shows são fundamentais para artistas em um mundo em que a tecnologia e a inteligência artificial atuam como mediadores do relacionamento. Sem eventos o vínculo será reduzido a grandes projetos de marketing. E o Brasil, com uma população que gosta de comemorações, é o cenário ideal para entrar na América do Sul e viabilizar grandes turnês. Uma certeza você pode ter: vem muito mais por aí.

Corrigindo: em coluna publicada anteriormente, citei o crescimento do mercado publicitário no País em 9,07% em 2025 sobre 2024. O crescimento foi de 10%, de acordo com dados do Painel CENP-Meios.Coluna

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