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Entre a floresta e a academia, o mundo visionário da ayahuasca

Antropólogo colombiano Luis Eduardo Luna fala sobre mergulho na Amazônia xamânica a partir dos anos 1970, muito antes do hype global dos psicodélicos

Entre a floresta e a academia, o mundo visionário da ayahuasca
Entre a floresta e a academia, o mundo visionário da ayahuasca
O antropólogo Luis Eduardo Luna. Foto: Acervo Pessoal
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Quando voltou à Amazônia colombiana depois de anos na Europa, o antropólogo Luis Eduardo Luna ainda não sabia que sua trajetória mudaria num pequeno bar em Florencia, onde, logo nos primeiros dias, encontrou Terence McKenna. O escritor e etnobotânico norte-americano, com quem passaria cerca de dois meses e meio em intensas conversas, se tornaria uma das figuras mais influentes da cultura psicodélica contemporânea. Até então, ele desconhecia esse universo. “Não sabia absolutamente nada sobre essas coisas.”

O encontro com McKenna (1946–2000), na década de 1970, marcou o início de um deslocamento que levaria o antropólogo a se tornar uma das principais referências no estudo do vegetalismo, conjunto de práticas tradicionais de algumas regiões da Amazônia voltadas à cura e ao aprendizado. Esse sistema de conhecimento, baseado no uso ritual de plantas consideradas “professoras”, tem como eixo central a ayahuasca, bebida psicodélica feita da combinação de um cipó e folhas de um arbusto.

Nascido em Florencia, na Colômbia, Luna disse, em entrevista à Psicodelicamente, que transitou entre a formação acadêmica europeia e o aprendizado com curandeiros da floresta. Pioneiro, cravou o conceito de “plantas mestras” e ajudou a documentar práticas que, décadas depois, ganhariam projeção global no recente hype em torno da ayahuasca e dos psicodélicos.

Ao longo de suas pesquisas, Luna se dedicou a compreender o que os próprios praticantes chamam de vegetalismo, um sistema de conhecimento e cura baseado na relação com plantas consideradas dotadas de espírito e conhecimento. “Eles se definiam como vegetalistas. Não diziam ‘xamã’ nem ‘pajé’. Diziam vegetalistas”, afirma.

O vegetalismo é um caminho de conhecimento, explica Luna. Segundo ele, os curandeiros vegetalistas são especialistas em certas plantas, consideradas “professoras” por diferentes razões: porque produzem estados modificados de consciência, possuem um espírito capaz de ensinar ou curar ou por serem árvores imensas, antigas, dotadas de grande poder.

Esse universo, como ele observou ao longo de anos de trabalho de campo no Peru e na Colômbia, é profundamente híbrido. Resulta do encontro entre tradições indígenas e contextos regionais, especialmente em áreas marcadas por intensa circulação de pessoas e saberes.

Em diferentes regiões, o mesmo princípio aparece sob outras formulações. No Vale de Sibundoy, no sul da Colômbia, por exemplo, Luna encontrou uma noção semelhante, mas com outro nome: “jardim da ciência”. Por lá, a expressão designa o conjunto de plantas mestras com as quais se aprende. “É basicamente a mesma noção: as plantas são professoras, e pode-se aprender com elas.”

A primeira experiência de Luna com o yagé (nome dado na Colômbia à ayahuasca) veio no período de retorno à Amazônia colombiana. Apesar da curiosidade inicial, ele ainda passaria por uma longa preparação até iniciar suas pesquisas. “Era a época de Carlos Castaneda, LSD, cogumelos, María Sabina. Havia muito entusiasmo, mas também muita confusão”, relembra o antropólogo.

No meio do caos, veio um conselho de Gerardo Reichel-Dolmatoff, antropólogo austro-colombiano (1912–1994), um dos mais importantes nomes da antropologia na Colômbia. “Ele me disse: ‘Cuidado para não se perder. Estude ciências.’”

Luna seguiu a orientação. Estudou química, astronomia e outras disciplinas antes de se dedicar à antropologia. “Isso me deu uma disciplina de pensamento”, diz. A combinação entre formação científica e experiência direta com a ayahuasca se tornaria uma das marcas de seu trabalho.

O momento decisivo ocorreu em 1979, durante uma longa viagem pela América do Sul. Ele estava na Finlândia, trabalhando como professor no departamento de línguas de uma escola superior de economia de língua sueca. “Pela primeira vez na vida, quando chegou o verão europeu, eu tinha salário e algum tempo livre.”

“Sou latino-americano e não conheço o meu próprio continente”, pensou Luna. Então fez uma longa viagem, seguindo a rota de Che Guevara, da Argentina ao Chile, Bolívia, Peru e depois de volta à Colômbia. “Viajava de ônibus, trem, do jeito mais barato possível.”

Amazônia peruana, em 1980. Foto: Acervo Pessoal

De volta à Amazônia, ele reencontrou Apolinar, um curandeiro que havia conhecido anos antes. Ao dizer que queria aprender sobre o yagé, ouviu uma resposta que só compreenderia plenamente mais tarde: “Se você quer aprender essas coisas, tem que ficar comigo 40 dias e tomar yagé 40 noites. Aí o yagé aparece.”

Intrigado, perguntou o que significava aquilo. “É um homenzinho pequeno, simpático”, respondeu o curandeiro. “Na época eu não entendi”, diz Luna. “Mas ali estava uma outra forma de conhecimento.” A experiência, que revelava uma tradição baseada em outras maneiras de se relacionar com o mundo, o levou a questionar os limites de sua formação intelectual e o distanciamento histórico em relação aos saberes indígenas. “Percebi o enorme erro da nossa educação latino-americana: estamos no continente americano e viramos completamente as costas à sabedoria ameríndia.”

O que as plantas ensinam

As descobertas de Luna se traduziriam, em sua obra, na tentativa de descrever uma epistemologia que não se baseia na separação entre sujeito e objeto. “No pensamento ocidental, há um observador e um objeto observado. No ameríndio, o conhecimento vem da identificação, da transformação, da relação.” Nesse universo, para conhecer o animal, o homem se transforma nele, ou o animal se manifesta de forma antropomórfica. “Isso está em toda a iconografia ameríndia, cheia de seres híbridos”, prossegue Luna.

O conceito que consolidaria essa perspectiva surgiu no Peru, no encontro com o curandeiro vegetalista Emilio Andrade Gómez, conhecido como Dom Emilio. “Foi ele quem me deu a ideia de ‘plantas mestras’”, afirma. “Até então, a literatura antropológica enfatizava a relação entre xamanismo e animais, mas entre xamanismo e plantas ainda não estava claramente formulada.”

O trabalho de campo com Dom Emilio também definiria seu método. Com recursos limitados (uma câmera Bolex de 16 mm e um gravador), Luna desenvolveu um processo minucioso, inspirado no documentarista argentino Jorge Prelorán, um dos principais nomes do cinema etnográfico latino-americano. “Gravava à noite e passava o dia transcrevendo. Cada segundo de película custava dinheiro, então era preciso buscar o essencial.”

Esse material, com centenas de páginas de transcrição, formaria a base de sua tese de doutorado, “Vegetalismo: Shamanism Among the Mestizo Population of the Peruvian Amazon” (1986), obra que ajudou a estruturar o estudo do vegetalismo amazônico. As gravações também deram origem ao documentário “Don Emilio y sus doctorcitos” (1980), registro raro do universo dos curandeiros da Amazônia peruana, disponível no YouTube.

Entre 1980 e 1985, ele retornou todos os anos à Amazônia peruana, ampliando sua pesquisa para outros curandeiros vegetalistas e contextos. O que encontrou foi um sistema de conhecimento profundamente híbrido. “O pensamento vegetalista provém de muitas fontes: tradições indígenas, missionários, esoterismo, circulação de pessoas e ideias.”

A Amazônia nunca foi esse lugar isolado que muitos imaginam, observa o antropólogo. “Na época da borracha, era mais fácil ir de Iquitos a Nova York ou Londres, via Manaus e Belém, do que de Iquitos à capital peruana, Lima, por causa da cordilheira e da falta de estradas.”

Esse caráter mestiço, ele reconhece, também o define. “Sou um mestiço educado no Ocidente. Participo de dois mundos.” Essa posição intermediária, afirma, facilitou a tradução entre o universo amazônico e o acadêmico.

Da Amazônia para o mundo

Ao longo dos anos 1980, Luna ajudou a estruturar o campo de estudos sobre a ayahuasca. Em 1985, organizou em Bogotá um simpósio internacional e interdisciplinar sobre o que chamou de “complexo Banisteriopsis caapi”, reunindo indígenas, botânicos, antropólogos e pesquisadores de diferentes áreas. Pouco depois, a publicação de “Ayahuasca Visions”, em parceria com o artista peruano Pablo Amaringo, ampliaria o alcance desse universo. “Esse livro teve um impacto enorme.”

Décadas depois, ele observa com ambivalência a expansão global da ayahuasca, caminho que reconhece ter ajudado a abrir e que trouxe efeitos nem sempre positivos, inclusive para os povos indígenas. “Naquela época, me parecia um conhecimento em extinção”, afirma. Hoje, o cenário é outro. O interesse internacional cresceu, assim como a circulação de práticas e saberes antes restritos à floresta.

Hoje, Luna vive no Brasil e se dedica a organizar um vasto acervo acumulado ao longo de décadas: entrevistas, filmes, fotografias e gravações. “Tenho milhares de slides, centenas de horas de áudio.” O material, guardado por anos na Finlândia para preservação, começa agora a ser digitalizado por aqui.

A partir dele, planeja novos projetos. “Isso pode dar origem a livros, documentários, talvez uma série.” Mais do que um arquivo pessoal, trata-se de um registro de um período de transição, do vegetalismo amazônico à expansão global. “É um material que ajuda a contar essa história.”

Leia a entrevista completa no site da Psicodelicamente.

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