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E se Trump ficar calado durante as eleições?

Nos bastidores, cresce a avaliação de que a neutralidade do americano pode ser mais decisiva que seu apoio

E se Trump ficar calado durante as eleições?
E se Trump ficar calado durante as eleições?
O presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Jim Watson/AFP
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Eleições 2026

O presidente Lula tinha a expectativa de ir a Washington encontrar Donald Trump na primeira quinzena de março. A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã ainda não permitiu à Casa Branca propor uma data. Melhor para Flávio Bolsonaro. Um estrategista da pré-campanha presidencial dele acredita que a neutralidade de Trump na eleição brasileira seria fatal para o senador.

Essa avaliação circulou nos bastidores do Congresso nos últimos dias. Em entrevista recente ao UOL, Valdemar Costa Neto, o chefe do PL, o partido bolsonarista, falou abertamente do desejo de apoio de Trump, embora não tenha dito que sem isso o senador perderá. “Acredito que ele [Trump] vai ajudar o Flávio, não tenho dúvida disso. Ele quer um governo de direita aqui”, disse.

Uma visita de Lula a Trump facilitaria a neutralidade do americano. Ficaria implícita uma espécie de “acordo de cavalheiros” entre eles, segundo um colaborador do petista. Um colaborador que considera que Lula pode tirar proveito eleitoral, caso Trump torça e aja publicamente por Flavio. O ‘tarifaço’ do americano nas exportações brasileiras colaborou para melhorar o ibope presidencial em 2025.

Uma pesquisa da consultoria e instituto de pesquisa Quaest divulgada há alguns dá razão à análise. O apoio de Trump a Flavio aumentaria a chance de 32% dos entrevistados de votar em Lula e de 28%, em Flavio.

Na época do “tarifaço” e da aplicação americana da Lei Magnitsky contra o juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, Lula estava convencido de que Trump tentaria interferir na eleição daqui. Objetivo da intervenção: afastar o Brasil da China e dos Brics e jogar o País no colo do Tio Sam, como ocorreu no governo Bolsonaro.

A reviravolta na atitude de Trump a partir da alegada “química” dele com Lula na Assembleia Geral da ONU em setembro, nos EUA, reduziu um pouco as desconfianças, embora não as tenha feito sumir de vez. Reviravolta, aliás, ainda não compreendida totalmente no governo. Para a consultoria global Eurasia, Trump recuou justamente por perceber que havia ajudado a popularidade de Lula. 

Ir aos EUA reunir-se com Trump interessa a Lula por razões que têm implicações eleitorais mas vão além da eventual neutralidade do americano. Em um telefonema no fim de 2025, o presidente propôs a Trump uma parceria dos dois países no combate ao crime organizado. Se a ideia vingar, Lula ganha um argumento para usar no debate da “segurança pública”, tema que é uma das apostas do bolsonarismo.

Uma foto de Lula ao lado de Trump na Casa Branca teria condições também de mexer com o imaginário de parte da elite brasileira, tradicionalmente subserviente a Washington. 

Tudo isso não significa que setores do governo ou do establishment americano deixariam de agir contra Lula. A eleição brasileira, comenta um lulista, será uma espécie de “batalha de Stalingrado” para a extrema-direita global, cujo centro são os EUA. Essa batalha marcou a virada nos rumos da Segunda Guerra Mundial. Após a vitória dos soviéticos, a derrota final do nazismo era questão de tempo.

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