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A joia da Coroa
Para os EUA, sem o Brasil o controle do “quintal” não estará completo
Dias depois do golpe de 31 de março de 1964 no Brasil, o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, viajou a Washington para informar a Casa Branca sobre os desdobramentos da ruptura democrática abaixo da linha do Equador. Naquela viagem, reuniu-se com Bobby Kennedy, que confessou estar aliviado com os acontecimentos no país sul-americano. Um relato do encontro indica que Kennedy teria lamentado o fato de o presidente João Goulart, um estancieiro visto como subversivo pelo governo dos Estados Unidos, não ter dado ouvidos às demandas apresentadas nos meses que anteciparam a sua queda. “Goulart teve o que merecia. Uma pena que ele não tenha seguido o conselho que lhe demos quando eu estava lá.”
O envolvimento dos EUA no golpe de 64 não era um consenso na Casa Branca. Diferentes alas do poder disputavam o melhor plano para exercer controle sobre a maior nação da América Latina. O destino do Brasil estava na agenda do Salão Oval ao menos desde 1962. De acordo com uma pesquisa realizada pelo acadêmico Anthony Pereira, em julho daquele ano, o presidente John F. Kennedy conversou com assessores e considerou as opções militares. Seis meses depois, o democrata enviou para um encontro com Goulart seu irmão Bobby, que tentou persuadir o mandatário brasileiro a mudar a composição e a direção de seu governo. A expectativa da Casa Branca era de que o País poderia ser convencido a ceder em pontos estratégicos para os interesses norte-americanos.
No Palácio da Alvorada, em 18 de dezembro daquele ano, Bobby e Goulart se reuniram três vezes. Do lado do irmão do presidente dos EUA, as queixas eram direcionadas à presença de “comunistas” no governo e personagens com posições claramente antinorte-americanas. A lista de queixas incluía ainda a falta de apoio do Brasil a projetos da Casa Branca para o hemisfério. Segundo Pereira, a resposta de Goulart foi “longa e detalhada, enfatizando a delicada posição política dele e do País”. Em um trecho da resposta do brasileiro, Bobby Kennedy, em um bilhete enviado ao embaixador Gordon, observou: “Parece que não estamos chegando a lugar nenhum”. A incapacidade de dobrar o Brasil levou Washington a rever os planos. No fim de 1963, a possibilidade de um golpe ganhou força entre as opções consideradas pela Casa Branca.
Em fevereiro, a ala mais radical do trumpismo voltou a pressionar por uma interferência direta
Mais de 60 anos depois, uma nova ingerência norte-americana nos rumos da política brasileira começa a ser desenhada pelas alas mais radicais do governo de Donald Trump. Ouvem-se os ecos de 1964. O objetivo é claro: garantir, nas eleições de outubro, a vitória de um candidato alinhado aos interesses nacionais… dos Estados Unidos. Desde o retorno ao poder em janeiro de 2025, o republicano colocou a retomada da influência na América Latina, o “quintal”, como uma das prioridades do mandato. Em documentos oficiais, Washington fala abertamente, sem a mínima preocupação com a discrição característica dos serviços de espionagem, sobre o uso da CIA para identificar locais na região abundantes em recursos naturais estratégicos, a oferta de benefícios econômicos a quem cooperar e a mobilização de militares para quem resistir.
Em pouco mais de um ano, a campanha de chantagem e pressão tem dado frutos. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi sequestrado, o Panamá, sob ameaça, limitou a presença de empresas chinesas no canal que liga o Atlântico ao Pacífico, a Argentina aceitou tornar-se um protetorado econômico, o Paraguai acaba de assinar um tratado no qual se exime de qualquer poder soberano sobre atividades de cidadãos, civis e militares, dos EUA em território, o Equador abriga operações conjuntas em seu pedaço da Floresta Amazônica, Cuba está submetida à asfixia, El Salvador transformou-se numa prisão para deportados dos EUA, o Chile caminha para interromper projetos de telecomunicações com a China e uma dezena de países centro-americanos e caribenhos passaram a aceitar as exigências do republicano em temas estratégicos.
Entre diplomatas norte-americanos, ninguém esconde, no entanto, que a estratégia de Trump jamais estará completa enquanto o Brasil mantiver uma mínima autonomia. Recuperar uma aliança automática, para não dizer controle, com Brasília é considerado uma etapa fundamental da reconstrução da hegemonia de Washington no Hemisfério Ocidental, inclusive como forma de frear o avanço de Pequim. Antes mesmo das eleições vencidas por Trump, em 2024, uma delegação do Itamaraty ouviu dos republicanos que, se vencessem, não iriam tolerar a presença chinesa em obras de infraestrutura estratégicas na região. O alerta estava dado.
O “Escudo das Américas”, com logotipo aparentemente inspirado nos filmes da Marvel, é um acordo de submissão. O rápido sequestro de Maduro mostrou o quão fácil pode ser uma ação na região – Imagem: Anadolu/AFP e Presidência de El Salvador
Assim como no início dos anos 60 do século passado, não existe na administração dos EUA um consenso sobre a maneira certa de agir e uma disputa intensa entre uma ala mais ideológica e outra mais pragmática ainda domina o debate em Washington. Os aliados mais radicais do trumpismo, próximos do deputado “autoexilado” Eduardo Bolsonaro, apostaram na pressão total para desestabilizar o governo Lula. A ofensiva foi tratada no Palácio do Planalto como um “ataque à soberania” brasileira e um episódio de assédio inédito. A imposição de sanções, tarifas e ameaça gerou, porém, um efeito inverso. O presidente Lula ganhou popularidade e, ao não ceder, estabeleceu um novo padrão para lidar com Trump, um exemplo aos países que baixaram a cabeça no primeiro berro do republicano. Após um intenso processo de mediação e da interferência nos bastidores de empresários e diplomatas para mostrar que o Brasil poderia ser um parceiro interessante, o ocupante da Casa Branca colocou um freio na pressão. A ala ligada a Marco Rubio, secretário de Estado e descendente de imigrantes cubanos famoso por sua fúria anticastrista, havia sido abafada e, com ela, os interlocutores bolsonaristas.
Outro argumento pesou para o recuo naquele momento. Os EUA precisavam neutralizar o Brasil para agir na Venezuela. Nos últimos meses de 2025, enquanto soldados norte-americanos ensaiavam o que seria o sequestro de Maduro, fez-se o movimento de distensão com o Itamaraty e o Palácio do Planalto, cujo ápice foi a declaração, na esteira de um rápido encontro nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU, de Trump a respeito da tal “química” com Lula. Na sequência, uma reunião na Malásia entre os dois mandatários abriu as portas à negociação. Aos poucos, as tarifas contra produtos brasileiros foram, em parte, retiradas e as sanções impostas a autoridades nacionais, entre elas Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, suspensas.
Do lado brasileiro, a percepção era de que a crise mais aguda de ingerência em temas domésticos havia sido superada. As exigências de uma eventual libertação de Jair Bolsonaro saíram da mesa e os países passaram a focar em uma agenda de trabalho para retomar uma relação positiva.
Classificar o PCC e o CV de organizações terroristas abre brechas à ação militar dos EUA
Na administração norte-americana, a ala mais radical jamais desistiu, no entanto, dos objetivos de colocar, em Brasília, um governo aliado e, segundo diplomatas, submisso. A oportunidade para voltar à carga apareceu em fevereiro. A Venezuela estava numa situação de estabilidade surpreendente e, pela primeira vez, as pesquisas de opinião mostravam que a ala bolsonarista tinha chances reais de desafiar Lula numa eleição, desta vez com o senador Flávio Bolsonaro. A conta era de que uma vitória nas urnas ainda liberava os EUA de terem de desgastar a diplomacia e os serviços secretos em operações de desestabilização de maior envergadura. Era hora de retomar uma ofensiva. Mas, desta vez, sem dar palanque para Lula, como havia ocorrido em 2025. Segundo fontes em Brasília, a operação parece usar táticas menos estridentes, ainda que não menos preocupantes, principalmente para examinar a reação do governo brasileiro. Um teste foi feito recentemente. Em 6 de março, o enviado dos EUA para o Brasil, Darren Beatti, pediu visto ao consulado do Brasil em Washington e, numa nota oficial do Departamento de Estado, alegou que faria a viagem para ter reuniões oficiais com o governo Lula e para participar de um evento sobre minerais raros. O escritório consular concedeu o visto, sem questionamento. No dia seguinte, Beatti anunciou, porém, a solicitação a Moraes para visitar Jair Bolsonaro na Papuda. O funcionário trumpista mantém boas relações com o clã Bolsonaro e é useiro e vezeiro, nas redes sociais, de espalhar fake news sobre o País. Uma delas: em 2022, Beatti colocou em dúvida a lisura das eleições presidenciais.
Para o governo brasileiro, ficou evidente uma manobra na solicitação de vistos e que nenhuma reunião com as autoridades nacionais estava no radar de Beatti. A avaliação de Brasília era de que o assessor pediu o visto com base em uma informação falsa e que, portanto, o documento deveria ser cancelado. A revogação acabou anunciada uma semana depois, em 13 de março.
O governo Lula insiste que visitar a oposição não é proibido. Mas o gesto de negar informação na concessão do visto foi recebido como uma provocação por parte da ala mais radical do trumpismo. A revogação é, portanto, uma forma de colocar um limite às interferências do Departamento de Estado. Para a ala bolsonarista, a esperança é de que o novo atrito seja, desta vez, usado pelos EUA para interromper a aproximação entre Lula e Trump. Uma viagem do brasileiro à Casa Branca está em negociação e poderia ocorrer em março, a depender dos desdobramentos dos ataques norte-americanos e israelenses ao Irã.
Gordon era o embaixador quando os EUA decidiram apoiar o golpe de 1964 – Imagem: Acervo Arquivo Nacional
Outro elemento passou ainda a desestabilizar o processo de diálogo diplomático entre os dois países. No início do mês, consolidou-se no Departamento de Estado norte-americano a ideia de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas. Uma decisão dessa natureza ameaça descarrilar o trabalho de aproximação e, entre diplomatas, o tema é visto como outro instrumento político de pressão. Alinhados à agenda de Washington, os bolsonaristas tentaram emplacar a tese no PL Antifacção relatado pelo deputado Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança do governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo. A proposta acabou derrubada pelo Senado, mas a extrema-direita a empunha como bandeira de campanha. Não se trata de um fenômeno brasileiro, diga-se. Na segunda-feira 16, à saída de um encontro com Lula, o presidente direitista da Bolívia, Rodrigo Paz, relacionou as facções ao terrorismo e afirmou que o País “exporta violência”.
Por causa dessa visão de mundo e na esteira dos bombardeios a supostas embarcações de traficantes no Caribe às vésperas do sequestro de Maduro, Flávio Bolsonaro sugeriu um ataque norte-americano a navios no litoral do Rio de Janeiro que seriam usados pelo crime organizado. O governador fluminense, Cláudio Castro, bolsonarista, enviou à Casa Branca informações sobre o Comando Vermelho, material certamente usado pelo Departamento do Estado. Em Brasília, paira ainda a suspeita de que informações possam ter sido repassadas pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência Alexandre Ramagem, hoje foragido em Miami.
A direção da Polícia Federal confirma que nem sequer aceitou receber uma delegação do Departamento de Estado norte-americano, em 2025, cuja missão era convencer o Brasil a aceitar a classificação. Os representantes norte-americanos estiveram com Flávio Bolsonaro. A delegação acabou recebida por integrantes do Ministério da Justiça e do Itamaraty e, nos dois encontros, ouviu que o País não seguiria na mesma linha.
Em 2025, um informe do Departamento de Estado dos EUA obtido pela reportagem indicou que “a organização criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital (PCC) e cartéis do México e da Colômbia intensificaram suas atividades na Bolívia”. O documento prossegue: “Esses atores representam novos e significativos desafios para o controle do narcotráfico na Bolívia”. Em outro trecho, o texto afirma: “As organizações transnacionais de narcotráfico, especialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC), representam a principal ameaça à segurança nacional do Brasil (…) Segundo a Polícia Federal (PF), o PCC opera em 22 dos 27 estados brasileiros e atua em ao menos 16 países ao redor do mundo, incluindo os Estados Unidos”.
A diplomacia brasileira não sabe se há uma mudança da administração Trump ou só uma nova ofensiva da ala comandada por Marco Rubio
Um dos temores das autoridades brasileiras é de que, com a designação, as operações do PCC e do CV se transformem em alvos legítimos de ataques militares dos Estados Unidos. Precedentes existem. Semanas depois de designar grupos colombianos como terroristas, o governo Trump intensificou os ataques a barcos na costa do país sul-americano. Nas últimas semanas, lançou ofensivas contra o narcotráfico no México e no Equador. Na linguagem de Washington, fala-se em operações conjuntas. Entre latino-americanos, a “cooperação” é apenas uma forma de os governos locais justificarem a subserviência para a população.
No começo do mês, Trump ainda demonstrou interesse em transformar o tema do narcotráfico num instrumento de controle da região. Ao lado de uma dezena de mandatários latino-americanos, o republicano anunciou a criação de uma “aliança” militar contra os grupos criminosos, chamada apoteoticamente de “Escudo das Américas”. O discurso foi revelador. Num certo momento, o presidente dos EUA explicou que fará com o narcotráfico o mesmo que foi feito com o Estado Islâmico. Ou seja, bombardear território estrangeiro. Em um tom de brincadeira, ainda avisou aos demais presidentes da região: “Vocês querem mísseis? Posso também bombardear. Esses mísseis são precisos”.
Entre diplomatas brasileiros, os movimentos recentes da Casa Branca permitem duas análises: a “química” não é uma garantia de uma relação soberana com Trump e a ingerência nas eleições é uma ameaça não superada. O que não se sabe no Palácio do Planalto é se os últimos lances refletem uma posição consolidada da administração Trump ou apenas uma tentativa de Rubio de retomar o controle das ações após ser escanteado no ano passado.
Seja qual for o resultado do embate político interno em Washington, o governo Lula admite que outros caminhos para desestabilizar a eleição são possíveis. Um deles envolve uma aliança entre as empresas de big tech e os movimentos de extrema-direita dos EUA, profundamente organizados e com uma rede de contatos no Brasil. Mais uma vez, exemplos de eleições em países vizinhos servem de alerta. Na Bolívia, grupos progressistas denunciaram a atuação de um movimento civil conhecido como Cuidemos el Voto, criado para monitorar eventuais fraudes na eleição de 2025 em La Paz. A acusação por parte da entidade Revuelta Malcriada foi de que o grupo era, de fato, apoiado por agências do governo norte-americano.
Flávio Bolsonaro, títere de Washington, defende classificar facções de terroristas. E o Chile levou ao poder Kast, um pinochetista da velha cepa – Imagem: Ton Molina/AFP, Javier Torres/AFP e Andressa Anholete/AFP
Entre os integrantes do Cuidemos el Voto estão organizações religiosas, a exemplo da Asociación Cristiana Evangélica e Católicos en Política. Dias antes das eleições, Rubio publicou um informe no qual acusava os governos bolivianos de esquerda de violações aos direitos humanos, incluindo “relatos de tortura ou tratamento ou punição cruel, desumana ou degradante, prisão ou detenção arbitrária”. O texto também menciona “sérias restrições à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa, incluindo violência ou ameaças de violência contra jornalistas”. Para observadores, teria sido uma maneira de influenciar o voto no país que, por 20 anos, havia sido governado pelo Movimiento al Socialismo.
Oficialmente, o governo Trump não se envolveu na campanha eleitoral de José Antonio Kast no Chile. Mas, quando o candidato da extrema-direita saiu como vencedor, o republicano apressou-se a anunciar que Kast havia recebido o seu apoio e que isso teria sido fundamental para a vitória.
Agora, o Brasil é a prioridade para os movimentos de extrema-direita dos EUA, dentro e fora do governo Trump. “A joia da coroa”, como é comentado nos círculos mais fechados dos grupos ultraconservadores em Washington.
Sob a gestão de Jair Bolsonaro, em 2022, Brasília recebeu visitas de representantes de alto escalão da CIA, de militares e da diplomacia do governo do então presidente Joe Biden. Todos levaram ao Palácio do Planalto o mesmo alerta: a Casa Branca não daria qualquer respaldo a uma aventura golpista. Para muitos observadores, essa postura foi determinante para enfraquecer a mobilização em torno do golpe de Estado.
Hoje, em certos setores da Casa Branca, os ventos sopram em outra direção. •
Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A joia da Coroa’
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