Mundo
Chávez em retrospecto
Nos 13 anos da morte, um balanço da trajetória do líder bolivariano
No início deste mês, 5 de março, o governo venezuelano celebrou, como faz todos os anos, o aniversário da “semeadura” do presidente Hugo Chávez, falecido em 2013, de câncer, aos 58 anos. A palavra é usada por setores da esquerda latino-americana para se referir à morte de militantes que se notabilizaram pela bravura e dedicação às causas do povo, aqueles que, na partida, deixam o exemplo de suas vidas como semente de novos lutadores.
Houve marchas, salvas de tiros de canhão e juras solenes de que aRevolução Bolivariana “está mais viva do que nunca”. Este é, porém, um aniversário diferente dos anteriores. Em 3 de janeiro, quando o presidente Nicolás Maduro, o sucessor indicado por Chávez, foi sequestrado em uma sangrenta operação militar dos Estados Unidos e levado para ser julgado em um tribunal de Nova York por uma descabelada acusação de narcotráfico, o país e o próprio Maduro se tornaram reféns do presidente estadunidense, Donald Trump.
Desde então, a presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, a vice de Maduro, mantém uma estranha relação com Trump. De um lado, não perde ocasião para denunciar a ingerência do imperialismo nos assuntos do país. De outro, se esforça por atender às ordens procedentes de Washington, que materializam essa mesma ingerência, como a anistia aos opositores presos.
É inegável que um período se fechou na história recente venezuelana. A Revolução Bolivariana, se não se encerrou definitivamente, está congelada numa espécie de freezer, à mercê da estratégia do gigante do Norte ou dos caprichos de seu mandatário, ao qual caberá decidir, entre outras coisas, quando e como terminará o mandato de Rodríguez. O futuro da Venezuela é tão incerto quanto o de Maduro.
A ação truculenta de Trump contra a Venezuela merece o nosso repúdio. Trata-se da manifestação imperialista mais ostensiva dos Estados Unidos contra Caracas, demonstrando o objetivo de transformar todos os países da América Latina em protetorados ou (neo)colônias.
Mas será que tudo se esgota aí? Estou convencido que não. Este momento de impasse também pode inspirar, entre outras coisas, uma – necessária – avaliação racional da Revolução Bolivariana e de seu inesquecível timoneiro.
Chávez foi de fato um grande líder, um revolucionário no pleno sentido da palavra. Enfrentou a elite endinheirada venezuelana ao direcionar pela primeira vez na história a renda petroleira para atender às necessidades básicas da maioria desprivilegiada. Com isso, promoveu uma melhora significativa das condições de vida do seu povo. Os primeiros dez anos do chavismo foram um tempo de realizações impressionantes em áreas como saúde, educação, moradia e alimentação (conquistas que, em grande parte, se perderam na crise devastadora que coincide com os mandatos de Maduro).
Foi um homem de grande coragem, carisma, criatividade, e uma incrível capacidade de entender os sentimentos do povo e de se comunicar com as massas. Um político de uma honestidade absoluta, que acreditava nos ideais proclamados. Mas cometeu erros monumentais, a maioria derivada de sua vaidade, do sonho de se tornar o grande caudilho da América Latina, o novo Simón Bolívar. Pouco entendia de petróleo, o que o levou a superestimar a influência global que a Venezuela supostamente poderia alcançar apenas por ter grandes reservas desse combustível em seu território. Comprou a teoria do “pico do petróleo”, segundo a qual o óleo existente no mundo estaria perto do fim, o que levaria às alturas os preços da oferta remanescente. Assim a Venezuela, uma potência petroleira, teria a chance de emergir como uma liderança de dimensões planetárias.
Tudo não passou de um sonho, estimulado por ciência ruim, mas foi o suficiente para Chávez e os bolivarianos esquecerem o ensinamento de pensadores desenvolvimentistas como Celso Furtado, que num ensaio de 1957 já havia alertado os venezuelanos para a necessidade de diversificar sua economia, rompendo com a dependência da renda petroleira.
Corajoso, mas personalista, não entendia de petróleo e negligenciou a corrupção
A sensação de onipotência derivada do auge petroleiro da década de 2000 levou Chávez a uma retórica provocativa em relação aos EUA, com atitudes nada diplomáticas que só atiçaram a fúria do imperialismo, quando, mais tarde, na virada dos preços da energia, que despencaram em 2014, a Revolução Bolivariana mostrou fraqueza e esgotamento. Faltou bom senso e prudência. Como seria possível a Venezuela promover pelo mundo afora o “socialismo do século XXI” enquanto sobrevivia basicamente dos dólares da venda de petróleo aos Estados Unidos? No momento em que esses dólares foram cortados, por conta das sanções que a partir de 2019 incluíram a interrupção total das importações do óleo venezuelano, o país foi à bancarrota.
Chávez tampouco entendia de economia, entregando o assunto a uma sucessão de ministros incompetentes, que subestimavam o problema da hiperinflação. Foi negligente perante a verdadeira orgia de corrupção que manchou seu governo. No comando da PDVSA colocou um amigo, Rafael Ramírez, um antigo guerrilheiro hoje foragido, refugiado na Itália. Ramírez é acusado pelo atual governo de ter desviado 4,85 bilhões de dólares da estatal petroleira nos dez anos, de 2004 a 2014, em que esteve à frente da empresa e do Ministério do Petróleo.
Nunca foi um ditador. Venceu todas as eleições em que se candidatou, jamais recorreu à censura. Mas sua postura personalista, voltada para a máxima concentração do poder, transformou as instituições da democracia em organismos de fachada, puramente formais.
O principal instrumento foi a “lei habilitante”, pela qual a Assembleia Nacional concede ao presidente a permissão para governar por decreto. Esse poder especial foi renovado quatro vezes, entre 1999 e 2010, e depois mantido no período de Maduro. Assim a Venezuela viu-se privada de um Legislativo no qual os conflitos pudessem ser resolvidos democraticamente, enquanto o Judiciário se limitava a ratificar tudo o que era do interesse do Executivo. Sob Chávez e Maduro, a Venezuela foi um país sem política, sem diálogo e sem negociação, governado pelo diktat de um presidente cercado de bajuladores.
Chávez continuará a ser idolatrado por seus seguidores na Venezuela e admirado por gente de esquerda no mundo inteiro. O legado de seus pontos positivos, entre eles a bravura e a dedicação ao povo, é fundamental neste duro período de resistência ao poderio imperial de Washington. Mas é melhor que a adoração cega seja substituída pela avaliação crítica da trajetória desse grande homem. •
*Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC.
Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Chávez em retrospecto’
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