Economia
O PIB vai bem, mas e o povo?
O governo enfrenta desafios para colher louros da melhora dos índices
A cada nova pesquisa eleitoral, repete-se o descompasso entre os benefícios econômicos à população, entre eles o aumento do emprego e da renda e o controle da inflação, e a avaliação negativa da política econômica do governo. Na edição mais recente da Ipsos-Ipec, a parcela do eleitorado que identifica uma piora da situação aumentou de 38% para 42%. No levantamento do Datafolha, o porcentual de quem considera que a economia do País piorou nos últimos meses subiu de 41% para 46%. Segundo a
Genial/Quaest, 68% consideram o quadro econômico pior do que 12 meses atrás. Em dezembro, o porcentual era 58%. Ainda mais preocupante, 66% afirmaram não ver benefício no projeto de isenção do IR para quem ganha até 5 mil reais mensais, mesmo com dois salários já pagos.
O tempo do “voto econômico”, quando melhoras econômicas se desdobravam em aprovação política do governo, parece ter ficado para trás, ou não funciona mais como antes. O período da colheita dos expressivos resultados econômicos do governo Lula III não chega, enquanto as eleições se aproximam e a oposição aumenta o volume do discurso. Várias causas explicam esse descasamento, apontam economistas, que sugerem um certo esgotamento do atual modelo de política econômica nas condições atuais, mais adversas em relação àquelas dos mandatos anteriores do PT. O problema, cabe ressaltar, não é uma exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos e em alguns países europeus, governos enfrentam dificuldades de reeleição mesmo quando os dados econômicos não são ruins.
“Há dois elementos principais. O primeiro é econômico, ligado a expectativas políticas superestimadas. Nos anos 1990 e 2000, o voto econômico era decisivo, a melhora da economia gerava automaticamente popularidade. Hoje, com redes sociais e disputa constante de visões de mundo, essa relação só ocorre em situações extremas”, aponta Daniel Ferrer, economista do Dieese e doutor em Direito do Trabalho pela USP. O Brasil atual tem indicadores positivos – queda da extrema pobreza, mais emprego, renda maior e inflação controlada –, mas é um crescimento “lateral”. Melhora a vida sem transformar padrões de consumo ou mobilidade social, o que limita o impacto político, acrescenta.
O segundo elemento, prossegue Ferrer, é a centralidade das redes sociais. A percepção política tornou-se fragmentada, marcada por disputas simbólicas e emoções como medo e ressentimento. Assim, o voto ideológico, entendido como expressão dessa subjetividade influenciada pelas redes, tende a se sobrepor ao voto econômico.
Para o economista Marcelo Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da mesma universidade, três fatores explicam por que a melhora no emprego não reflete na aprovação: os juros altos, que elevam o endividamento familiar, a baixa mobilidade social, com vagas de má remuneração e sem carreira, e a estrutura ocupacional precária e degradada. Soma-se a isso o papel da mídia tradicional em enfatizar supostas crises fiscais, gerando um “mal-estar” contínuo.
A conversão direta entre desempenho econômico e popularidade política tende a ocorrer apenas em situações extremas, quando há uma crise econômica muito aguda ou quando a melhora é extraordinariamente forte, destaca Ferrer. O Brasil atual não vive nenhum desses cenários.
Além disso, a economia opera atualmente com uma meta de inflação muito restritiva, herdada do governo anterior. Na prática, isso faz com que uma variação anual próxima de 5% seja alardeada pela mídia como descumprimento da meta, o que acaba servindo de justificativa para manter juros elevados por mais tempo. O problema é que o governo não apenas evita enfrentar a discussão como nem sequer a coloca na agenda, porque a própria equipe econômica considera esse arranjo adequado. Trata-se de uma visão claramente fiscalista, que dá funcionalidade a um modelo macroeconômico liberal que antes não conseguia operar plenamente. “O resultado é uma situação curiosa, quando a inflação está controlada, como ocorre agora, isso não se converte em louros de vitória para o governo na imprensa, mas o aperto monetário necessário para manter esse controle acaba implicando crescimento mais baixo, o que também não é percebido pela população como algo positivo. Ou seja, perde-se nos dois lados do debate”, sublinha Ferrer, que acrescenta o fato de o Bolsa Família não ter reajuste desde 2023.
“Do ponto de vista estrutural, o que pesa mais é que, desde os anos 90, a mobilidade social vai se mostrando cada vez mais travada, mais impossível”, dispara Manzano. O Brasil é um país estagnado, prossegue, os cidadãos não têm como melhorar de renda. Isso causa desânimo. Por mais que o governo faça, os brasileiros não veem possibilidade de melhorar a vida dos seus filhos. Isso complica a apreciação a respeito do governo, frisa o diretor do Cesit.
As ocupações que prevalecem no Brasil, afirma o economista, são cada vez mais precárias, degradadas, de baixa remuneração. Viceja um certo mal-estar, um sentimento de que não se vai para lugar nenhum. Mesmo que ocorra alguma melhora, é na margem, insuficiente para animar e entusiasmar o eleitorado. Além disso, a taxa de juros alta, totalmente fora do lugar, complica a vida das famílias, elas não conseguem cumprir com suas obrigações, não obtêm socorro financeiro no banco.
Acrescente-se o mau humor em relação ao governo por parte dos trabalhadores por conta própria, categoria crescente, em grande medida precarizada, que precisa de uma política pública ampla e consistente de apoio que não se restrinja a medidas na área de crédito e renegociação de dívidas, ressalta Manzano. Este é um segmento da população no qual o governo costuma ser mal avaliado. “É preciso desburocratizar a vida, talvez com uma espécie de quarentena para os trabalhadores autônomos, até a regularização. Um período de pré-empresa, para eles se estabelecerem e se formalizarem”, acrescenta o professor. •
Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O PIB vai bem, mas e o povo?’
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