Elnara Negri

Livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP e pneumologista do Núcleo Avançado de Tórax do Hospital Sírio-Libanês

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Humanidade biônica

Dos óculos conectados à internet aos exoesqueletos capazes de melhorar as habilidades e a força humana, a medicina avança na fusão homem-máquina

Humanidade biônica
Humanidade biônica
Há aproximadamente 40 anos, o cientista brasileiro Miguel Nicolelis estuda a interface cérebro-computador e chegou a desenvolver um exoesqueleto comandado pelo cérebro de um paciente paraplégico, dando o primeiro chute na Copa de 2014, aqui no Brasil.
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Os Estados Unidos gastaram perto de 11,3 bilhões de dólares apenas na primeira semana da guerra contra o Irã. O valor foi divulgado pelo jornal The New York Times com base em relatos de parlamentares norte-americanos.

Estudos da Organização das Nações Unidos (ONU) calculam que para erradicar a fome no mundo até 2030 seria necessário investir, aproximadamente, 45 bilhões de dólares por ano, com foco principalmente na agricultura e na proteção social. O valor gasto em quatro semanas de guerra, por ano, erradicaria a fome no mundo.

A gente enlouquece só de pensar nisso. E também de pensar na morte de inocentes, crianças, na poluição e na destruição dos oceanos e da atmosfera que cada explosão ocasiona num planeta já agonizante pelas mudanças climáticas.

Além de usar armamento pesado, a indústria da guerra investe em aparelhos para aumentar a força e a velocidade dos soldados. São os chamados exoesqueletos. Felizmente, a humanidade não se resume a ditadores gananciosos e negacionistas inescrupulosos.

A medicina tem se apropriado dessas tecnologias e desenvolvido exoesqueletos que ajudam pessoas com paralisia a andar novamente. Não é ainda possível ao paciente com paralisia pilotar sozinho o exoesqueleto, mas a autonomia esta cada vez mais próxima.

Hoje, estudando para escrever esta coluna, me lembrei de uma antiga série de tevê, O Homem de 6 Milhões de Dólares. Quando criança, eu não perdia um episódio.

A trama girava em torno de um astronauta que, após sofrer um acidente grave, foi reconstruído com peças robóticas. Ele recebeu duas pernas, um olho e um braço mecânicos que lhe conferiam a velocidade de um carro de corrida e uma força descomunal. Com esses novos talentos, ele cumpria missões militares.

Alguns anos depois, surgiu a mulher biônica. Ela, além das pernas velozes, recebeu um braço e um ouvido biônicos e seguia desvendando mistérios e combatendo os malfeitores. Era a arte imitando a vida e antevendo a interface cibernética da humanidade.

Dos óculos conectados à internet aos exoesqueletos que melhoram as habilidades e a força humana, passando pela realidade virtual, vemos, a cada dia, surgirem novos equipamentos de fusão homem-máquina. A medicina tem avançado no estudo e desenvolvimento desses equipamentos, devolvendo esperança às vítimas de lesões graves.

Há aproximadamente 40 anos, o cientista brasileiro Miguel Nicolelis estuda a interface cérebro-computador e chegou a desenvolver um exoesqueleto comandado pelo cérebro de um paciente paraplégico, dando o primeiro chute na Copa de 2014, aqui no Brasil. Atualmente, pesquisadores no mundo todo vêm se dedicando a desvendar esse mecanismo. Nos EUA, a Neuralink, de Elon Musk, desenvolve chips de implantação cerebral para esse fim, mas sofre críticas por utilizar técnicas invasivas, que implicam riscos.

Recentemente, a China aprovou um implante cerebral para ajudar a restaurar os movimentos das mãos. A interface cérebro-computador (BCI) é a primeira no mundo a estar disponível para uso fora dos ensaios clínicos. O dispositivo, chamado NEO, foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Fudan, em Xangai, em colaboração com a Universidade de Hong Kong. Em breve, estará disponível para o tratamento de pessoas com paralisias diversas.

Uma vantagem do NEO é sua característica minimamente invasiva. Ele é instalado numa pequena abertura no crânio e seus eletrodos repousam sobre a face externa da meninge, sem necessidade de tocar ou ser inserido no tecido cerebral. Tem o tamanho de uma moeda e pode ser implantado próximo ao local de comando neural da área afetada.

O dispositivo tem o poder de registrar a atividade elétrica cerebral quando a pessoa imagina mover o membro paralisado. Esses sinais elétricos captados são enviados para um computador para ser decodificados e depois usados para controlar uma luva, um colete ou um suporte articulado, permitindo o movimento.

A China está investindo intensamente nesse tipo de tecnologia e os cientistas preveem que em, aproximadamente, três anos, outros dispositivos e eletrodos mais aprimorados possam surgir, incorporando IA e aumentando habilidades neurológicas diversas, mesmo em pessoas sem deficiência.

Estaria a humanidade a caminho do super-homem? Quem dera fosse o super-homem de Nietzche, “que une a racionalidade e o caos em um equilíbrio criativo” e para quem a guerra, definitivamente, não é o caminho. •

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Humanidade biônica’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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