Política
Aracaju aposta em projeto no Congresso para ganhar disputa por território com cidade vizinha
Após revés na Justiça, prefeitura mira em ofensiva para acelerar proposta que condiciona desmembramento de cidades a plebiscito popular e estudo de viabilidade
A prefeitura de Aracaju aposta no avanço de um projeto de lei complementar no Congresso para resolver o impasse territorial com São Cristóvão, município vizinho de quase 96 mil habitantes na região metropolitana.
O conflito envolve uma área de cerca de 20 quilômetros quadrados — equivalente a 11% do território da capital — que concentra escolas, unidades de saúde e duas praias de destaque no circuito turístico local.
O texto, aprovado nesta terça-feira 18 pela Câmara com apenas um voto contrário, estabelece que qualquer desmembramento de município para incorporação em outro dependerá de estudo de viabilidade e de plebiscito popular envolvendo as duas cidades – a regra não se aplica a disputas interestaduais. Além disso, proíbe a criação de novos municípios. Agora, a proposta vai à análise do Senado.
CartaCapital apurou que os parlamentares da bancada de Sergipe no Congresso têm atuado para acelerar a tramitação na Casa Alta, com o objetivo de realizar uma consulta popular sobre o tema em outubro, paralelamente às eleições. Mesmo que seja aprovado pelos senadores, o projeto ainda precisará da sanção do presidente Lula (PT) para entrar em vigor.
Depois disso, a proposta de plebiscito também dependerá do aval dos deputados estaduais na Assembleia Legislativa.
Por se tratar de ano eleitoral, existe o receio de que o tema não avance caso a discussão se estenda para o segundo semestre, quando as Casas legislativas costumam operar com menor intensidade. Eis, portanto, o motivo da ofensiva.
A votação na Câmara ocorreu uma semana após a Justiça Federal negar o último recurso da gestão Emília Corrêa (Republicanos) contra decisão que mandou o município devolver a área à cidade vizinha. O conflito judicial se estende desde 2012 e foi parar no Supremo Tribunal Federal, que decidiu em favor de São Cristóvão ao invalidar a delimitação territorial feita em 1989 era inválida.
Em cumprimento à determinação do STF, o governo de Sergipe trabalha para concluir até o mês que vem um estudo que definirá os marcos que definem os limites territoriais entre as duas cidades. Depois disso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística corrigirá os mapas territoriais e os dados estatísticos, com o remanejamento da população da área em disputa.
Após o revés no TRF-5, a prefeitura de Aracaju informou que avaliará a possibilidade de um novo recurso após ser notificada oficialmente. De acordo com a gestão, a ação judicial buscava assegurar o reconhecimento da área como parte do território da capital, destacando que mantém, há décadas, serviços públicos na região, como escolas, unidades de saúde, limpeza urbana, fiscalização ambiental e projetos de infraestrutura. A prefeitura de São Cristóvão não comentou.
Caso a nova configuração seja mantida (pela Justiça ou em eventual plebiscito), parte dos bairros da zona de expansão de Aracaju, como o Santa Maria, Mosqueiro, Robalo, Areia Branca e Matapuã passariam a integrar a cidade vizinha. O Mosqueiro é um dos principais pontos turísticos da capital, com praias de águas quentes e condomínios de luxo.
Neste cenário, a população de São Cristõvão vai chegar a 125 mil. Já Aracaju cairia de 603 mil para 573 mil moradores.
A transferência envolve 6,7 mil imóveis, 14 escolas com mais de 6 mil alunos, três postos de saúde e 31 quilômetros de ruas pavimentadas, além de redes de água e energia, praças e áreas verdes. Somente nesta região, a arrecadação anual do IPTU, o Imposto Predial e Territorial Urbano, é estimada em 5,2 milhões de reais, e também seria transferida.
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