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Você foi entrevistado sem saber sobre votar em Lula ou Flávio Bolsonaro. Quer saber como?
Esqueça a imagem clássica da pesquisa eleitoral feita por pessoalmente, por telefone, com perguntas objetivas e respostas medidas em gráficos. Esse modelo é o que todos conhecemos, acompanhamos com atenção, é registrado nos órgãos oficiais para que sejam divulgados. Mas há uma pesquisa sendo realizada […]
Esqueça a imagem clássica da pesquisa eleitoral feita por pessoalmente, por telefone, com perguntas objetivas e respostas medidas em gráficos. Esse modelo é o que todos conhecemos, acompanhamos com atenção, é registrado nos órgãos oficiais para que sejam divulgados. Mas há uma pesquisa sendo realizada agora, onde suas respostas estão aparecendo e sendo analisadas. Querem saber se votaremos em Lula, Flávio Bolsonaro ou outro candidato. Querem saber nossa preferência para o cargo de governador e senador. A nova forma de investigar o eleitorado é muito mais silenciosa, invasiva e constante. Nela, ninguém precisa ligar, abordar você na rua ou perguntar em quem você vota batendo a nossa porta. Porque, na prática, já respondemos. E talvez há muito tempo.
A diferença no novo processo de pesquisas eleitorais é que agora a entrevista não acontece diante de um pesquisador apenas, mas diante de uma tela, todos os dias e a todo momento. Enquanto você lê a esse texto, milhões de pessoas despejam nas redes sociais aquilo que pensam sobre comida, lazer, fé, consumo, comportamento, moral, economia, costumes e política. Fazemos isso espontaneamente, com a sensação de que estamos apenas conversando, opinando ou desabafando. Mas estamos produzindo dados. E dados, hoje, valem tanto quanto as respostas formais a um questionário. Tudo está sendo acompanhado pelos entrevistadores algorítmicos.
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E como esses dados são analisados?
É desse material abundante que nasce uma nova inteligência sobre o eleitor. O gosto cultural, a indignação seletiva, a defesa insistente de certos valores, o incômodo com determinados temas, a forma de reagir a notícias, o modo de falar sobre religião, segurança ou corrupção: tudo isso compõe um perfil. Não é mais preciso perguntar diretamente em quem alguém vota para intuir de que lado essa pessoa está. Em sociedades polarizadas, como a nossa, o caminho entre comportamento digital e identidade política ficou mais curto.
O fator da Inteligência Artificial na leitura dos nossos comportamentos
É justamente aí que entram os agentes automatizados de inteligência artificial. Eles varrem as redes sociais. Esses robôs são capazes de ler todas as postagens, likes. compartilhamentos e comentários. Capturam todas as reações e desvendam conexões e redes de afinidade. As ideias e palavras repetidas podem indicar posições consolidadas. Em seguida, encaixam esse material em categorias interpretativas, como se cada fragmento publicado fosse uma resposta embutida em um enorme questionário invisível. Você não recebeu a pergunta, mas o sistema presume a resposta. E, em muitos casos, com um grau de acerto perturbador.
O mais inquietante é que isso não serve apenas para medir o clima das redes. Serve para identificar correntes de opinião, perceber deslocamentos de humor, mapear medos coletivos, detectar desejos de consumo político e antecipar reações de grupos específicos. Se na face presente divulgada pelos portais de notícias o que aparece é o mapeamento da intenção de voto, nesse formato a intenção de voto surge recheada de motivos que as pesquisas eleitorais de intenção de voto não identificam. Em outras palavras: não se trata apenas de observar o eleitorado, mas de entender como influenciá-lo.
A pesquisa como instrumento analítico e passa a funcionar também como ferramenta de intervenção sobre ela. O que era feito com pesquisas em profundidade agora é feito com elementos com milhões de dados disponíveis e interpretados pela Inteligência Artificial.
O smartphone é a nova boca de urna
A página aberta no celular virou território de sondagem política. Cada clique ou comentário deixado por nós funcionam como sinais para sistemas que tentam descobrir não apenas o que pensamos agora, mas o que provavelmente faremos adiante. O objetivo já não é somente fotografar tendências de voto. É também modelar cenários de consolidação eleitoral, prever migrações e calibrar mensagens capazes de empurrar indecisos para um lado ou reforçar convicções já existentes até o momento final das campanhas eleitorais.
Nós, eleitores, acreditamos que estamos apenas vivendo nossa rotina digital. Mas, ao mesmo tempo, alimentamos engrenagens que transformam comportamento em inferência política. Acreditamos que nossa manifestação nas redes é livre (e pode até ser), mas essa expressão também está sendo convertido em insumo estratégico. O usuário é transformado em entrevistado sem saber, em fonte sem consentimento e em peça estatística de um jogo que se sofisticou muito além dos institutos tradicionais.
As pesquisas eleitorais do futuro — e, em boa medida, do presente — talvez não dependam mais da pergunta clássica: “Em quem você pretende votar?”. A pergunta real é outra: “O que nossas pegadas digitais já disseram sobre nós?”. A resposta, gostemos ou não, está sendo dada o tempo todo. E o mais desconfortável é perceber que, nesse novo ambiente, podemos nunca ter sido abordados por um pesquisador. Mas já estamos sendo ouvidos em silêncio, centenas de vezes.
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