Nos últimos anos, um novo tipo de veículo começou a chamar atenção nas ruas de grandes cidades. À primeira vista, parecem pequenas motos vintage. Mas, olhando de perto, revelam outra identidade: são bicicletas elétricas com pneus largos, quadros robustos e posição de pilotagem inspirada no universo das motocicletas. Esses modelos ocupam um território curioso entre dois mundos. Não são exatamente bicicletas tradicionais, tampouco motos. Funcionam como uma espécie de zona intermediária, tanto no design quanto na proposta de mobilidade.
Esse fenômeno faz parte de uma transformação maior no transporte urbano. O avanço da micromobilidade elétrica, impulsionado por congestionamentos, custos de combustível e preocupações ambientais, abriu espaço para veículos leves que combinam tecnologia e praticidade. Nesse cenário, as e-bikes, bicicletas com motor elétrico e sistema de pedal assistido, se tornaram um dos pilares dessa mudança.
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Os números ajudam a dimensionar o movimento. Segundo o relatório “E-Bike Market Size 2026–2035”, da consultoria Precedence Research, o mercado global de bicicletas elétricas movimentou cerca de US$ 68,3 bilhões (R$ 359,3 bilhões) em 2025. A previsão é que alcance aproximadamente US$ 75,4 bilhões em 2026. A projeção aponta para um crescimento anual superior a 10% ao longo da próxima década.
Nem um, nem outro
Dentro desse mercado em expansão, algumas marcas começaram a experimentar novas leituras do que uma bicicleta elétrica pode ser. Em vez de seguir apenas a lógica esportiva ou urbana tradicional, passaram a explorar uma estética mais emocional e robusta, inspirada em motos clássicas, cultura custom e design retrô. O resultado são veículos que não se encaixam completamente em nenhuma categoria existente.
Embora mantenham o pedal assistido, essas e-bikes adotam características mais comuns no universo das motocicletas. Quadros reforçados, pneus largos e uma posição de pilotagem mais relaxada criam uma experiência visual e ergonômica diferente da bicicleta convencional. O resultado é uma proposta que mistura referências mecânicas e estéticas de dois universos distintos.
Na prática, trata-se de uma categoria híbrida dentro da chamada micromobilidade elétrica. O motor continua funcionando como assistência, não substitui o pedalar, mas oferece mais potência e autonomia do que nas bicicletas tradicionais. Isso permite deslocamentos urbanos mais rápidos sem entrar nas regulamentações mais rígidas aplicadas às motos.
Projetar esse tipo de veículo exige um equilíbrio delicado entre engenharia e design. “Um dos maiores desafios foi equilibrar estética, estrutura e dinâmica de pilotagem”, explica Luis Chiarotto, fundador da Benta Handmade e sócio da Blackout. Segundo ele, trazer referências do universo das motos para uma bicicleta elétrica exige cuidado para não comprometer peso, geometria e eficiência. “Grande parte do trabalho está justamente em fazer esse equilíbrio: criar algo visualmente forte, mas que continue sendo leve, funcional e seguro como uma bicicleta”, afirma.
A popularidade dessas soluções também reflete mudanças no comportamento urbano. Em muitas cidades, veículos compactos e elétricos passaram a ser vistos como alternativas reais ao carro para trajetos curtos. Segundo análise da consultoria Global Growth Insights, cerca de 38% dos deslocamentos urbanos curtos já consideram as e-bikes como opção de transporte. O dado reflete a busca por soluções mais rápidas e menos poluentes.

Créditos: Cabera Photography
Legenda: Luis Chiarotto, fundador da Benta Handmade e sócio da Blackout
Quando o retrô encontra baterias
Se a tecnologia elétrica é recente, o visual dessas bicicletas frequentemente olha para o passado. Tanques falsos, bancos alongados e linhas inspiradas em motos das décadas de 1970 e 1980 aparecem com frequência nesse segmento. O design, nesse caso, funciona quase como uma ponte entre nostalgia e inovação.
De acordo com Chiarotto, essa estética nasce diretamente da cultura de customização. “As inspirações vêm muito do universo das motos vintage, café racers, scramblers e da cultura custom em geral”, explica. A ideia é levar para o universo das bicicletas elétricas a mesma carga emocional que existe nas motos clássicas.
Essa linguagem aparece de forma mais evidente nos modelos desenvolvidos pela Blackout, marca criada posteriormente à Benta Handmade. A empresa nasceu justamente para explorar esse território intermediário entre bicicleta e moto. “Quando criamos a Blackout, a ideia foi explorar esse espaço entre os dois universos, trazendo uma estética mais robusta e emocional para as e-bikes”, afirma Chiarotto.
Segundo ele, a experiência da Benta com design autoral e customização influenciou diretamente essa abordagem. As primeiras experiências da empresa com bicicletas elétricas surgiram ainda em um momento inicial da mobilidade elétrica urbana. Por volta de 2018 e 2019, quando o setor ainda começava a ganhar força, a equipe percebeu que as e-bikes poderiam se tornar uma tendência importante.
Foi dessa leitura de mercado que nasceu a primeira bicicleta elétrica da marca, a Benta S1. “Queríamos provar que era possível desenvolver uma e-bike de alto nível totalmente no Brasil, com engenharia própria e identidade de design”, conta. O projeto marcou o início da entrada da empresa no universo da mobilidade elétrica.

Créditos: Cabera Photography
Legenda: Uma das bikes customizada pela Benta
A volta do feito à mão
Antes de explorar essa zona híbrida entre bicicleta e moto, a Benta Handmade construiu sua reputação como estúdio de criação e customização. Fundada há cerca de uma década, a empresa sempre funcionou mais como uma oficina criativa do que como uma fábrica tradicional. O foco estava no desenvolvimento autoral e em projetos personalizados. “Desde o início, a Benta funcionou muito mais como um estúdio de criação e customização”, explica Chiarotto. No caso das primeiras e-bikes, isso significou desenvolver praticamente todo o projeto internamente. O trabalho ia da engenharia estrutural ao processo final de montagem.
A Benta S1, por exemplo, foi concebida como uma bicicleta elétrica full suspension construída inteiramente em aço inoxidável, algo raro no mercado. Depois dela veio a C1, feita em aço carbono. “Todo o desenvolvimento estrutural, a geometria e o processo construtivo foram pensados e executados aqui no Brasil”, afirma o fundador.
Durante cerca de quatro anos, a empresa vendeu aproximadamente 100 unidades somando os dois modelos. O período incluiu inclusive os anos da pandemia. Naquele momento, a proposta ainda estava claramente dentro do universo das bicicletas, sem a estética inspirada em motos que surgiria depois.
Com o tempo, porém, o cenário mudou. Segundo Chiarotto, houve uma forte entrada de e-bikes importadas no Brasil. Muitas delas vinham da China e eram vendidas por marcas que apenas aplicavam sua identidade visual sobre produtos já prontos. “Muitos desses modelos tinham estética mais próxima de pequenas motos, com pneus largos e preços bem mais competitivos”, explica. Diante desse novo contexto, competir com um modelo de desenvolvimento totalmente próprio se tornou mais difícil. Foi então que surgiu uma nova estratégia: utilizar uma base importada e aplicar sobre ela o DNA de design e customização da marca.
Para viabilizar o projeto, Chiarotto se associou à empresa Ambtus, especializada em varejo e logística. Dessa parceria nasceu a Blackout, marca dedicada exclusivamente ao desenvolvimento e comercialização de e-bikes. “Hoje temos duas frentes bem definidas. A Benta Handmade continua como estúdio de criação e customização, enquanto a Blackout atua diretamente no mercado de bicicletas elétricas”, explica.
O futuro das duas rodas urbanas
Para Chiarotto, o crescimento das e-bikes não representa apenas uma tendência tecnológica, mas também cultural. “As e-bikes podem transformar os deslocamentos urbanos, reduzindo trânsito, custo e impacto ambiental”, afirma. O avanço desses veículos acompanha mudanças mais amplas no comportamento das cidades. Ao mesmo tempo, quando combinadas com design e identidade cultural, essas bicicletas deixam de ser apenas um meio de transporte. “Você passa a ter também objetos de desejo, novas formas de relação com a cidade”, diz. O produto passa a ocupar também um espaço simbólico.
Esse movimento dialoga com transformações mais amplas da mobilidade urbana. À medida que as cidades enfrentam congestionamentos, restrições ambientais e custos crescentes de deslocamento, veículos elétricos leves ganham espaço. Bicicletas e scooters aparecem cada vez mais como alternativas viáveis ao automóvel.
Nesse cenário, a categoria híbrida entre bicicleta e moto pode ser apenas o começo. Esses veículos são mais leves que motocicletas e mais potentes que bicicletas tradicionais. Também estão cada vez mais conectados ao design e à cultura urbana. O futuro da mobilidade pode ser menos sobre máquinas padronizadas e mais sobre novas formas de experimentar a cidade.
