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Dom Oscar Romero contra os impérios

À sombra da violência contemporânea, a mensagem do arcebispo salvadorenho assassinado segue lembrando que não há paz sem justiça

Dom Oscar Romero contra os impérios
Dom Oscar Romero contra os impérios
Um mural de Óscar Romero (1917-1980) em Panchimalco, a 20 km de San Salvador
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“Só a justiça pode ser a raiz da paz.”
Dom Oscar Romero

No dia 24 de março do corrente ano fará 26 anos do assassinato de Dom Oscar Romero, arcebispo de São Salvador, perpetrado pela extrema direita salvadorenha.

No comando da maior potência militar do mundo, a extrema direita voltou a derramar sangue inocente, não apenas no Oriente Médio, mas também na América Latina e no Caribe.

Como o Papa Francisco, monsenhor Romero foi um profeta.

Entre outras verdades, Pablo Richard, em A força espiritual da palavra de Dom Romero (Editora Paulinas), recordou aquilo que o mártir dissera em uma de suas homilias:

“Que lástima, tantos pensando e escrevendo mentiras, tantas línguas que, pelo rádio, se alimentam da calúnia, porque é isso que produz! A verdade, muitas vezes, não produz dinheiro, mas amargura. Mais vale, entretanto, ser livre na verdade do que ter muito dinheiro na mentira.”

A infiltração da extrema direita no Brasil não é menos impressionante. Em Porto Alegre, há uma rede de barbearias chamada “La Mafia”. Pois bem: o dono desse negócio — recorde-se que a máfia é uma organização criminosa altamente letal — teria sido nomeado, pelo prefeito que deixou Porto Alegre debaixo d’água, secretário de esportes da cidade. É possível imaginar que tipo de desporto irá promover…

Em sentido inverso, caberia às forças democráticas avaliarem a importância de resgatar o conceito de empreender como algo progressista.

De fato, todos precisamos sonhar, almejar um empreendimento — seja ele uma viagem, uma mudança ou uma criação artística.

Pode ser também uma expedição dentro de nós mesmos. Por exemplo: refazer conceitos.

Sempre tive dificuldade com a noção de “amor próprio”, como sendo algo egoísta, de reduzida humildade e, de certa forma, egocêntrico.

Mas, se pensarmos nele como o respeito pelo ser que somos, resultante de tantas ancestralidades, o respeito devido a ele me parece mais coerente e necessário.

Com efeito, vivemos a era do ego. Praticamente tudo trocamos — até a felicidade — para que ele não seja sequer arranhado.

Para isso, fazemos jogos de poder que vão da não declaração de amor até suportar relações tão falsas quanto o imaginário do nosso ego.

Dessa forma, perdemos a capacidade de escutar e, portanto, de interagir.

Nesse sentido, muito convém assistir a Hamnet.

O filme é uma biografia de William Shakespeare, retomando suas próprias palavras e falas das obras-primas. Roteiro, direção e atuações são extraordinários.

A obra chama atenção para a importância da escuta: de si, dos outros e até da natureza.

Como Fellini, Shakespeare era um bom escutador — a ponto de o filme poder ser reduzido à fala recorrente de seu cunhado Bartolomeu, que recorda à esposa do Bardo o que a mãe deles ensinara:

“Mantenham o coração aberto.”

Para isso, evidentemente, temos de manter também os olhos, os ouvidos e nosso ego receptivos ao novo, à alteridade e, em última instância, a toda forma de vida.

Talvez seja esse o sentido último da arte: abrir-nos, derrubar nossas cercas, nosso ego e nossos infernos quentinhos, mas nefastos.

“Em saída”, como o Papa Francisco exortava os católicos.

Somos seres contraditórios: queremos ganhar o mundo, mas sem nos livrarmos dos pesos dos nossos medos, egos e ambições de riqueza e poder — tudo o que impede qualquer pessoa de abrir-se ao diálogo, com a obra de arte e com nossos semelhantes.

Mais ainda: o outro é uma torrente. Pode nos afogar. Testa nossa capacidade de nadar, de ouvir, escutar, ver e enxergar.

Entretanto, se nos dispusermos a enfrentar o teste, grandes recompensas nos aguardam.

A principal: o coração aberto — para o outro, a natureza e toda a criação.

Então, a mentira virará pó, desmanchando-se por si mesma.

Nestes tempos de exércitos que não hesitam em bombardear alvos civis — como Israel fez em Gaza e faz no Líbano — e como os Estados Unidos da América fizeram recentemente contra uma escola de meninas no Irã, na qual mataram mais de 165 crianças, as palavras de São Oscar Romero soam mais proféticas e urgentes do que nunca, como na homilia que praticamente foi sua sentença de morte:

“Gostaria de fazer uma chamada, de maneira especial, aos homens do exército, concretamente às bases da guarda nacional, da polícia, dos quartéis. Vocês são irmãos, são de nosso próprio povo, matam a seus próprios irmãos camponeses.

Porém, diante de uma ordem de matar que um ser humano dê, deve prevalecer a lei de Deus, que diz: NÃO MATAR.
Nenhum soldado está obrigado a obedecer a uma ordem contra a lei de Deus. Uma lei imoral, ninguém tem de cumpri-la.

Já é tempo de recuperarem sua consciência e obedecerem antes à sua consciência do que à ordem do pecado.

A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da lei de Deus, da dignidade humana, não pode ficar calada diante de tanta abominação.

Queremos que o governo leve a sério que de nada servem as reformas se estão manchadas com tanto sangue.

Em nome de Deus, pois, e em nome deste povo sofrido, cujos lamentos sobem até o céu cada dia mais tumultuosos, suplico-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes: PAREM A REPRESSÃO!

Que a voz desse santo homem ainda possa ser ouvida pelos vassalos dos impérios — hoje, amanhã e sempre.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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