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Como um documentário da Brasil Paralelo se liga a uma rede de ódio contra Maria da Penha

Investigação do MP-CE descreve uma articulação que envolveu a produtora, redes sociais e documentos falsos para atacar a ativista e descredibilizar a lei que leva seu nome

Como um documentário da Brasil Paralelo se liga a uma rede de ódio contra Maria da Penha
Como um documentário da Brasil Paralelo se liga a uma rede de ódio contra Maria da Penha
Maria da Penha. Foto: Ribamar Neto/Divulgação/Universidade Federal do Ceará
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Há poucos dias, a Justiça do Ceará tornou réus o ex-marido da ativista Maria da Penha e mais três homens por suspeita de participação em uma campanha de ódio contra a farmacêutica, símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil.

O tribunal acatou denúncia apresentada pelo Ministério Público contra Marco Antônio Heredia Viveiros, ex-marido da ativista; Alexandre Gonçalves de Paiva, influenciador digital e diretor-presidente do Instituto de Defesa dos Direitos do Homem; Marcus Vinícius Mantovanelli, produtor do documentário A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha; e Henrique Barros Lesina Zingano, editor e apresentador do filme.

Os quatro são acusados de atuar de forma organizada para atacar a honra da ativista e descredibilizar a lei que leva seu nome, em vigor desde 2006.

Segundo o Ministério Público, embora Maria da Penha tenha sobrevivido à violência doméstica que sofreu, continuou sendo alvo de uma rede de ódio misógina que dissemina desinformação com o objetivo de desqualificar sua história e sua trajetória de ativismo.

A reportagem de CartaCapital teve acesso à denúncia e à decisão judicial e reuniu informações sobre o modus operandi do grupo — isto é, as estratégias utilizadas para tentar manchar a imagem de Maria da Penha e questionar sua atuação pública.

Quem é quem 

O principal nome do movimento articulado contra a ativista, segundo o MP-CE, é o de Marco Antônio Heredia Viveiros, seu ex-marido, condenado a oito anos e seis meses de prisão pelos crimes de agressão e tentativa de homicídio praticados contra a então esposa em 1983, em Fortaleza.

Na ocasião, Heredia atirou contra Maria da Penha enquanto ela dormia. O disparo a deixou paraplégica. O agressor tentou encobrir o crime alegando que o casal havia sido vítima de uma tentativa de roubo dentro da residência.

Duas semanas após voltar do hospital, ainda em recuperação, Maria da Penha sofreu um segundo atentado. Dessa vez, Heredia tentou eletrocutá-la ao manipular o chuveiro elétrico da casa.

Apesar da gravidade dos crimes, ele só foi preso em 2002, 19 anos depois do ataque, para iniciar o cumprimento da pena.

Em 2021, Heredia publicou o livro A verdade não contada no caso Maria da Penha, no qual apresenta uma versão alternativa para os fatos. A obra foi lançada por meio de uma plataforma de autopublicação e sustenta que teriam ocorrido ilegalidades e imoralidades no processo judicial, supostamente praticadas por autoridades em conluio com “meios sensacionalistas de comunicação”.

Outro elo da rede é Alexandre Gonçalves de Paiva, diretor-presidente do Instituto de Defesa dos Direitos do Homem, entidade fundada por ele em 2014, em Florianópolis.

Em material de divulgação no próprio site, o instituto afirma atuar para unir homens e mulheres que reconhecem “a desigualdade no contexto de gênero, onde os homens são vítimas sem privilégios”.

Alexandre também mantém nas redes sociais um perfil chamado paivanasruas, descrito por ele como um espaço destinado a “alertar sobre o mau uso da Lei Maria da Penha”.

Paiva e Heredia foram alvo de diferentes fases da operação Eco Chamber, iniciada em 2024 e com desdobramentos ao longo de 2025 e 2026. A investigação é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a pedido do Ministério Público do Ceará, para apurar a campanha de ataques contra a ativista.

Durante as operações, aparelhos eletrônicos e documentos foram apreendidos. Paiva também foi submetido a medidas cautelares, entre elas a suspensão de seu perfil nas redes sociais por 90 dias.

A investigação também aponta a participação de dois nomes ligados à produtora de conteúdo Brasil Paralelo, criada em 2016, em Porto Alegre, por Lucas Ferrugem, Henrique Viana e Filipe Valerim como resposta ao que classificam como “pobreza cultural” e “viés esquerdista” na mídia.

Marcus Vinícius Mantovanelli e Henrique Barros Lesina Zingano aparecem associados à produção da série documental A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha, lançada pela empresa.

O modus operandi da rede

De acordo com a denúncia do Ministério Público, os réus atuariam a partir de estratégias voltadas a mobilizar simpatizantes contra Maria da Penha. O objetivo seria disseminar a ideia de que a lei teria se originado de uma narrativa falsa construída pela própria vítima.

A estratégia buscaria, segundo a investigação, enfraquecer a credibilidade da legislação — abrindo caminho para sua eventual revogação ou para a retirada do nome da ativista da Lei nº 11.340/2006.

Em suas redes sociais, Alexandre Paiva costuma se referir à legislação como “Lei Maria da Mentira”.

A investigação também recuperou mensagens trocadas em um grupo de WhatsApp chamado “Maria X Marco”, no qual participantes discutiam estratégias jurídicas e de comunicação.

Em uma das mensagens obtidas pelos investigadores, o advogado criminalista Otacílio Guimarães de Paula, responsável pela defesa de Heredia, afirma:

“Agora a gente anula o processo, aí muda o jogo, filhão. Primeiro eu tenho que anular esse processo. Depois a gente vai brigar para tirar o nome dela dessa lei. Aí, terceiro, reformular a lei.”

Outras mensagens mostram que integrantes do grupo orientavam Heredia a evitar ataques diretos à ex-esposa para construir uma imagem pública mais favorável.

“Neste momento, Marco, você tem que ganhar empatia das pessoas. Não demonstra rancor. Deixa as pessoas demonstrarem insatisfação”, diz uma das mensagens atribuídas a Alexandre Paiva.

A investigação também aponta que a rede obtinha recursos por meio da monetização de conteúdos nas redes sociais, incluindo transmissões ao vivo e podcasts.

O documentário da Brasil Paralelo

Segundo o Ministério Público, a investigação identificou ligação direta entre a atuação do grupo e o lançamento da série documental A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha, produzida pela Brasil Paralelo.

A denúncia sustenta que o material apresenta teorias conspiratórias sobre os crimes e distorce fatos já estabelecidos judicialmente.

O documentário tem produção de Marcus Vinícius Mantovanelli e edição e apresentação de Henrique Barros Lesina Zingano.

O Ministério Público também cita reportagens que indicam investimentos de cerca de 300 mil reais em anúncios para impulsionar a divulgação da série.

Outro ponto levantado pela investigação é o uso, no documentário, de um suposto laudo de exame de corpo de delito que sustentaria a inocência de Heredia.

Segundo o MP, o documento já havia sido analisado anteriormente pela Perícia Forense do Ceará, que identificou “claros indícios de montagem”.

O material teria sido enviado por Heredia aos produtores do documentário. Apesar disso, o documento nunca foi juntado aos autos do processo que resultou em sua condenação.

Conversas extraídas do grupo de mensagens indicam que Heredia encaminhou o laudo a pedido de Mantovanelli. De acordo com a denúncia, o documento exibido no documentário é o mesmo já apontado como falso pela perícia.

Cópias desses laudos também foram encontradas em pen drives apreendidos na casa de Heredia durante operação de busca e apreensão.

As acusações

A Justiça do Ceará imputou a Marco Heredia o crime de falsificação de documento público, previsto no artigo 297 do Código Penal.

Alexandre Gonçalves tornou-se réu pelos delitos de intimidação sistemática virtual (cyberbullying) e perseguição (stalking).

Já Marcus Vinícius Mantovanelli e Henrique Barros Lesina Zingano, ligados à Brasil Paralelo, respondem pelo crime de uso de documento falso, tipificado no artigo 304 do Código Penal.

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