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Minotauros modernos

Em Hipocritões e Olhigarcas, o historiador Rui Tavares passeia pelas guerras culturais ao longo da história

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Alerta. Caso encontre um olhigarca ou um hipocritão como estes aí do alto, fuja. Tavares cataloga os novos monstros – Imagem: Molly Riley/Casa Branca Oficial e Redes Sociais
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Na Pompeia de 2 mil anos atrás, os grafites nas paredes da cidade faziam a vez das redes sociais ou dos tabloides populares no século XX. Fofocas e pornografia se misturavam ao proselitismo político e religioso, a declarações de amor e ódio e à exploração dos medos profundos. Os monstros que aterrorizavam as noites de crianças e adultos atendiam pelos nomes de Minotauro, Medusa, Hidra de Lerna e Quimera, cujos horrores povoavam a imaginação popular desde a Grécia antiga. Uma gangue de adolescentes diante das bestas modernas, os hipocritões, como Donald Trump, e os olhigarcas, a exemplo de seu ex-parceiro Elon Musk, colossos “da falsidade e do poder desmedido”. Novos tempos exigem novas mitologias e o historiador e deputado português Rui Tavares garimpou nos rabiscos da cidade engolida pelas lavas do Vesúvio os vestígios de como os meios e as mensagens – ou melhor, as mensagens distribuídas em diferentes meios – moldam as batalhas de valores e identidade da humanidade.

Hipocritões e Olhigarcas é o fio de Ariadne pelo labirinto das guerras culturais ao longo dos tempos. A perspectiva histórica inibe as leituras enviesadas do presente, clareia o horizonte. Nem tudo é novo, nem tudo é o mesmo. A prensa de Gutenberg difundiu o livro e as ideias de Martinho Lutero e incendiou o confronto, não raro sangrento, entre protestantes e católicos. O rádio fez de Adolf ­Hitler e Benito Mussolini os influencers da década de 1930 na Europa, mas popularizou as ideias de Franklin D. Roosevelt e do New Deal, período mais iluminista e generoso dos Estados Unidos. Assim como as redes sociais impulsionam a ascensão da extrema-direita nesta quadra. As tecnologias, escreve Tavares, potencializam as disputas, mas não as criam. Embora em nenhum outro momento uma mesma geração tenha sido exposta, como no primeiro quarto do século XXI, a seguidas revoluções tecnológicas (internet, redes sociais e Inteligência Artificial), a confluên­cia de fatores que são o estopim das batalhas políticas e sociais repete um certo padrão de comportamentos e efeitos.

Hipocritões e Olhigarcas: Passado e Futuro das Guerras Culturais. Rui Tavares. Tinta-da-China Brasil (184 págs., 79,90 reais)

Cada época descobriu ou inventou os instrumentos adequados para lidar com os desafios. E agora? “Deixamos que as big techs fizessem das redes sociais uma espécie de latifúndio da internet. (Os magnatas das plataformas digitais) são os oligarcas dos nossos olhos, por isso o termo ‘olhigarcas’. Quando algo é de graça, nós somos o produto”, afirma o historiador (a íntegra da enrevista está no canal do YouTube desta revista). “E a IA está a ser avançada por pequenos conglomerados e dependemos que eles se comportem de forma moral. É uma situação de enorme risco e vamos precisar de um enquadramento público multilateral. No momento, infelizmente, nossas organizações internacionais não conseguem fazer isso. É como estar perante a bomba atômica e não ter a ONU.”

O livro confirma o requinte e engenho do pensamento do autor. Não é nenhuma surpresa para quem acompanha suas intervenções no Parlamento português ou ouviu o podcast Agora, Agora e Mais Agora­, sequência de relatos particulares que servem de esteio a reflexões universais sobre a história das ideias. Produzido durante a pandemia de Covid-19, o podcast foi vertido ao papel e lançado no Brasil pela mesma Tinta-da-China em 2024. É uma boa leitura complementar a Hipocritões e Olhigarcas. A experiência política de Tavares, fundador, líder e deputado pelo Livre, partido em ascensão da nova esquerda portuguesa, realça o brilho intelectual do acadêmico. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa


A aventura de sete crianças que, nos anos 1970, deram início à prática de vela num pequeno barco chamado Optmistic, até então inédito no País, é contada, de forma envolvente, em Turma do Vento (Editora Pitanga, 112 págs., 68,90 reais), escrito por Renata Lima e ilustrado por Bel Galvanese.

Em Cobalto de Sangue: Como as Vidas no Congo Movem o Mundo Conectado (Rocco, 288 págs., 89,90 reais), finalista do Prêmio Pulitzer em 2024, o pesquisador Siddharth Kara descreve a máquina predatória que move a exploração desse minério vital para a indústria de alta tecnologia.

As 30 mulheres que figuram em Inesquecíveis – Quatro Séculos de Poetas Brasileiras (Bazar do Tempo, 320 págs., 98 ­reais) nos levam a revisitar a poesia produzida desde o Brasil Colônia até a década de 1970. Se algumas das autoras foram antes editadas, outras só aqui foram lembradas.

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Minotauros modernos’

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