Cultura

assine e leia

Locações à vista

O governo federal prepara um decreto voltado a atrair e facilitar filmagens internacionais no País

Locações à vista
Locações à vista
Turismo. O Agente Secreto gerou um roteiro informal que passa por lugares da trama. Na Colômbia, o governo criou um tour da série Cem Anos de Solidão – Imagem: Eduardo Cunha/SECULT-PE/Fundarpe, Dynamo/Netflix e Vitrine Filmes/CinemaScópio
Apoie Siga-nos no

Os olhos dos produtores internacionais nunca estiveram tão voltados para o Brasil. Após a vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar 2025 e as indicações para O Agente Secreto este ano, o interesse pelas locações do País é visível nas rodas de conversa de eventos e festivais de cinema.

O Brasil tem hoje 29 escritórios municipais voltados a atrair e facilitar filmagens – chamados de film commissions. O objetivo dessas estruturas é simplificar o processo de filmagem dos mais diversos tipos de projetos – de longas-metragens e séries até videoclipes e publicidade.

Mas, para que o movimento ganhe tração, falta um passo importante: a criação de uma estutura nacional, a Brasil Film Commission, que ajude a consolidar a imagem do País no mundo e estimular a indústria local. Sua criação foi anunciada na semana passada no Noronha 2B, fórum de film commissions que chegou à terceira edição reunindo profissionais do setor em Fernando de Noronha.

Ali, a sensação era a de que o Brasil está definitivamente no mapa. “Nunca falei tanto de coprodução internacional como no ano passado”, conta Daniel Celli, que esteve na criação da SPcine, a film ­commission de São Paulo, e há quatro anos está na Rio Film Commission. Em 2022, foram 19 produções internacionais filmadas na capital fluminense com o apoio da agência; em 2025, o número subiu para 28.

A criação dessa estrutura federal é liderada pelos ministérios da Cultura e do Turismo, por meio da Embratur, com o envolvimento de pastas como a de Relações Exteriores e da agência de exportações, a Apex. Ter uma comissão federal de promoção do audiovisual é um passo que vários países já deram. Na Europa, quase todos os países têm políticas para atrair filmagens para seus territórios. Na América Latina, México, Argentina, Colômbia e Uruguai possuem uma film comission.

A ideia era oficializar a Brasil Film Commission no Noronha 2B, por meio de decreto assinado pelo presidente Lula. Mas, por questões burocráticas, a iniciativa não saiu do papel a tempo. A secretária do Audiovisual, Joelma Gonzaga, afirmou no evento que a assinatura deve sair ainda neste semestre.

Sustentando o projeto está a interseção entre audiovisual e turismo. Estima-se, internacionalmente, que todos os anos cerca de 100 milhões de turistas decidam seus destinos influenciados pelo que veem em filmes e séries.

No início dos anos 2000, muito se falou sobre o aumento do fluxo de turistas para a Nova Zelândia em razão de O Senhor dos Anéis. De lá para cá, o turismo cinematográfico só cresceu. A temporada final de Stranger Things, por exemplo, impulsionou o número de visitas à cachoeira Haifoss, no sul da Islândia. Existe até uma versão do guia The Lonely Planet chamada Film and TV Locations.

O plano para a Brasil Film Commission tem duas frentes. Externamente, o objetivo é atrair filmagens e incentivar coproduções, consolidando o destaque recente do cinema brasileiro. Internamente, a meta é promover a articulação de agentes públicos e privados e elaborar uma base de dados sobre o mercado audiovisual­, marcado por disparidades regionais.

O Noronha 2B contou com a apresentação de 11 film commissions. A diferença entre as mais consolidadas – Rio, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte – e outras em estágio inicial, como Florianópolis, Ilhabela (SP), Maricá (RJ) e Santa Cruz (RS), ainda é grande.

As variações de tamanho e estrutura se refletem também na capacidade de atração. Hoje, essas comissões trabalham com o mecanismo de cash rebate, que consiste na devolução de parte do dinheiro investido em determinada cidade. Na França e na Espanha, o reembolso pode chegar a 30%. Na Colômbia, o teto é de 40%. A Colômbia, por sinal, criou um roteiro turístico basea­do em Cem Anos de Solidão, da Netflix.

Incentivos ficais e financeiros para atrair filmes e séries se tornaram comuns no mundo

Outra política adotada internacionalmente é a do tax rebate, que prevê a devolução de impostos. Esse modelo esbarra, porém, em questões tributárias e, dada a guerra tarifária declarada por Donald Trump, se mostra especialmente espinhoso no momento. O Brasil deve adotar, além do cash rebate, o modelo de editais de coinvestimento. Nesse caso, cada real investido teria uma contrapartida financeira do governo – que poderia ser , por exemplo, de três para um.

Embora o adiamento do decreto tenha frustrado as expectativas, o encontro foi mais um passo para o desenho de um modelo viável e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para a reflexão. Remi Bergues, diretor da comissão de cinema da região de Paris, detalhou o impacto ambiental das grandes produções e citou as ações de sustentabilidade adotadas na França.

Do lado brasileiro, a discussão girou em torno do potencial do chamado turismo de tela. Esse movimento já acontece espontaneamente, como no caso dos roteiros informais criados a partir de O Agente Secreto – a revista Viagem&Turismo fez, inclusive, uma reportagem com os pontos a serem visitados. O objetivo é que isso aconteça de forma intencional, e não apenas espontânea. Internacionalmente, é comum que o plano de lançamento de uma obra integre uma estratégia de divulgação do destino turístico.

O atraso na assinatura do decreto preocupa produtores e gestores, sobretudo, por estarmos em ano eleitoral. Mas Leonardo Edde, presidente da RioFilme, não acha que essa pauta desperte resistência ideológica. “Estamos falando de desenvolvimento econômico, de vender a imagem do País­ para o exterior”, avalia. “É um negócio que gera dinheiro, emprego e serviços.” •


*O jornalista viajou a convite da organização do Noronha 2B.

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Locações à vista’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo