Cultura
Monumento à memória
Em Via Gemito, o escritor italiano Domenico Starnone recria, por meio de lembranças imprecisas, a figura de seu pai, um pintor talentoso e violento
Pérolas aos porcos. É assim que Federí, pintor excepcional que ganha a vida como ferroviário, se entende no mundo. Ele e seus quadros são as pérolas; os outros e seus feitos, os porcos.
A expressão é usada pelo narrador de Via Gemito, do italiano Domenico Starnone, vencedor do Prêmio Strega, em 2001. Quem narra o romance é Mimí, corruptela de Domenico. Federí é o apelido de Federico Starnone (1917–1988), pintor napolitano e pai do escritor.
Publicado no Brasil mais de duas décadas após seu lançamento na Itália, Via Gemito é um livro autobiográfico que nasceu como um clássico contemporâneo. O leitor se beneficia, porém, ao evitar buscar correspondência entre fatos e literatura. Definir, de largada, a obra como autoficção pode turvar as características que a tornam brilhante.
Datas e nomes importam menos do que a forma adotada por Starnone para colocar seus personagens em ação. O autor não chama Federí de ciumento. Ele prefere mostrar que o homem se ressente quando a sogra elogia a beleza do filho e não a dele – genro.
Via Gemito. Domenico Starnone. Tradução: Maurício Santana Dias Todavia (464 págs., 139,90 reais)
“Como lhe irritava que a sogra louvasse constantemente aquele filho. Lindo, ela insistia. (…) Não tolerava exageros quando diziam respeito aos outros e sofria com a centralidade que era cegamente dispensada ao cunhado, um rapaz sem nenhuma excelência, apenas uma boca a mais para comer, um cu para cagar”, relata Mimí.
O vocabulário rudimentar e violento, que encontra no dialeto napolitano sua expressão, é uma marca de Federí da qual Mimí faz questão de se afastar, utilizando-a apenas para caracterizar os modos brutos do pai. O tradutor Maurício Santana Dias foi, mais uma vez, competente ao verter o ritmo e o sentido para o português.
Na busca pela reconstrução da memória, Mimí circula por uma Nápoles diferente daquela onde nasceu e cresceu no pós-Guerra, em busca dos quadros do pai – Starnone nasceu, de fato, em Nápoles, em 1943.
Será que as pinturas estavam mesmo onde o pai se vangloriava de tê-las? Se o pai reescrevia o passado ao negar que batia na mulher, por que não mentiria sobre o resto? Mas o narrador encontra alguns desses quadros em repartições públicas.
Há um quadro específico, Os Bebedores, que absorve Mimí. Dadas as amplas dimensões da pintura, enquanto era produzida a sala ficava vazia, sendo usada exclusivamente pelo pai – com suas ferramentas e modelos –, que vivia a euforia de criar sua maior obra.
Publicado no Brasil mais de duas décadas após seu lançamento na Itália, Via Gemito ecoa outros livros do autor, lançados aqui pela Todavia
Mimí serviu de modelo para um dos personagens do quadro: o menino que serve água para trabalhadores, com o joelho no chão. Ele se esforçava para ficar imóvel, mas debatia-se com a tentação de mover-se para ajudar o pai que não percebia – ou percebia? – que o copo onde a água cairia ficaria muito longe na figura. Ele temia uma explosão de fúria do pai, e sentia-se responsável pelo sucesso ou pelo fracasso. O veredicto, narrado de forma engenhosa, sai da boca da mãe.
Outra das figuras do quadro é um mastim napolitano que Mimí intuía ter sido pintado a partir de uma imagem do “livro azul”, um livro de arte herdado pelo pai. O encantamento do pai e do filho pelo “livro azul” remete à Fada Azul, livrinho infantil escrito por Lila, personagem da tetralogia napolitana de Elena Ferrante.
Há, entretanto, ressonâncias da própria obra de Starnone em Via Gemito. O pequeno Federí lembra Mario, o neto que precisa ser cuidado pelo avô septuagenário de Assombrações, romance no qual as artes visuais estão presentes. O avô é um ilustrador e o garoto, um prodígio aos olhos dos pais e professores, tem suas pinturas penduradas pelo apartamento.
Via Gemito é um monumento à imprecisão da memória com um narrador que admite sua falibilidade ao decretar: “Não me lembro de como termina”. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Monumento à memória’
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