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Imaginários coloridos

A estreia de A Pequena Amélie, coprodução entre França e Bélgica, completa a lista dos indicados ao Oscar de melhor animação exibidos no Brasil

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Tecnologias distintas. A Pequena Amélie (à esq.) e Arco (acima) correm por fora numa categoria novamente dominada por Hollywood,com Zootopia 2, da Disney, Elio, da Pixar, e Guerreiras do K-Pop, enorme sucesso produzido pela Sony e pela Netflix – Imagem: Ugo Bienvenu, Netflix, Pixar/Disney+, Walt Disney Animation Studios e Mailys Vallade/Liane-Cho Han
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Adaptação do romance autobiográfico da escritora belga Amélie Nothomb, A Pequena Amélie estreou na quinta-feira 12 nos cinemas brasileiros. O longa-metragem era o único, dentre os indicados ao Oscar 2026 na categoria, ainda inédito no ­País. O filme dirigido por Maïlys Vallade e ­Liane-Cho Han, numa coprodução entre Bélgica e França, transpõe em elegantes traços e movimentações coloridas uma versão dos primeiros três anos de vida de Amélie, que é filha de pais diplomatas, da Bélgica, e nasceu no Japão.

Desde os primeiros minutos, o longa-metragem explicita o ponto de vista da personagem-título, a ser acompanhada pelo espectador enquanto descobre algumas maravilhas e também um tanto de ilusões e frustrações da primeira infância.

A Pequena Amélie estreou mundialmente em maio de 2025, numa sessão especial do Festival de Cannes. Desde então, tem percorrido, com sucesso, o circuito de festivais. Um dos prêmios que recebeu foi aquele dado pelo público no Festival de Annecy, o maior evento de animação do mundo. Em Hollywood, foi indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar.

Nada mal para uma produção de 10 milhões de dólares, especialmente se considerarmos que a maioria de seus concorrentes à estatueta dourada, no domingo 15, são animações com orçamentos de mais de 100 milhões de dólares feitas por grandes estúdios de Hollywood.

Os demais indicados são Guerreiras do K-Pop (Sony Pictures/Netflix), Elio (Pixar), Zootopia 2 (Disney) e, correndo por fora, Arco, outra produção francesa de médio porte, também orçada em 10 milhões de dólares.

O favorito ao Oscar, disparado, é Guerreiras do K-Pop, da dupla Maggie Kang e Chris Appelhans, embalado pela vitória no Globo de Ouro e por deter o recorde de filme mais visto da história da Netflix. Segundo dados da Nielsen divulgados no começo de 2026, a animação bateu 210 milhões de visualizações integrais na plataforma.

Se confirmadas as previsões, a vitória de Guerreiras do K-Pop será um enorme contraste em relação ao resultado de 2025, quando o vencedor foi o pequeno Flow. O filme foi realizado na Letônia por uma equipe de dez pessoas usando um software livre chamado Blender e com orçamento total de 4 milhões de dólares. A animação concorria ainda na categoria de filme internacional, na qual perdeu para o brasileiro Ainda Estou Aqui.

Os concorrentes são, quase todos, filmes que trazem narrativas de personagens jovens diante de algum tipo de lição ou aprendizado sobre o mundo

Ao subir ao palco do Dolby Theatre logo após o anúncio de Flow como melhor longa-metragem animado, o diretor Gints Zilbalodis disse torcer para que o sucesso da aventura de um gatinho preto num mundo pós-apocalíptico “abrisse portas a realizadores independentes ao redor do mundo”.

O desejo de Zilbalodis talvez não tenha se concretizado ainda, ao menos no Oscar. De qualquer forma, este é um ano de bons filmes – ainda que nenhum tenha o brilho de Flow. Curiosamente, os indicados são, quase todos, filmes que trazem narrativas de personagens jovens diante de algum tipo de lição ou aprendizado sobre o mundo.

A Pequena Amélie mostra a garotinha em contato com cheiros do jardim japonês, com a língua diferente da de sua família, com uma cuidadora maternal e com as primeiras noções sobre morte, além de revelações sobre a própria identidade.

Em Arco, o diretor Ugo Bienvenu segue o menino de 10 anos que vem de um futuro distante para o ano de 2075 e se depara com uma crise climática e a amizade de uma garota infeliz que sofre com o distanciamento dos pais.

Elio, por sua vez, apresenta um garoto de 11 anos obcecado por vida extraterrestre e confundido com o embaixador da Terra quando vai parar numa galáxia alienígena, onde vai representar a humanidade antes mesmo de entender quem é ele mesmo.

Em Guerreiras do K-Pop, a pegada é mais juvenil. A produção segue as garotas do grupo musical Huntr/x, que precisam encarar demônios disfarçados de boys band enquanto lidam com as próprias crises e preconceitos.

Só mesmo Zootopia 2 escapa desse padrão. Na trama, a policial coelha e o parceiro raposo – ambos do primeiro filme, de 2016 – têm de investigar crimes misteriosos.

Se, por um lado, há certa convergência narrativa, por outro lado, o visual é absolutamente diferente em cada um deles.

A Pequena Amélie usa animação 2D digital em cenários desenvolvidos a partir de estudos plein air (técnica de desenhos ao ar livre) e uso crescente de mudança de cores de acordo com a passagem do tempo e a perspectiva da protagonista. Arco mistura 2D e 3D num ­software francês chamado TVPaint, o que dá exuberância similar a de um mestre como Hayao Miyazaki, especialmente visto no clássico Ponyo (2008).

Os norte-americanos seguem detendo o padrão ouro de tecnologia animada, com Zootopia 2 e Elio refinando o CGI de estúdio em técnicas inventadas especialmente para cada um dos filmes, de lentes virtuais a sistemas de iluminação.

Já Guerreiras do K-Pop pega carona no visual hiperbólico de Homem-Aranha no Aranhaverso, ganhador do Oscar de animação em 2019, para misturar computação gráfica a referências do pop sul-coreano, tanto musical quanto televisivo e cinematográfico. Não por acaso, é o mais espetaculoso dos indicados, com sequências de ação, batalhas e números musicais que reforçam, desde a estreia em mea­dos do ano passado, o fenômeno cultural que o filme se tornou. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Imaginários coloridos’

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