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Reconquistar o foco

Precisamos proteger nossa atenção das big techs

Reconquistar o foco
Reconquistar o foco
Dividir para lucrar. As plataformas apostam no “fraturamento” humano, maneira de fragmentar a atração dos conteúdos em intervalos curtos – Imagem: iStockphoto
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Há algo de errado com a maneira como lidamos com a atenção no mundo contemporâneo. O problema não está na nossa dificuldade em aderir a aplicativos que restrinjam nosso tempo de uso de tela ou na insistência em conferir feeds de redes sociais antes de dormir ou logo que acordamos, mas sobretudo no modelo econômico que sustenta grande parte das plataformas digitais.

Nas últimas duas décadas, o mercado de empresas de tecnologia tornou-se extremamente fechado, concentrado e dominado por algumas poucas empresas, que atuam como intermediárias de quase todo o fluxo de informação ­online. Na prática, são essas companhias gigantescas que definem quais conteúdos ganham visibilidade e quais permanecem invisíveis para a maioria dos usuários, influenciando as condições para o exercício da liberdade de expressão e para o acesso à informação.

Essas empresas de tecnologia, sediadas principalmente no Vale do Silício, consolidaram sua posição global por meio de sistemas cada vez mais sofisticados de captação e monetização da atenção humana. Esse fenômeno pode ser descrito como uma espécie de “fraturamento da atenção”, ou fracking humano. A comparação vem da técnica de fraturamento hidráulico utilizada na indústria petrolífera. Assim como o fracking injeta substâncias químicas no subsolo para extrair combustíveis fósseis de difícil acesso, as plataformas digitais bombardeiam os usuá­rios com fluxos constantes de conteúdos, notificações e estímulos. O objetivo é fragmentar a atenção em intervalos cada vez menores, transformando cada janela de foco em um recurso comercializável no mercado publicitário digital.

Os efeitos desse sistema são amplos e, em muitos aspectos, particularmente visíveis no Brasil. O País está entre aqueles que passam mais tempo online. Em média, os brasileiros permanecem mais de nove horas por dia conectados à internet­. Cerca de metade desse período é gasta em plataformas privadas desenhadas para estimular o engajamento contínuo, sem necessariamente considerar seus impactos sociais ou políticos.

O jornalismo também sofre os efeitos dessa dinâmica. No Brasil, quase metade da população afirma evitar notícias de forma deliberada. Nesse cenário, conteúdos apelativos, títulos caça-cliques e resumos automáticos produzidos por Inteligência Artificial passam a disputar a atenção do público com reportagens aprofundadas e de interesse público. O resultado é uma pressão crescente sobre o modelo econômico que sustenta o jornalismo e, consequentemente, sobre o acesso da sociedade a informações confiáveis e ao debate público.

Essa lógica também orienta a distribuição de conteúdos nas redes. Os algoritmos tendem a promover aquilo que gera mais reações e interações, não necessariamente o que é mais relevante, diverso ou confiável. Como consequência, cada usuário acaba exposto apenas a uma pequena fração do conteúdo disponível.

O problema está no modelo econômico que sustenta as plataformas digitais

Por isso, o fracking humano não é apenas uma questão individual relacionada ao uso de tecnologia. Representa um desafio para a própria democracia. No Brasil, a amplificação algorítmica de conteúdos deliberadamente enganosos em plataformas como Facebook e YouTube tem contribuído para distorcer o debate público e fragilizar a confiança nas instituições.

Apesar desse cenário preocupante, iniciativas de resistência começam a ganhar força em diferentes partes do mundo. A Strother School of Radical Attentio­n, organização social de Nova York, reúne artistas, educadores e pesquisadores em programas pedagógicos voltados à formação de uma nova geração de ativistas da atenção. Já a ARTIGO 19, associação que atua pela defesa da liberdade de expressão, trabalha para fortalecer a participação de vozes do Sul Global na construção de políticas públicas e soluções tecnológicas que favoreçam um ambiente digital mais democrático e plural. Em comum, reconhecem que a mudança do modelo de negócios das plataformas depende de mobilização social e que a atenção humana é um componente essencial da nossa dignidade.

O primeiro passo desse movimento de resistência está em abandonar concepções que reduzem a ideia de atenção à produtividade. A atenção humana é um conjunto extraordinariamente diverso e abrangente de estados sensoriais, cognitivos e afetivos, práticas, modos e tradições. Jogar futebol com amigos. Fazer refeições em família. Ler um livro. Práticas muito diversas, como cuidar do jardim, orar ou sonhar acordado, são, em última análise, formas de atenção. A verdadeira atenção nada mais é do que nossa capacidade de cuidar, nossa capacidade de dedicar nossas mentes e sentidos ao mundo, e de nos abrirmos à existência.

A partir do momento em que se entende quão expansiva e rica nossa atenção realmente é, podemos substituir a culpa individual pelas horas passadas rolando o feed das redes sociais por uma indignação política contra as big techs. Essa indignação pode ser o vetor tanto das transformações regulatórias e legislativas de que precisamos quanto uma força que nos convoca a desenvolver práticas de atenção mais significativas. Trata-se de fazer mais das coisas que já fazemos (dançar, jogar jogos, passear com o cachorro), e fazermos isso juntos, coletivamente. E trata-se de identificar nossa atenção (e as maneiras de usá-la) como uma forma de resistência.

O convite deste artigo não é para que os leitores excluam seus aplicativos ou abandonem seus smartphones. O que precisamos é de um novo olhar para o problema. A valorização da atenção pode ser a chave para isso. Ninguém pode realmente ser dono da nossa atenção, a não ser nós mesmos. É por meio dela que cultivamos nossos relacionamentos e nos desenvolvemos por nós mesmos – é a própria atenção que torna as coisas, e a própria vida, valiosas. •


*Peter Schmidt é diretor de programas da Strother School of Radical Attention; Raquel da Cruz Lima é coordenadora do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul; Vitória Oliveira é consultora sênior do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul.

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Reconquistar o foco’

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