Mundo
Adeus, Barbie
Kristi Noem, a czarina da migração, é a primeira grande baixa da equipe de Donald Trump
A demissão de Kristi Noem do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos na quinta-feira 5 foi apresentada pela Casa Branca como uma “mudança de fase” no governo Donald Trump, mas tudo no episódio remete a uma combinação de crise de gestão, disputa de vaidades e cálculo eleitoral. Oficialmente, a queda da ex-governadora de Dakota do Sul foi precipitada pela pressão do Congresso após a morte de dois cidadãos norte-americanos em Minneapolis durante uma operação de agentes migratórios, num momento em que o governo tenta transformar a máquina de deportações em vitrine central do mandato.
O desgaste vinha, porém, de antes. Uma cara campanha publicitária de cerca de 220 milhões de dólares, concebida para desencorajar a imigração irregular e estrelada pela própria secretária, consolidou a imagem de Noem como a “Barbie do ICE” e abriu um flanco para acusações de autopromoção com dinheiro público. A combinação de mortos, marketing bilionário e incapacidade de controlar a própria pasta transformou a primeira grande baixa do gabinete em símbolo dos limites da agenda de linha-dura na fronteira.
Noem chegou ao DHS com a missão de colocar rosto e narrativa em uma política que, em anos anteriores, havia sido conduzida mais nos bastidores do que na frente das câmeras. Em poucos meses, ela encarnou o papel com entusiasmo. A mesma estética, aliás, que a ajudou a consolidar o apelido de “Barbie do ICE” passou a ser usada tanto por adversários quanto por aliados, todos incomodados com o fato de a secretária ocupar o centro do palco em uma agenda considerada uma marca pessoal por Trump.
Após a morte de Renée Nicole Good, de 37 anos, e Alex Pretti, também de 37, por agentes sob o comando de Noem, parlamentares democratas pediram audiências de emergência, e republicanos moderados, preocupados com o desgaste entre eleitores suburbanos, passaram a tratar os casos como sintomas de uma máquina fora de controle. O senador republicano Thom Tillis foi particularmente duro: “O que vimos foi um desastre sob a sua liderança”. Chamada a depor, Noem oscilou entre defender os agentes, atribuir responsabilidades a instâncias inferiores da burocracia e repetir palavras de ordem do governo. Saiu das audiências com a imagem de gestora frágil, incapaz de conciliar a retórica de guerra com a exigência básica de prestação de contas, sobretudo quando norte-americanos morrem pelas mãos do Estado.
A secretária não resistiu à morte de cidadãos dos EUA em Minnesota
Ao demitir Noem, a mensagem diz menos sobre a decisão em si e mais sobre uma regra implícita do trumpismo: todos podem ser personagens, mas somente Trump pode ser protagonista. Não por menos, o presidente optou por um aliado fiel e com histórico de linha-dura em imigração para assumir o comando da pasta. O senador de Oklahoma Markwayne Mullin, que se vende como empresário rural, é ex-lutador profissional de MMA, pai de seis filhos e integrante da nação Cherokee, um pacote que combina masculinidade performática, raiz rural e minoria indígena, tudo convertido em credencial política. “Estou superempolgado com esta oportunidade”, declarou Mullin ao ser anunciado. O foco, acrescentou, será “manter a pátria segura” e “tentar conquistar o voto de todos”, incluindo democratas, prometendo ser “prático” ao ouvir as preocupações dos eleitores.
Se, de um lado, Noem foi retirada do posto que concentra orçamento, nomeações estratégicas e peso institucional, de outro, o presidente tratou de embalá-la em elogios ao anunciar sua nova função, a de enviada especial para o “Shield of the Americas”, iniciativa ainda embrionária cujo objetivo é submeter os países do continente à intervenção direta de Washington. Trump agradeceu a “extraordinária” atuação da ex-subordinada na fronteira e apresentou o novo cargo como promoção a uma espécie de posto diplomático-militar de alta relevância, mas que, na prática, trata-se de um rebaixamento, pois ela perdeu o controle sobre a máquina administrativa doméstica e ganhou um título que depende, em grande medida, da boa vontade da própria Casa Branca em dar conteúdo e recursos.
A ideia do “Escudo das Américas” é criar uma moldura de cooperação regional contra o crime organizado, com ênfase na retórica de guerra aos cartéis, nas rotas de tráfico e na infiltração de facções em estruturas estatais. É um tema que fala diretamente ao imaginário da base trumpista, mas que agora desloca parte do foco e da responsabilidade para fora dos limites norte-americanos. No sábado 7, uma reunião de cúpula foi organizada às pressas, na Flórida, com lideranças políticas e representantes de governos alinhados ideologicamente à Casa Branca. Participaram do encontro enviados da Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago. O Brasil não foi convidado. A exclusão do maior país da América Latina de um fórum que pretende coordenar ações contra cartéis e tráfico envia um recado claro. Aos olhos da Washington trumpista, Brasília é vista com desconfiança, seja por divergências políticas, seja pela avaliação de que o governo brasileiro não embarcará sem ressalvas em uma agenda de segurança moldada pela lógica da guerra total. Em fevereiro, durante viagem à Índia, o presidente Lula afirmou que “não quer uma nova Guerra Fria”. “Não queremos interferir em nenhum outro país, queremos que todos os países sejam tratados igualmente.”
Para a diplomacia brasileira, o quadro é complexo. De um lado, a pressão para aderir a operações e compromissos que podem diretamente implicar maior exposição de dados e coordenação com estruturas norte-americanas de inteligência. Do outro, o risco de isolamento em um tabuleiro no qual os vizinhos agem como súcubos. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Adeus, Barbie’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



