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Sem linha de chegada

Depois de conflagrar o Oriente Médio e estourar o preço do petróleo, Trump busca qualquer coisa para chamar de vitória

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Queda de braço. Mojtaba Khamenei foi escolhido para substiuir o pai na liderança do regime. O republicano fala em terminar o conflito sem alcançar seus objetivos – Imagem: Daniel Torok/Casa Branca Oficial/AFP e Redes Sociais/Presidência do Irã
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Após mais de dez dias da campanha militar dos Estados Unidos e de Israel­ contra o Irã, uma coisa ficou clara: nenhum dos objetivos alardeados para justificar o início dos ataques em 28 de fevereiro havia sido cumprido e os sinais de que esse fato pudesse mudar no curto prazo continuam escassos. Mesmo sob bombas, o regime segue de pé e demonstra força popular, arrastando às ruas milhares de iranianos que se enlutaram pela morte do antigo líder supremo, Ali Khamenei, morto num dos ataques, logo no início da guerra, e para saudar a nomeação do filho e sucessor, Mojtaba Khamenei. Além disso, o país bloqueia o Estreito de ­Ormuz, por onde passa 20% do comércio mundial de petróleo, e mantém uma capacidade nada desprezível de atingir alvos norte-americanos e israelenses em toda a região do Golfo Pérsico. Por onde se olhe, o cenário contradiz a ideia de que esta seria uma campanha fulminante, capaz de reproduzir em alguma medida os resultados políticos alcançados pela Casa Branca em sua mais recente intervenção armada, contra Nicolás Maduro, na Venezuela.

No caso do Irã, norte-americanos e israelenses tiveram motivos complementares para iniciar a guerra, feita à margem do direito internacional. Para o primeiro-ministro de Israel, ­Benjamin ­Netanyahu, o enredo passava pela aniquilação de um governo que, desde a Revolução Islâmica de 1979, responsável por derrubar o xá da Pérsia e levar os aiatolás ao poder, representa uma ameaça manifesta ao sionismo. O ingrediente atômico é o que dava maior sentido de urgência aos argumentos dos israelenses, pois, há anos, Netanyahu afirma que o Irã está a um dia de desenvolver uma bomba nuclear, cuja existência é negada por observadores internacionais ligados às Nações Unidas. Convencer os norte-americanos desses argumentos e arrastar os Estados Unidos para uma campanha militar no Oriente Médio era o último passo, cumprido depois de Trump iniciar seu segundo mandato.

Para os EUA, os motivos de Israel são o bastante. A interdependência entre ambos é tão evidente que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, chegou a dizer que o ataque ao Irã foi decidido depois de a Casa Branca tomar conhecimento da intenção israelense de iniciar o conflito, o que obrigaria os norte-americanos a se defender das retaliações dos aiatolás. A explicação é um atestado de que está em Tel-Aviv – não em Washington – o condão de determinar quando, como e contra quem a máquina militar deve se mover na região.

Por ora, nada de mudança de regime. Ao contrário

Mais tarde, Trump tentou remendar o mau soneto de Rubio, mas era tarde. Internamente, a guerra havia provocado danos severos à reputação de um governo que tenta a duras penas se livrar do escândalo do caso Epstein, do revés sofrido na Suprema Corte no caso da guerra tarifária e do fardo de ter de justificar a morte de dois cidadãos em Minnesot­a pelas mãos de agentes de imigração. A enxurrada de más notícias faz cair a popularidade do republicano e crescer a desaprovação às medidas tomadas por ele, algo especialmente preocupante em um ano no qual os eleitores irão às urnas para renovar parte de um Congresso Nacional hoje governista, mas que, se virar opositor, teria os instrumentos para mover mais um processo de impeachment contra o presidente norte-americano.

De acordo com um agregado de pesquisas de opinião divulgado no décimo dia da guerra no Irã, este já pode ser considerado o conflito armado internacional mais impopular da história dos Estados Unidos, desde ao menos a Segunda Guerra Mundial, e desconsiderando apenas a campanha no Vietnã, sobre a qual não há pesquisa feita sob a mesma metodologia. Se 97% dos eleitores apoiavam, em 1945, a campanha na Segunda Guerra Mundial, esse porcentual é, no caso do Irã, de apenas 41%. Um aspecto particularmente importante da alta desaprovação é que ela inclui opiniões negativas não apenas de democratas e pacifistas em geral, mas de boa parte da base de Trump.

Destruição. Os EUA intensificaram os ataques ao Irã, que mantém bloqueado o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo negociado no mundo – Imagem: Atta Tanare/AFP

Desde o início do conflito, figuras de proa do chamado “movimento Make America Great Again (MAGA)” criticam publicamente a decisão de atacar o Irã. Para líderes de audiência nesse setor, como Tucker Carlson e Megyn Kelly, ambos ex-âncoras de renome da emissora Fox News, essa foi uma péssima ideia, por trair a promessa original de que Trump cuidaria de assuntos internos e manteria o “dinheiro do contribuinte” longe de guerras inúteis, nas quais os interesses nacionais não são evidentes ou estão simplesmente a reboque de aliados, como Israel, neste exemplo. A desaprovação que atinge Trump no próprio campo conservador tem como argumento ainda a visão de que o lobby judaico é tão forte que termina aplainando as diferenças entre democratas e republicanos quando se trata de afiançar a defesa ao Estado de Israel.

Se, por um lado, Trump sofre essa pressão incômoda de uma base política contrariada em ano de eleições de meio de mandato, por outro vê crescer ao mesmo tempo a pressão sobre uma economia movida a petróleo e, portanto, sensível à alta no preço do barril do produto. O bloqueio do Estreito de Ormuz fez a cotação do óleo Brent, usado como referência nesse mercado, chegar a 120 dólares o barril na segunda-feira 9, maior valor desde junho de 2022. Antes do fechamento das Bolsas de Valores, Trump apressou-se em dizer que a campanha militar estava quase concluída. Mesmo sem ter qualquer coisa a apresentar como vitória, o presidente norte-americano simplesmente precisava dar sinais de que a aventura teria um fim. Do contrário, a escalada no preço do produto que move grande parte da economia mundial é que não teria fim. O anúncio surtiu o efeito esperado, e os preços recuaram cerca de 10%. Na manhã seguinte, o ministro da Defesa dos Estados Unidos, Pete­ Hegseth, atirou na direção exatamente oposta, e passou a dizer que recrudesceria ainda mais a campanha militar contra o Irã, fazendo da terça-feira 10 um marco da intensidade dos bombardeios.

O apoio ao conflito nos EUA é baixo: 41%

O descompasso entre Trump, ­Hegseth e Rubio demonstra o desalinhamento de propósito e de estratégia que marca esta campanha militar. O desencontro é tão grande, a descoordenação é tão evidente e o risco de insucesso é tão palpável que os norte-americanos não conseguiram nem mesmo angariar o apoio dos aliados europeus para atacar o regime iraniano que não inspira simpatia em nenhum dos integrantes da Otan. Embora o chanceler alemão, ­Friedrich Merz, tenha bajulado Trump e tenha chegado a insinuar que o Irã não é digno sequer de gozar das proteções outorgadas pelo direito internacional, a verdade é que os demais líderes europeus foram muito mais arredios em relação a se alinhar com as motivações da Casa Branca, e não hesitaram em dizer que a operação militar se originou completamente à margem do direito internacional. Na prática, isso se traduziu em uma posição de envolvimento calculado: a Europa despacha suas esquadras para a região do conflito, mas diz que vai se ater às ações de caráter defensivo, como a interceptação de drones, mísseis e foguetes lançados contra suas bases instaladas nos países do Golfo Pérsico e contra aliados na região, com os quais têm de honrar acordos de defesa solidária. Nada disso significa, ao menos por enquanto, que os europeus se engajarão em ações ofensivas contra o Irã.

O desencontro entre os aliados da Otan é apenas um dos efeitos colaterais que evidenciam o crescente isolamento dos Estados Unidos, à medida que seu presidente acelera as ações unilaterais de uso da força contra adversários, buscando atingir não apenas cada um desses países em particular, como nos casos da Venezuela e do Irã, mas também seus principais parceiros, como a China, e, em menor medida, a Rússia. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem linha de chegada’

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