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Fracking de liquidez

Em meio a crédito privado duvidoso, bolha de IA e medo crescente, fundos restringem resgates nos EUA

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Fracking de liquidez
Ativos em queda. E as baratas chegaram no fundo da BlackRock! Uma das três maiores gestoras de ativos no mundo, restringiu o resgate. Where is the money? – Imagem: iStockphoto
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Uncle Sam tem seus dias de desconfiança no crédito privado, lá como cá.

Uma decisão da Black­Rock suscitou nossa ousadia de recorrer à analogia entre o ­fracking e a química dos mercados financeiros. O fracking quebra a rocha para liberar gás de xisto. Os três ingredientes-chave – água, areia e produtos químicos – são misturados e bombeados para o poço sob pressão extremamente alta, por meio de grandes motores a diesel.

Fracking na rocha negra, vulgo ­BlackRock, quebrou a rocha e não liberou o dinheiro. Para liberar gás de xisto injeta água, areia e produtos químicos. Para não liberar liquidez aos investidores, misturam-se crédito privado duvidoso, a bolha de IA e o medo. O que funciona na química mineral, não funciona na química dos ativos financeiros.

Conhecem aquela frase famosa antes do estouro da bolha subprime: “muito grande para quebrar”? Até a rocha negra mais resistente tem suas fissuras de 26 bilhões de dólares. Fundo que proíbe resgate entra em cracking. Pasmem, a BlackRock proibiu! Seus investidores ficaram sem gás, sem seu precioso dinheiro. Quanto maior o ativo, maior a queda.

Segundo a Bloomberg: o HPS ­Corporate Lending Fund, que reúne 26 bilhões de dólares, e é um dos maiores portfólios de crédito, em empresas em desenvolvimento, não negociado em bolsa, informou em comunicado nesta sexta-feira que os cotistas solicitaram o resgate de 9,3% de suas participações. A ­administração decidiu limitar as solicitações a 5%. Embora o valor total fosse de perto de 1,2 bilhão de dólares, segundo cálculos da Bloomberg, os investidores receberão de volta em torno de 620 milhões que o fundo detinha no fim do ano.

Jamie Dimon, o todo-poderoso ­chairman do J.P.Morgan, avisou: “Quando você vê uma barata, provavelmente há mais”, para alertar sobre riscos ocultos e falhas no mercado de crédito privado e bancos regionais dos EUA. E as baratas chegaram no fundo da BlackRock. Uma das três maiores gestoras de ativos no mundo restringiu o resgate. Where is the money?

Quando a roda-gigante dos preços dos ativos gira ao contrário, temos a tal desalavancagem. Deságio na precificação dos ativos financeiros, variação patrimonial negativa, o fundo encolhe, o dinheiro do investidor some. Lembramos aos nobres leitores que, ao pedir resgate de um fundo, o administrador é obrigado a vender o ativo. Se muitos investidores tomam a mesma decisão, há uma venda maciça do ativo, queda expressiva do seu valor, a riqueza diminui. Esse fundo não era negociado em Bolsa, portanto, tem liquidez limitada. Assim, é dever da BlackRock garantir sua liquidez. Vários outros fundos de crédito privado sofreram corridas para resgatar.

“Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando para uma onda de pedidos de resgate, à medida que crescem a preocupação com as práticas de empréstimo do setor e a exposição a empresas que podem ser impactadas pela Inteligência Artificial.” (Bloomberg)

Executivos da HPS Investment Partners­, adquirida pela BlackRock, afirmaram, após a queda das ações na Bolsa americana, que a medida de restringir os resgates ajudaria o fundo a investir em oportunidades de investimento atraentes em meio à incerteza e volatilidade. Você acredita?

Dinheiro é um bicho altamente sensível e nervoso, qualquer perturbação e quebra de confiança todos correm atrás dele. Nessa hora, é a preferência pela liquidez, tradução: quero meu dinheiro.

Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando para uma onda de pedidos de resgate

Na toada de 2023, Jason Calacanis, um proeminente empresário e investidor da internet, apertou o botão do teclado e twittou­ um aviso sobre o colapso do ­Silicon Valley Bank: “Você deve estar absolutamente aterrorizado agora – essa é a reação adequada a uma corrida bancária e ao contágio. Isso vai se transformar em caos”.

A rápida queda do banco regional do setor de tecnologia derrubou os costumes no Vale do Silício. Investidores como Calacanis, que normalmente repreendem os reguladores por sufocar a inovação, voltaram-se para Washington em sua hora de necessidade. A maioria alertou para graves repercussões, caso os depositantes percam o acesso permanente ao seu dinheiro.

As angústias de Calacanis trazem à memória os temores de um experiente administrador de fundos, em meio à tormenta do subprime, a Grande Recessão de 2008/2009: “Quando todos à sua volta estão fazendo negócios à velocidade do raio, é incrivelmente fácil ser carregado pela onda de otimismo e fazer coisas das quais você vai se arrepender. Nesses momentos, a atitude mais corajosa é não fazer nada”.

David Sacks, sócio-gerente da empresa de capital de risco Craft Ventures, que assim como Calacanis é um associado próximo de Elon Musk e tem muitos seguidores no Twitter, alertou para novas corridas aos bancos. “Transfira os fundos do SVB para um dos quatro maiores bancos”, ele tuitou. “Faça isso antes da abertura do mercado na segunda-feira, ou haverá contágio e a crise se espalhará.” Investidores como o empreendedor e investidor de tecnologia Jason Calacanis­, que geralmente reclamam de ser sufocados pela regulamentação, recorreram a Washington após o colapso do SVB. Seus apelos surtiram efeito.

Dois dias após a Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC) assumir o controle dos ativos do banco, o Tesouro, o Federal Reserve e a FDIC anunciaram que os depositantes teriam acesso a todo o seu dinheiro na manhã de segunda-feira. O alívio, no entanto, foi atenuado pelas críticas ao papel desempenhado por alguns investidores de capital de risco na crise do SVB. Quando as preocupações com o balanço patrimonial do SVB aumentaram na semana passada, empresas de capital de risco, incluindo o Founders Fund de Peter Thiel, incentivaram as empresas de seu portfólio a agir em seu próprio benefício e retirar seus fundos. Isso contribuiu para desencadear uma corrida aos bancos. Existe uma acusação mais ampla de hipocrisia em relação a alguns dos investidores de capital de risco que se opõem à regulamentação governamental da tecnologia, mas exigiram que os reguladores interviessem para ajudar os depositantes do SVB. Recorrer à internet para pedir apoio “foi um momento de ‘ateu em uma trincheira’”, disse um executivo de um fundo de capital de risco, que zombou da conversão de seus colegas.

My friend, a rocha negra virou areia. Desconfie de fundos que restringem resgates. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fracking de liquidez’

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