Economia
Perdas e ganhos
As enormes incertezas internas e externas dificultam as projeções do desempenho da economia neste ano
A elevada turbulência internacional sob o governo Donald Trump, um agronegócio menos exuberante, o impulso fiscal negativo desde 2025 e a provável retração de investimentos à espera de uma definição eleitoral acumulam tensões no horizonte da economia brasileira em 2026, mas fatores como a perspectiva de redução dos juros, a ampliação significativa da faixa de isenção do Imposto de Renda e o crescimento constante da renda média do trabalho, entre outros, permitem esperar ao menos um crescimento do PIB semelhante ao do ano passado, de 2,3%, em torno da média dos últimos 20 anos, apontam economistas. A estimativa coincide com a visão da equipe econômica e supera em muito a projeção da Pesquisa Focus, de 1,8%. Alguns veem, entretanto, uma situação menos definida e destacam a importância da redução do espaço fiscal do governo para fazer política anticíclica.
“O ano começa muito incerto, quando se examina o cenário geopolítico”, sublinha Rafael Ribeiro, professor de Economia da UFMG e pesquisador do
Made/FEA-USP. A intervenção dos EUA na Venezuela, e agora a guerra do Irã, com um risco geopolítico muito maior, geram gargalos sérios e afetam o custo dos combustíveis de todo o setor de transporte brasileiro, acrescenta o economista. Nessas condições, não se sabe muito bem como o comércio vai se comportar em termos de exportações e importações.
O governo fala em expansão de 2,3%, o mercado aposta em 1,8%
Em ano eleitoral, prossegue Ribeiro, é natural os empresários segurarem o investimento para poder visualizar melhor quais serão as diretrizes do próximo mandato, se haverá ou não continuidade. Quanto ao gasto do governo, pode ter algum fator de ciclo político mais próximo da eleição, mas, em geral, boa parte do orçamento fica congelado no período. O consumo das famílias dependerá da dinâmica do mercado de trabalho, sujeito a todas essas incertezas externas e internas.
O cenário talvez seja potencialmente mais duro para a indústria, acrescenta o professor, embora o setor possa beneficiar-se da expectativa de um pequeno ciclo de reversão na trajetória da taxa Selic a partir das próximas reuniões do Comitê de Política Monetária. Contudo, esse ciclo pode ser encerrado antes, dado o cenário de incerteza geopolítica, e isso pode traduzir-se em elevações de preços internos. Outro fator que afeta a indústria é a atual escassez de mão de obra. O mercado de trabalho está aquecido e a dificuldade de contratação força as empresas a elevarem salários. Já a indústria extrativa mineral fica muito sujeita ao cenário internacional.
No agronegócio, neste ano, ao contrário de 2025, não há expectativa de grandes safras, talvez com exceção da soja. E depende muito de que modo o fim do ciclo de chuvas afetará a produção e a lavoura. “Não vou cravar número, mas a minha expectativa é de que, por todos esses fatores de incerteza, geopolíticos e domésticos, o PIB neste ano talvez fique no mesmo patamar, talvez um pouco abaixo, daquele de 2025. A menos que algum acontecimento reverta esse cenário, dificilmente o crescimento será maior. Mas não acho que vá acontecer uma recessão ou uma estagnação econômica”, acrescenta Ribeiro.
Os juros altíssimos por longo período minaram os resultados de 2025, mas a expectativa de início de um ciclo de queda da Selic a partir deste mês diminuirá a pressão sobre a economia brasileira, ressalta o economista André Luiz Passos Santos, sócio da consultoria BPCT. O desemprego está em mínima histórica e a ampliação significativa da faixa de isenção do Imposto de Renda, que passa a beneficiar 90% dos contribuintes, injetará 8,35 bilhões de reais na economia, segundo projeções do Senado, acrescenta Santos.
Outro ponto importante é a elevação constante da renda média do trabalho, que supera 3,6 mil reais mensais. “A tendência é de um comportamento mais estável do emprego e da renda, com ganhos reduzidos daqui em diante”, avalia o economista.
Agronegócio. A safra de soja, assim como a de outros produtos, não repetirá o desempenho de anos anteriores. O cenário global provoca oscilações – Imagem: iStockphoto
A indústria de transformação, prossegue, com baixo desempenho em 2025, dá sinais de retomada, com crescimento de 1,8% em janeiro, recuperando parte das perdas do ano anterior. Com o provável aumento da demanda e a queda dos juros, é bem razoável supor uma recuperação moderada da Formação Bruta de Capital Fixo, o que puxaria para cima o PIB.
As exportações, em especial aquelas de minérios metálicos, produtos agropecuários e, sobretudo, de petróleo bruto igualmente têm perspectivas positivas, apesar de o câmbio estar sobrevalorizado. Acrescente-se a ampliação das incertezas no cenário internacional, com múltiplas guerras, que tem atraído capitais internacionais para o mercado brasileiro de títulos, em operações de arbitragem.
Em contrapartida, há o impulso fiscal negativo desde 2025, anulando a atuação fiscal expansiva de 2023 e parte de 2024. Santos não acredita, entretanto, em uma redução ainda maior dos gastos do governo, por ser ano eleitoral.
O cenário internacional é o de maior risco para a economia brasileira, com a redução do ritmo de crescimento chinês, a estagnação europeia e o baixo crescimento projetado para a economia dos EUA, indicativos de uma queda mais ou menos acentuada na demanda por importações. Há ainda os efeitos da crise argentina, que atinge o setor automotivo, uma vez que os dois países têm cadeias produtivas altamente conectadas.
O petróleo em alta ameaça a oferta mundial do produto, arrisca romper os arranjos produtivos globais e pode provocar um reajuste expressivo nos preços internos dos combustíveis, com pico inflacionário e risco para a projetada redução dos juros. Mas o País tende a beneficiar-se com a elevação da receita das exportações brasileiras de petróleo, ressalta o economista.
“Meu cenário para 2026, observadas as tendências apontadas, é de um crescimento próximo ao observado em 2025, na casa dos 2,3%. Não creio em recessão, ressalvadas mudanças bruscas de cenários. Mas também não vejo uma expansão do PIB maior do que a de 2025. Uma escalada das guerras e sua expansão para outros países pode alterar dramaticamente o cenário, mas arrisco dizer que o impacto potencial sobre o fornecimento crucial de petróleo, somado ao surpreendente nível de resposta do Irã, tende a arrefecer os impulsos estadunidenses”, destaca Santos.
A redução do estímulo fiscal do governo terá efeito negativo no PIB
Aspectos da economia no ano passado tornam mais claro o panorama de 2026. Segundo o economista Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, a redução do crescimento econômico em 2025 foi marcada pelos efeitos da própria política monetária, mas também, em certa medida, pela perda do estímulo fiscal que o governo conseguiu impulsionar nos primeiros anos, a começar pela PEC da transição, depois por conta da renegociação do arcabouço fiscal. Esse estímulo fiscal tem perdido força ao longo do governo e isso desestimula a demanda doméstica, cujos sinais aparecem justamente agora, acrescenta o professor.
A perspectiva para o ano é que o governo terá menos espaço fiscal para adotar políticas contracíclicas. Quanto à conjuntura, o conflito no Irã aumenta o grau de incerteza internacional, bem elevado por diversas questões, sobretudo o comportamento do governo Trump e toda crise institucional que ele tem provocado, assim como a incerteza relacionada a esta situação.
Com o conflito, acrescenta Rocha, podemos ter pressões inflacionárias, a depender justamente de como ele se desdobrará, se vai escalar para toda a região, de que modo afetará o fornecimento de combustíveis e de fertilizantes e como isso repercutirá na economia brasileira. “Se o conflito perdurar por muito tempo, a economia brasileira provavelmente vai sentir os efeitos, sobretudo no aumento da pressão inflacionária e isso pode significar um crescimento ainda menor em um momento onde os instrumentos políticos do governo não são muito robustos para contrabalançar o efeito de desaceleração da economia global”, alerta o professor da Unicamp, que prevê um crescimento do PIB entre 2% e 2,2%. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Perdas e ganhos’
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