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Acordes potentes

Palco, inclusão e método próprio transformam a School of Rock Brasil em um negócio de 100 milhões de reais por ano

Acordes potentes
Acordes potentes
Afinada e lucrativa. Sob a batuta do empreendedor Paulo Portela, a operação brasileira tornou-se a mais lucrativa da rede fora dos EUA – Imagem: Marcos Assis/School Of Rock
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O empreendedor Paulo Portela não estava procurando uma escola de música quando entrou no BB King’s, na Times Square, em Nova York, em 2011. À época, trabalhava em uma empresa multinacional, recusava convites para morar fora e enfrentava, em casa, o desafio de criar quatro filhos que, em graus diferentes, lidavam com ansiedade, depressão ou alguma forma de neurodivergência. Uma das filhas havia desenvolvido fobia escolar, e a família considerava caminhos alternativos de aprendizagem.

No palco daquela noite, adolescentes de 14 a 17 anos tocavam com grande desenvoltura. “Não era uma apresentação de fim de curso, era um show. Fiquei impressionadíssimo com a performance da garotada”, lembra. No dia seguinte, a marca School of Rock – a mesma do filme protagonizado por Jack Black – apareceu na capa de uma revista norte-americana de franquias, e o que parecia coincidência transformou-se em ideia fixa.

Portela enxergou duas oportunidades ao mesmo tempo: uma proposta pedagógica baseada na prática e na socialização, algo que dialogava com o que buscava para os filhos, e um modelo de negócio estruturado, replicável, pronto para chegar ao Brasil e ganhar escala. Ali, a decisão de deixar o mundo corporativo e empreender tornou-se definitiva.

O então diretor de Recursos Humanos da IBM conversou com a matriz norte-americana e decidiu apostar no formato de master franquia. A School of Rock­ chegou ao Brasil em 2013, primeiro em São Paulo, em um momento em que a marca ainda tinha presença discreta fora dos EUA. Desde então, a operação brasileira consolidou-se como a principal da rede no exterior.

O método visto em Nova York tornou-se o principal apelo comercial. A escola organiza o ensino em temporadas temáticas que culminam em apresentações públicas, e cada aluno sobe ao palco pelo menos três vezes por ano. “A gente conquista primeiro o coração do aluno. Depois ele quer aprender a teoria”, diz. A proposta inverte a lógica tradicional dos conservatórios e cria uma rotina de ensaio, convivência e performance.

Em pouco tempo, o negócio ganhou tração. A operação brasileira ultrapassou a marca de 100 milhões de reais em faturamento em 2025, com cerca de 10 mil alunos matriculados. Hoje, a rede reúne, aproximadamente, 60 escolas no País e projeta alcançar 200 unidades até 2030.

O formato adotado é o de franchising. Para abrir uma unidade da School of Rock­ no Brasil, o investimento inicial varia de 600 mil a mais de 1 milhão de reais,­ incluindo taxa de franquia, reforma acústica, aquisição de instrumentos musicais e capital até o ponto de equilíbrio. A franqueadora acompanha todo o processo de implantação e exige que metas de captação de interessados sejam atingidas antes da inauguração.

A clientela ajuda a explicar a expansão. Crianças e adolescentes continuam sendo a maioria do público, mas os adultos ganharam espaço. Perto de 35% da base brasileira tem mais de 18 anos. Em algumas unidades, esse grupo é o maior, concentrando-se entre 35 e 45 anos. Muitos chegam depois do expediente, em busca de uma atividade coletiva. “Um terço dos nossos alunos é de executivos e empreendedores que querem relaxar e fugir do burnout”, afirma Portela, CEO da School­ of Rock Brasil.

A escola vende palco, mas o que mantém a recorrência é a socialização. Ensaios semanais, repertório definido e agenda de shows criam compromisso. A mensalidade varia de 500 a mais de mil reais, dependendo do programa escolhido. O aluno paga para tocar, ensaiar e se apresentar.

O negócio decolou, e o baterista e pedagogo Paul Lafontaine tornou-se um parceiro. Ele nem sequer pensava em empreender quando começou a dar aulas de bateria para quatro alunos com deficiência, indicados por um antigo professor. Era 2008, ele havia interrompido a carreira de músico profissional e buscava outro caminho dentro da música. A primeira reação diante do desafio foi ansiedade: queria resultados, evolução técnica e progresso visível. Até ouvir uma coordenadora da instituição de onde vinham os alunos dizer: “Como eles saíram do estúdio? Saíram felizes?”

A resposta mudou o rumo do projeto, e o que era um “bico” se transformou em um método de ensino, com repertório, ritmo e prática, sem enquadrar esse trabalho como terapia. “Eles têm as limitações, mas nasceram com alma de baterista”, diz ­Lafontaine. Foi daí que surgiu o nome do projeto. O Alma de Batera abriu no Brooklin e passou a organizar workshops com músicos conhecidos, que aceitavam o convite ao perceber que ali não havia plateia reverente, mas alunos interessados apenas em tocar. Em mais de 18 anos, o projeto atendeu cerca de 400 participantes.

Com 10 mil alunos e cerca de 60 escolas no País, a rede projeta chegar a 200 unidades em até cinco anos

A School of Rock já recebia alunos com autismo, síndrome de Down, cadeirantes e jovens com dificuldades de socialização. Psicólogos e psicopedagogos começaram a indicar a escola como espaço de convivência. Faltava, porém, um método estruturado para ampliar o atendimento. A aproximação entre Portela e Lafontaine ocorreu por sugestão de Luiz Justo, CEO do Rock in Rio, que conhecia ambos, e do baterista da banda californiana Green Day, Tré Cool, que acompanhava o projeto.

O encontro foi benéfico para ambos. Se o Alma de Batera tinha vasta experiência pedagógica, mas alcance limitado, a School of Rock oferecia estrutura e capilaridade. O piloto começou na unidade do Brooklin, onde alunos do projeto passaram a frequentar e socializar, enquanto a rede de Portela treinava os instrutores para replicar o modelo em dezenas de escolas.

“Para nós, é um aluno como qualquer outro”, afirma o CEO da School of Rock. A franqueadora criou um comitê de diversidade para mapear a acessibilidade nas unidades e incluiu adaptações físicas no manual de construção das escolas. Há também uma associação ligada ao grupo para captar recursos e oferecer bolsas, embora muitos alunos PCDs prefiram custear as aulas com recursos próprios.

Quando decidiu deixar a multinacional em que trabalhava, Portela não pensava em abrir 200 escolas ou faturar 100 milhões de reais por ano. Pensava apenas na experiência que teve no BB King’s. Hoje, projeta ampliar a base para mais de 35 mil alunos nos próximos anos. E a cena do clube nova-iorquino ainda serve de referência. Os adolescentes tocam para uma plateia pagante, sem distinção entre quem chegou ali por vocação artística ou em busca de pertencimento. “A magia da música está em tocar junto, e o rock, embora algumas vezes dado como morto, é uma energia que se renova toda vez que alguém encontra o próprio som”, resume Portela. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Acordes potentes’

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